quarta-feira, 13 de março de 2019

5445 - O prazer e a sociabilidade a partir do rio Caí

São Sebastião do Caí no início do século XX,  vista do Morro do Martim 
(hoje Morro do Hospital) 

REPRESENTAÇÕES DA CIDADE: LAZER E SOCIABILIDADES A PARTIR DO RIO CAÍ (1875 - 1950) Janice Roberta Schröder 1 

Este estudo tem como tema as representações dos caienses em relação ao rio Caí no que tange ao lazer e às sociabilidades desde o surgimento do município em 1875, até o declínio da navegação no rio em  meados do século XX. Para isso, fez-se uso de diferentes fontes de pesquisa como história oral, poema do livro "Reminiscências"(1975) e fotografias. Esta pesquisa é qualitativa e se insere no campo da História Cultural do urbano. Busca identificar e analisar as representações dos caienses em relação ao rio Caí no que se refere ao lazer e as sociabilidades no período em questão. Constatou-se que o rio Caí, além de ser crucial para o desenvolvimento econômico da cidade, também foi importante para o lazer e sociabilidades dos caienses fazendo parte da sua memória coletiva.  

Palavras-chave: História cultural. Memória. Representações. Rio Caí. Lazer e sociabilidades. 

Introdução 

 O presente artigo é uma adaptação da pesquisa para a dissertação de mestrado que versa sobre a relação entre a cidade de São Sebastião do Caí e o rio. Este estudo tem como tema a relação dos caienses com o rio Caí, no que se refere ao lazer e sociabilidades, desde 1875 até meados do século XX. A delimitação temporal se deu desta forma devido à importância do rio como escoadouro de mercadorias e via de acesso a bens não fabricados na região, o que possibilitou a elevação do povoado à categoria de vila, em 1875, devido ao Porto do Guimarães. A pesquisa estende-se até meados do século XX, quando a navegação no rio Caí, que passava por um processo de declínio já há algumas décadas, praticamente desapareceu, especialmente devido ao investimento em rodovias em detrimento do investimento em hidrovias.  A importância do rio ficou registrada no nome da cidade. São Sebastião do Caí traz a herança indígena em seu nome. “Caí” significa rio da mata, enquanto São Sebastião refere-se ao nome do padroeiro da cidade. O rio pertence à bacia hidrográfica do rio Caí e, de acordo com o Comitê de gerenciamento da bacia que leva o mesmo nome, abrange uma extensão de 264 km. Ele nasce em São Francisco de Paula, e suas 
                                                          
 1 Universidade FEEVALE. Mestrado em Processos e Manifestações Culturais. E-mail: janicerobertas@hotmail.com 


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águas deságuam na margem esquerda do Jacuí, onde se inicia o Guaíba. Pensando em desenvolver o trabalho por meio de um viés histórico e cultural baseado em representações, adentrou-se um caminho incerto, porém, instigante, que é o estudo de um poema, memórias e imagens que versassem sobre a cidade na sua relação com o rio Caí. De acordo com Pesavento (2002, p. 8), "a representação guia o mundo, através do efeito mágico da palavra e da imagem, que dão significado à realidade e pautam valores e condutas". Almeja-se, neste trabalho, descrever e interpretar as representações dos caienses na relação cidade/rio. Mediante este estudo, acredita-se ser possível alcançar representações pelo uso de diversas fontes de pesquisa, aliadas a uma metodologia de análise flexível, pautada na História Cultural. Foram realizadas entrevistas com o intuito de verificar quais as representações dos caienses acerca do rio Caí. Esta é uma pesquisa qualitativa e para a realização das entrevistas, seguiram-se as orientações de Thompson (1992) e Alberti (2008). Neste trabalho, foi feito o uso de entrevistas exploratórias e semiestruturadas, já que são poucos os registros escritos sobre a relação da cidade com o rio.  Os entrevistados são caienses acima de 68 anos de idade. Os critérios para a seleção dos entrevistados foram o conhecimento e/ou interesse sobre a história da cidade, a idade e a memória, que esteja apta a conceder entrevistas coerentes. Entre janeiro e novembro de 2013, foram entrevistadas oito pessoas, dentre as quais havia duas mulheres e seis homens. São eles: Sra. Marisa Selbach, Sr. Carlos Antônio Campani, Sra. Elisabeth Augusta Müller Oderich, Sr. José Alceu de Paula, Sr. Jacob Christiano Selbach, Sr. Cristiano Eraldo Oderich, Sr. Mario Glaeser e Sr. Renato Klein.  Ademais, fizemos uso de um poema escrito por Helena Cornelius Fortes (1975), em livro intitulado Reminiscências. Salientamos que o poema empregado neste trabalho refere-se ao período ao qual o estudo se propôs, isto é, do início da constituição da vila de São Sebastião do Caí, até meados do século XX. A obra foi escrita em homenagem ao centenário do município. Convém ressaltar que, para a escrita dos poemas do livro, a autora entrevistou idosos, que contribuíram com suas representações sobre os mais variados aspectos relacionados à cidade, o que faz seus poemas serem considerados como registros sobre aspectos históricos e culturais de São Sebastião do Caí sendo utilizados, na presente pesquisa, para a contextualização dos relatos orais. 


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A análise das fontes está pautada na História Cultural. Parte-se do princípio de que este estudo se insere no que Pesavento (2002, p. 8) chama de "história cultural do urbano e que se propõe a estudar a cidade através de suas representações". É na cidade que as pessoas vivem e convivem sendo, portanto, um lugar permeado por imaginários, representações e memórias, sejam estes ou estas individuais ou coletivas. Nesse sentido, Chartier (2002) propõe que as representações coletivas são como as matrizes de práticas que constroem o próprio mundo social. Portanto, foram adotados tais pressupostos para o desenvolvimento deste estudo. A metodologia da História Cultural é pautada no estudo das representações por meio de um olhar investigativo. Pesavento (2012, p. 65) enfatiza que o historiador deve "montar, combinar, compor, cruzar, revelar o detalhe, dar relevância ao secundário, eis o segredo de um método do qual a História se vale, para atingir os sentidos partilhados pelos homens de um outro tempo". Deve também se valer de vestígios diversos, isto é, fontes variadas para fazer o cruzamento e compor uma representação do passado. Na exposição da metodologia, a autora aponta também a descrição densa apropriada da Antropologia que vem a complementar o que já foi proposto. Esta descrição pressupõe a exploração intensa das fontes na busca de significados. Deste modo, investiu-se no cruzamento de diversas fontes para se obterem representações da relação cidade/rio e foram feitos os registros necessários. Encontraram-se, nas fontes pesquisadas, várias atividades como banhos no rio, natação, pescarias, regatas, almoços nos vapores e piqueniques, que serão apresentados na sequência. 

Piqueniques 

Além de os vapores levarem cargas, tinham estrutura como beliches para acomodar os passageiros e o restaurante, que, pelas considerações de alguns entrevistados, oferecia refeições muito boas. Em entrevista, o Sr. Carlos Antônio Campani destacou que “em domingos, quando os vapores estavam atracados aqui [...] o pessoal ia almoçar nos barcos e os alugavam para fazer piquenique, passeios, [...] quando eles não estavam a serviço em Porto Alegre”. Ele enfatizou ainda: “tanto é que 


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os melhores restaurantes que nós tínhamos na época eram em cima dos barcos”. Portanto, aos domingos, quando os vapores estavam atracados no porto, podiam ser alugados para passeios ou então ser o local para almoços dominicais. Nesse sentido Candau (2012) destaca que as memórias nos modelam e são modeladas por nós. Os entrevistados enfatizaram os aspectos positivos na relação com o rio. As representações em torno dos vapores eram extremamente positivas, comportando saborosos restaurantes e aconchegantes acomodações para as viagens. Convém lembrar também da seletividade da memória, a partir de Pollak (1992). Como a memória é seletiva, nem tudo é lembrado. Só alguns entrevistados lembraram as tragédias2 ocorridas com vapores no rio Caí. A seguir, veja-se um poema de Helena intitulado "Pique-niques (sic) de vapor" para se ter ideia da dimensão que tal atividade tinha neste contexto. 

De vapor, os pique-niques que o Clube Tesoura fazia proporcionavam aos sócios horas de grande alegria. 

Dois vapores carregados com as famílias inteiras desde o mais novo ao mais velho com suas roupas domingueiras. 

As moças e as meninas, de chapéu, cabelos em trança, sorrindo antegozavam do mato a grande festança. 

A rouca voz do apito de quando em vez assustava,  chamando algum retardado que de mole se atrasava.  

As sete horas em ponto os barcos desamarravam; em cada barco uma Banda que a tocar se revezavam. 

Cada qual mais apinhado de gente alegre a cantar   
                                                        
 2  Conforme Masson (1940), na história da navegação do rio Caí, houve duas catástrofes. No dia 9 de fevereiro de 1890, em Porto Alegre, explodiu a caldeira do vapor Maratá, destruindo completamente a embarcação que pertencia a Carlos Guilherme Schilling. E, em junho de 1923, pouco abaixo de Montenegro, sucedeu o mesmo com o vapor Horizonte, da companhia Kayser & Erig. 


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em direção ao Paquete3 onde tudo iria acampar. 

Com muito garbo seguiam os dois barcos sobre as águas levando a carga risonha  pra esquecer as suas mágoas. 

Encantados na paisagem, no esplendor da natureza, ramos verdes, musgo e flores reunindo toda a beleza. 

De cada lado os curiosos no barranco espreitavam não podendo tomar parte só em olhar se deliciavam. 

Ora num lado, ora noutro, o pessoal nunca parava, o barco pendia tanto que, aos gritos, quase afundava. 

O presidente do Clube era compadre e amigão do dono lá da Fazenda  que fazia boa recepção. 

Num grande mato copado as famílias acampavam; ao som das Bandas tocando, seus lanches desembrulhavam. 

A peonada da casa duas novilhas abatia,  a gorda carne em churrasco às famílias oferecia. 

Jogos, corridas e dança, e o fim da tarde chegava. Tristeza pra mocidade alivio pra mãe cansada. 

Apitos e mais apitos era hora de regressar. Corriam todos aflitos e a Banda ainda a tocar. 

E, então, mais do que nunca todo o vapor era pouco; os barcos iam subindo  e o peso era coisa de louco. 
                                                          
 3  Conforme o Sr. Renato Klein, os veleiros eram chamados de paquetes. E, devido ao naufrágio de um deles, a fazenda ali localizada recebeu a denominação de Paquete.  


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Todos, na mente, traziam do passeio as maravilhas, traziam, também, o peso das duas gordas novilhas. 

As Bandas já não tocavam, o seu repertório esgotara e as moças ainda cantavam recordando o que passara. 

De tantos jovens alegres restam hoje velhos tristonhos, vivendo só das saudades e revivendo seus sonhos. 

O poema dá voz a uma das práticas de lazer e sociabilidade de alguns caienses, os piqueniques. Essa prática, destacada por Fortes (1975), realizada aos domingos, “proporcionava... horas de grande alegria” às pessoas que, desde cedo se preparavam para o passeio. Roupas domingueiras eram vestidas e penteados nas moças eram feitos, junto com belos chapéus para aproveitar o passeio. A música e o canto embalavam a viagem. Os vapores seguiam levando os passageiros contentes que aproveitavam para esquecer os problemas. Nesse sentido, pode-se dizer que o vapor fluía, levando consigo desejos de um dia repleto de alegria, embalado ao som da banda que contagia. Além do passeio no vapor e da bela música, os passageiros podiam observar a natureza, encantados com as belezas naturais. Porém, é interessante lembrar os que deste lazer não podiam desfrutar, pois a estes só restava observar. Nos versos do poema em questão, a poetisa não esquece aqueles, que eram muitos, e que não tinham condições de desfrutar de um passeio destes. No lugar escolhido para o piquenique, geralmente se fazia churrasco, oferecido pelos anfitriões, regado a músicas que a banda continuava a tocar. Comes e bebes não faltavam. E ao final do dia, ao som do apito, os vapores seguiam ao seu local de origem. Outro aspecto interessante é o final do poema, extremamente nostálgico, que evidencia que ou a autora, ou os idosos entrevistados, tinham saudades do tempo em que realizavam tais passeios. Conforme Bosi (1994, p. 414), “o grupo é suporte da memória se nos identificamos com ele e fazemos nosso seu passado”. Portanto, 


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possivelmente o grupo no qual a poetisa estava inserida tinha esse sentimento de nostalgia em relação ao tempo em que realizavam os piqueniques. Os piqueniques a vapor representavam momentos de alegria para os que deles tinham condições de desfrutar. Por outro lado, possivelmente causavam tristeza numa considerável parcela dos moradores que não tinha condições de usufruir de tais passeios. Contudo, as cachoeiras localizadas à montante do rio, a partir do porto do Guimarães, eram amplamente utilizadas para banhos e realização de piqueniques. Para realizar estes passeios, não se precisava de vapores, podia-se ir até perto do local desejado inclusive a pé. Os piqueniques são representações de momentos coletivos vividos em torno do rio. Sejam aqueles em que os moradores eram conduzidos a vapor até o local desejado ou aqueles em que as pessoas se deslocavam a pé, com o auxílio de animais, ou posteriormente, com carros, até as cachoeiras para fazer seus piqueniques. Nesse sentido, retoma-se Catroga (2001), que destaca que a memória é social. As memórias dos piqueniques são memórias coletivas que exigem o testemunho do outro, ao mesmo tempo em que geram a coesão destes grupos. Sendo assim, estas memórias são materializadas transformando-se em representações positivas de momentos de lazer e sociabilidades em torno do rio Caí. 

Bloco de carnaval dos Marinheiros 

A cidade tinha, inclusive, um bloco de carnaval denominado "Os Marinheiros". Na sequência, a Figura 1 mostra uma fotografia deste bloco, datada de 1936. 



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Figura 1 – Imagem do vapor Salvador com o bloco "Os Marinheiros". 

Fonte: Acervo fotográfico de Carlos Antônio Campani. 

A partir da imagem, pode-se constatar que os participantes do bloco de carnaval “Os Marinheiros” encontravam-se uniformizados, posando para a foto, possivelmente se deslocando para algum baile na região. Todos aparentemente bem alegres. Ao fundo, é erguido um estandarte com uma âncora, símbolo do grupo. Evidencia-se portanto, a partir do nome do bloco e de seu símbolo, a forte ligação do mesmo ao rio Caí. Partindo da premissa de que a navegação no rio Caí era uma constante, a socialização e a criação de grupos com interesses em comum foi uma consequência. O bloco em questão é um exemplo e serve para reforçar o imaginário de que os vapores eram palco de desenvolvimento, não exclusivamente econômico, mas também cultural. O bloco de carnaval dos marinheiros era um deles e refletia aspectos prazerosos em relação aos vapores e às pessoas relacionadas, de alguma forma, a eles. O Sr. Carlos Antônio Campani conversou com um casal integrante do bloco, Sr. Mauro Selbach e Sra. Elaine Selbach, que ainda residem na cidade e conseguiu resgatar parte da marchinha de carnaval que era assim: 


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Remando a vida vai passando Sorrindo a vida vai caminhando No balanço das ondas No teu coração estou boiando No apito do Salvador Encontrei o meu amor. 

A partir da marchinha de carnaval, pode-se constatar a ligação do grupo com o curso d'água, pois utilizaram termos como remando, ondas, o apito do Salvador, enfim, termos associados ao rio, evidenciando sua ligação a este. A imagem, aliada à marchinha, e a lembrança de um dos entrevistados expressam, de certa forma, representações da cidade relacionada ao rio, pois evidencia essa ligação a partir da criação do próprio bloco. Retomando-se as ideias de Woodward (2000), a representação inclui as práticas de significação e os sistemas simbólicos por meio dos quais os significados são produzidos, e é por meio destes que damos sentido ao que somos, portanto, constituímos nossa identidade. Então, a criação do bloco "Os Marinheiros" expressa a ligação de um grupo de caienses com o rio, com os vapores, enfim, traz aspectos que reforçam a identidade do grupo. Legitima-se, portanto, um imaginário de que para determinado grupo existia muita diversão por sobre as águas. Através das águas fluíam os vapores, carregando as emoções, diversão e as famosas marchas de carnaval. 

Banhos no rio Caí, natação e pescarias 

Conforme os entrevistados, os banhos no rio Caí eram frequentes. De acordo com a Sra. Marisa Selbach, muitas pessoas banhavam-se no rio, de tardezinha ou nos fins de semana. Um lugar muito usado para banho era a prainha, também conhecida como manteiga. Marisa destacou “a manteiga é logo do lado do cais, onde eu sempre tomei banho. Aí tu não podias ir mais para cá, porque era fundo, então na manteiga todo mundo ia porque ali se podia tomar banho e atravessar o rio”.  Em relação aos banhos, o Sr. Cristiano Oderich afirmou que, na década de 1950, quase metade da população ia tomar banho no rio nos finais de tarde. Ele destaca que, 


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quando visitava sua avó, também tomava banho no rio, num lugar que se chamava manteiga. Em tom de brincadeira, explicou: “manteiga é ali ao lado do porto, eu acho que tinha esse nome, porque o lodo que tinha lá, aquilo ficava tão denso como se estivesse caminhando numa manteiga, daí eu acho que vem o nome manteiga”. O entrevistado enfatizou que, na época em que havia mais barcos, não se podia tomar banho em qualquer lugar por questão de segurança. Porém, convém lembrar que da vila em direção à montante do rio não era frequente a utilização da via para navegação, portanto, era apropriado para banhos, inclusive e, especialmente nas cachoeiras, como já apontado.  A Sra. Marisa Selbach destacou ainda: “ali no porto o pessoal fazia as peripécias, se atiravam, então e agora vamos ver quem vem... mas é porque ali se podia arriscar, e em outros lugares não”. A entrevistada enfatizou também que muitos nadavam com frequência no rio. Já o Sr. José Alceu de Paula afirmou que no verão o divertimento era o rio. Ele destacou: 

E no verão era o rio, nosso grande rio! Banho de tarde... nós saíamos daqui e subíamos, às vezes com oito caícos... uma gurizada, alguns mais idosos, mas todo mundo já nadava. Íamos lá para cima no rio, comíamos melancia, milho verde... Depois deixávamos o caíco vir sozinho. A gente ia até perto onde é o balneário da Harmonia e depois voltávamos de caíco. O nosso divertimento no verão era o rio todos os dias. 

Além dos banhos de rio, da natação e dos passeios de caíco, o entrevistado enfatizou outras atividades realizadas no rio como os mergulhos, onde competiam para ver quem conseguia ficar mais tempo embaixo d'água, as brincadeiras no rio com bola, ou sem bola, o sentar-se nas pedras que havia às margens, a brincadeira de bater as pedras para o outro escutar lá do outro lado, enfim, o rio era sinônimo de diversão nos verões. O Sr. Jacob Selbach lembrou quando vinha com seu pai, Sr. Heitor4, na época, secretário geral do prefeito, e pescava no rio junto com o amigo, filho do Dr. Orestes. Destacou que além de pescar, observavam os lambaris nadando, comiam frutas silvestres, como pitanga, quaresma... que havia na prainha. 
                                                          
 4  Sr. Heitor foi secretário geral do prefeito Dr. Lucas Orestes, depois foi três vezes vereador e duas vezes prefeito da cidade. 


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Retomando a questão da seletividade da memória, enfatiza-se que somente a Sra. Marisa Selbach destacou um afogamento no rio. Porém, vários entrevistados salientaram que atualmente não é mais possível tomar banho no rio Caí em função da poluição5. Entretanto, ainda assim sobressaem-se, portanto, as lembranças positivas em relação ao rio no que tange ao eixo lazer. Como se pode perceber, os banhos no rio tiveram mais destaque nas colocações dos entrevistados, contudo, a prática da natação e as pescarias também foram destacadas, dentre outras atividades relacionadas ao rio. Contudo, não se pode deixar de destacar o entusiasmo dos entrevistados ao relatar as lembranças de lazer e sociabilidades em relação ao rio. Porém, foi evidente também a tristeza estampada em seus olhares quando se referiam à atual situação do rio, ou seja, à poluição que hoje afeta o rio Caí. 

Clubes de Regatas na cidade  

A cidade contava também com um clube de regatas. Conforme informações obtidas a partir de Licht (1986), em oito de agosto de 1923, o Correio do Povo noticiou a fundação, em São Sebastião do Cahy6, do Grêmio Almirante Tamandaré, tendo como organizadores: Otto Gruber, Max Oderich, Edgar Mentz, Oswaldo Seidl e Pery Costa. Uma das iniciativas do clube foi a aquisição de um gig a quatro remos Toropy, do Grêmio de Regatas Almirante Tamandaré, de Porto Alegre. Porém, de acordo com o estudioso, o clube funcionou por poucos meses. Mais tarde, em dezessete de março de 1936, foi fundado o Praia Club – Grêmio de Natação e Regatas, que teve sua sede na Rua Tiradentes, número 205. Na presidência, ficou o Dr. Gabriel Obino e, na vice-presidência, o Dr. Herwig Krekel. A partir de então, o clube ganhou várias competições. A seguir, a Figura 2 apresenta uma fotografia do grupo que ganhou várias competições entre clubes na 
                                                          
 5  Conforme aponta pesquisa do IBGE (2010), o rio Caí é o oitavo rio mais poluído do Brasil. Fonte: http://www.ecodesenvolvimento.org/posts/2012/marco/dados-do-ids-destacam-os-10-rios-maispoluidos-do?tag=agua. 6  Acredita-se que o nome da cidade foi escrito dessa forma em função da grafia empregada na época. 


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cidade e inclusive em Porto Alegre. Os competidores são: Reinaldo Kayser - timoneiro, Atílio Rübenich, Mauro Selbach, Reno Jacobsen e Remo Rübenich. A foto foi tirada em 1936. 

Figura 2 – Competidores: Reinaldo Kaiser - timoneiro, Atílio Rübenich, Mauro Selbach, Reno Jacobsen e Remo Rübenich. 

Fonte: Acervo fotográfico de Carlos Antônio Campani obtido com Mauro Selbach. 

Vários entrevistados lembraram da existência da prática das regatas no rio Caí. O Sr. Cristiano Oderich destacou: “tinha os clubes de regatas... o meu pai fez parte do clube. Eles tinham dois ou três barcos de remo para as regatas, eu não sei onde eles foram parar, durante muitos anos eles estavam na carpintaria dos Selbach, lá na beira do rio”. Em entrevista, a Sra. Elisabeth Oderich ressaltou:  

Antigamente tinha as regatas. Ali onde tem um prédio, (presídio desativado) onde tinha o banco Pelotense, lá eram guardadas as regatas e depois lá no Mauro Selbach, perto do rio. Aquilo era muito bonito! Eles participaram de vários campeonatos em Porto Alegre e ganharam prêmios e tudo. [...] ali tinha muito divertimento e era um esporte muito prestigiado [...]. 


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A partir das lembranças da Sra. Elisabeth Oderich, pode-se enfatizar o prestígio com o qual o clube de regatas contava. Ela destaca: “Aquilo era muito bonito!”. Porém, infelizmente, de acordo com Licht (1986), em maio de 1941, o clube teve prejuízo total devido à catastrófica enchente ocorrida na cidade. A partir de então, não se tem mais informações sobre a continuidade ou não das atividades do clube. Entretanto, convém salientar que os entrevistados que destacaram a existência do clube de regatas enfatizaram a prática do esporte no rio e o prestígio que o grupo, apresentado na Figura 2, atingiu ganhando competições.  

Considerações finais 

 Retomando algumas ideias destacadas, convém salientar que a maioria dos entrevistados lembrou de aspectos positivos relacionados ao rio Caí. A exceção foi a lembrança de duas tragédias que ocorreram no rio, nas quais dois vapores explodiram. Outra memória, levantada com nostalgia foram os frequentes banhos no rio que hoje estão impossibilitados em função da poluição deste curso d'água.  Entretanto, a maior parte das lembranças relacionadas ao rio foi positiva e foram relatadas com muito entusiasmo como os piqueniques, por exemplo. Tanto os que os caienses eram conduzidos ao paquete com os vapores quanto os realizados nas cachoeiras, foram muito lembrados pelos entrevistados e poeticamente descritos por Fortes (1975) e podemos dizer que permeiam a memória coletiva dos moradores da cidade. Outras atividades como os banhos no rio Caí, a natação, as pescarias também foram destacadas pelos entrevistados. Bem como passeios de caíco e brincadeiras como bater as pedras para o outro escutar do outro lado, brincadeiras no rio com e sem bola e competições de mergulho para ver quem conseguia ficar mais tempo embaixo d'água.   Outras atividades que evidenciam a ligação dos caienses ao rio no que tange ao lazer e sociabilidades foi a criação do bloco de carnaval "Os Marinheiros" pois este bloco pode representar a importância não só econômica do rio mas como espaço de sociabilidades. Convém salientar também, os Clubes de Regata da cidade, apreciados 


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por muitos caienses e que rendeu prêmios a alguns competidores inclusive em Porto Alegre.  Portanto, por meio da pesquisa, foram identificadas diversas atividades evidenciando o caráter plural das atividades bem como o envolvimento de diferentes grupos, cada qual com suas preferências. Deste modo, pode-se perceber que o lazer relacionado ao rio tem aspectos coletivos, porém, diversos, isto é, as mais diversas representações apresentadas ora se relacionam a um grupo, ora a outro. Essa constatação vem ao encontro de um dos pressupostos de Bosi (1992) de que não existe uma cultura homogênea. Da mesma forma, não se pode dizer que uma única prática de lazer represente uma cidade. Assim, apesar de se trabalhar na busca de representações da cidade na sua relação com o rio buscando representações coletivas, tem-se consciência de seu caráter plural.  A pluralidade, constatada no lazer e nas sociabilidades dos caienses na sua relação com o rio, vem a fortalecer a ideia de que o rio Caí faz parte da memória coletiva dos caienses. E isso se deve não somente a importância econômica que tal curso d'água possuía mas também evidencia que a vida da cidade estava voltada para o rio, não exclusivamente na questão econômica mas também no lazer e sociabilidades dos caienses. 

REFERÊNCIAS 
ALBERTI, Verena. Histórias dentro da história. In: PINSKY, Carla B. Fontes históricas. São Paulo: Contexto, 2008, p. 155-202. 

BOSI, Alfredo. Colônia, culto e cultura. In: BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. São Paulo: Cia. das Letras, 1992, p. 11-63. 

BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembrança de velhos. 3. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. 484 p. 

CANDAU, Jöel. Memória e identidade. Tradução de Maria Leticia Ferreira. São Paulo: Contexto, 2012. 

CATROGA, Fernando. Memória e história. In: PESAVENTO, Sandra Jatahy. (Org.). Fronteiras do Milênio. Porto Alegre: Ed. da Universidade/ UFRGS, 2001, p. 43-69. 



Sessão temática Literatura - 437 

CHARTIER, Roger. A história cultural: entre práticas e representações. Lisboa: DIFEL, 2002. 

D ECO. Poluição dos rios. Disponível em: http://www.ecodesenvolvimento.org/posts/2012/marco/dados-do-ids-destacam-os-10rios-mais-poluidos-do?tag=agua. Acesso em: 18 nov. 2013. 

FORTES, Helena Cornelius. Reminiscências: 1875-1975. São Sebastião do Caí. 1975. 139 p. 

LICHT, Henrique. O remo através dos tempos. Porto Alegre: Corag,1986. 238 p. 

MASSON, Alceu. Caí (Monografia). São Sebastião do Caí: Tipografia Kusminsky e Ely, 1940. (Edição da Prefeitura Municipal de Caí). 

PESAVENTO, Sandra J. História & História Cultural. 3. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2012. 130 p. 

PESAVENTO, Sandra J.  O imaginário da cidade. Visões literárias do urbano. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2002. 400 p. 

POLLAK, Michael. Memória e Identidade Social. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 5, n. 10, 1992, p. 200-212.  

RIO GRANDE DO SUL. Relatório temático A1: diagnóstico da dinâmica social. 2007. Disponível em:  http://www.mediafire.com/download/f0qsrc5rg9ztz7p/PLANOCA%C3%8D-RTA1DIN%C3%82MICA+SOCIAL.pdf#!. Acesso em: 19 mai. 2012. 

THOMPSON, Paul. A voz do passado: história oral. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. 

WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. In: SILVA, Tomaz T.; HALL, Stuart; WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferença. A persperctiva dos estudos culturais. Trad. e org.: Thomaz Tadeu da Silva. Petrópolis: Vozes, 2000. p. 7-72. 

Entrevistas 

CAMPANI, Carlos Antônio. Entrevistado em janeiro de 2013. 

GLAESER, Mario. Entrevistado em outubro de 2013. 

KLEIN, Renato. Entrevistado em novembro de 2013. 

ODERICH, Cristiano Eraldo. Entrevistado em junho de 2013. 



Sessão temática Literatura - 438

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

5444 - Brincadeiras na rua central de Harmonia

Nos anos 70, a rua central de Harmonia era muito diferente


Durante alguns anos, nos domingos à tarde, acontecia uma brincadeira na rua do centro de Harmonia. Os rapazes e moças caminhavam de um lado e do outro, do começo ao fim da rua, falando coisas em coro e isto era um jogo. 
Quem se lembrar do jogo, por favor me ajude a esclarecer. Sei que gritavam em coro no meio: "O palhaço que é? É ladrão de mulher". 
Alguém de Harmonia se lembra desta brincadeira???? 
Eram inúmeras pessoas que participavam. E eis que num domingo destes a brincadeira parou na frente de uns homens que estavam tentando levar para casa um terneiro fujão. 
A foto é deste flagrante. 
Pelo corcel quatro portas estacionado na frente de minha casa, a foto é dos idos dos anos 70.

Crônica de Pio Rambo 

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

5443 - Indústria e Comércio Oderich Ltda - Fundada em 1933

Nos pinheirais da região serrana, os porcos engordavam e depois eram tropeados
para as fábricas de banha, produto de grande consumo até meados do século XX


            Nos anos 30, vastos pinheirais cobriam boa parte das encostas do planalto, estendendo-se pelos municípios de Lagoa Vermelha, Vacaria, Bom Jesus e São Francisco de Paula. Nestas florestas, os fazendeiros mantinham manadas de porcos semi-selvagens que procuravam a sua própria alimentação, composta de raízes e fungos. Quando a pinha amadurecia, deixava cair os pinhos. Era o início da engorda.
            Quando a safra de pinhões acabava, apareciam os compradores de suínos. Eles reuniam lotes de 400 ou 500 animais e formavam a tropa que era conduzida pela comitiva a pé, pelas estradas de terra batida, por semanas sem fim, até a estação da estrada de ferro mais próxima ou tomavam a direção da fábrica de conservas de Carlos H. Oderich & Cia., em São Sebastião do Caí.
            Os animais apartados tinham a idade de dois a três anos e possuiam belíssimos pêlos. No fio do lombo, estes pêlos eriçados atingiam o comprimento de dez centímetros e eram rijos. Este fato chamou a atenção, nascendo daí a idéia de dar aproveitamento aos mesmos.
            Por esta época, residia em Porto Alegre, na rua Ramiro Barcelos, uma família de imigrantes alemães, vindos ao Brasil, após o término da primeira grande guerra. Eram especialistas em preparação de cerdas, fabricando pincéis, escovas, vassouras  etc... Convidados por mim a tentar o que hoje em dia chamar-se-ia uma “joint-venture”, aceitaram. Mudaram-se para São Sebastião do Caí e assim aconteceu fundar-se no ano de 1933m a firma Oderich, Vetter & Cia Ltda. Fabricávamos pincéis, escovas e vassouras. Além disso, preparávamos cerdas, ou seja, feixes de fios beneficiados que vendíamos a outras empresas para que elas as utilizassem na fabricação.
            Naquele tempo, como ainda hoje, o maior produtor de cerdas do mundo era a China. Ocorre que ainda na década de 30, aquele país teve o seu território invadido pelos japoneses, o que passou a dificultar as exportações chinesas para o ocidente. Com a deflagração da Segunda Guerra Mundial, então, esta exportação tornou-se impossível.
            A indústria americana trabalhava 24 horas por dia, 365 dias por ano a pleno vapor para suprir as crescentes necessidades dos exércitos, marinha e aviação dos aliados. Ela recentia-se não somente da falta de cerdas, como de inúmeras outras matérias-primas.
            Premidos pela necessidade, lembraram-se os chefes do Pentágono de criar o que chamaram de “one dolar men army”, um exercito especial, sem armas, composto exclusivamente de especialistas de todos os ramos imagináveis de atividade humana. Pessoas com mais de 65 anos de idade, aposentadas, mas com disposição e patriotismo suficientes para por os seus conhecimentos a disposição da sua partia. Recebiam pelos seus serviços, o pagamento de um dólar anual, donde o nome pelo qual eram conhecidos.
            Não tardou para recebermos a visita de um membro desta legião de patriotas, em  São Sebastião do Caí. Sua especialidade: preparação de cerdas. Ele examinou nossas instalações e inspecionou nossa produção que achou boa; considerando-as similares as chinesas. Recomendou certas modificações, no que foi prontamente atendido e assim ingressamos formalmente no clube dos fornecedores de matérias-primas da industria bélica americana. Chegamos, então, a trabalhar com mais de duzentas pessoas apenas na produção de cerdas, atingindo a produção mensal de 500 quilos.
            Pode parecer aos leitores que a produção de 500 quilos de cerdas por mês usando-se 200 pessoas neste trabalho, é demasiado pequena. Ainda assim se considerarmos que naquele tempo trabalhava-se 25 horas por mês, pois o Sábado era dia útil. Para que entendam a razão desta pequena produção, procuraremos, em rápidas pinceladas, descrever o processo de produção de cerdas tipo chinês.
            Nós adquiríamos as cerdas dos curtumes e de alguns poucos frigoríficos. Geralmente os suínos eram abatidos pêlos próprios colonos que os transformavam em banha e em carne salgada. O couro era vendido ao curtume. O mesmo era feito pela maioria dos matadouros enato existentes.
            Os curtumes separavam as cerdas que ficam no fio no lombo. Atavam as cerdas formando pequenos molhos. Procurando manter, na medida do possível, as pontas voltadas numa direção e as raízes noutra. O leitor já terá observado alguma vez, com atenção a ponta de uma cerda? Se o fizer, notará que cada uma delas possui uma bandeirinha. Na ponta, ela é dividida, rachada. Esta particularidade faz com que a tinta fique segura na ponta do pincel, facilitando o trabalho do pintor.
            Mas prossigamos com a descrição da preparação de cerdas.
            Inicialmente, elas são lavadas cuidadosamente em água limpa e sabão. Depois, penteadas, enroladas com um barbante especial ficando como se pequeno salame. Em seguida, são fervidas, esterilizadas, secas, batidas, novamente penteadas, viradas de forma que todas as pontas fiquem de um lado e as raízes de outro. Finalmente, são puxadas, separando-se os comprimentos milímetro por milímetro.
            Por esta descrição, alias superficial e incompleta, o leitor pode ter uma idéia do que representa em trabalho e paciência a preparação manual, de 500 quilos de cerdas tipo chinês por mês.
Naquela época, todo o trabalho era feito manualmente.
            Mas terminou, já a muito tempo, esta fase inicial da empresa. A hoje tradicional fábrica de escovas, mudou a sua direção, a orientação... até mesmo o nome da firma foi mudado para Indústria e Comércio Oderich Ltda.
            Tudo mudou. Desapareceram os vastos pinheirais da serra e com eles os pinhões e os selvagens porcos serranos de dois ou três anos de idade e pêlos grossos e rijos. Os porcos, hoje, nascem, se desenvolvem e são abatidos em apenas seis meses. Ao invés das boas cerdas dos porcos de mais idade, eles não apresentam no lombo nada mais que cabelos flácidos e impróprios para o uso industrial. Atualmente todas as fabricas de pincéis, escovas, etc..., que antes usavam cerdas suínas, utilizam fibras artificiais. A produção é totalmente mecanizada, atingindo uma eficiência e produtividade muito superior a que podíamos alcançar no passado.
            Até mesmo a rachadura na ponta da cerda artificial é feita através de máquinas. Não se pode mais dizer, como antigamente, quando se queria falar de uma coisa impossível, em “RACHAR UM CABELO”, pois para as máquinas modernas, isto é perfeitamente realizável.

Discurso proferido pelo Fundador Max Adolfo Oderich na comemoração dos cinqüenta anos de existência da empresa (05.12.1983).


segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

5442 - Vista de Caí no início do século XX

A cidade bem mais longe do morro
(clique sobre a foto para ampliar)
No início do século passado a cidade de São Sebastião do Caí era bem menor e as construções eram quase todas nas proximidades do rio. A rua mais próxima do Morro do Martim, como era chamado então o atual morro do Hospital, era a atual Egydio Michaelsen. Mas ela começava na rua Pinheiro Machado estendendo-se em direção ao atual bairro Vila Rica. Entre a cidade e o Morro do Hospital havia uma grande área de campo com pasto para cavalos e bois.
 Nesta rua pode se identificar a casa em que hoje está instalada a loja Avenida. Bem diferente de como é a loja hoje, depois de haver passado por uma grande reforma alguns  anos atrás, já na década de 2010.
As torres das duas igrejas já haviam sido construídas e o prédio da prefeitura era um só, na esquina das ruas Marechal Floriano e Pinheiro Machado. Prédio que ainda existe e guarda suas características de então até a atualidade.
A atual avenida Egydio Michaelsen começava na Pinheiro Machado e estendia-se em direção ao bairro Vila Rica.
Clicando sobre a foto ela fica um pouco ampliada.

domingo, 2 de dezembro de 2018

5441 - Vapores navegavam até o Caí antes da construção da barragem Rio Branco

Em 1864 pequenos navios a vapor navegavam pelo rio Cai 

No seu livro Memória das Casas, o padre Inácio Spohr, faz menções à navegação com vapores pelo rio Caí nas décadas finais do século XIX. Antes da construção da Barragem Rio Branco.

Na página 15, consta que, em 12 de novembro de 1864 "No vapor Flecha, que conduziu o bispo ao Porto Guimarães."
Na página 20 consta que em 03.03, 1881 "Terminado o trabalho de pintura das janelas da igreja, o irmão Egloff voltou a Porto Alegre, via São Leopoldo, pelo vapor Barão."
É estranho imaginar que os barcos podiam navegar pelo rio Caí, num tempo anterior à construção da Barragem Rio Branco, situada a jusante (rio abaixo)  da cidade de Pareci Novo. 
A chegada de vapores à cidade de São Sebastião do Caí (antes da barragem) só era possível quando o nível do rio estava alto devido às chuvas. Quando o nível do rio Caí estava baixo, uma opção para a viagem do Caí a Porto Alegre era ir até São Leopoldo por estrada e a utilização de barco a vapor no trecho entre São Leopoldo a Porto Alegre.
O nome do vapor Flecha pode ser relacionado à velocidade do barco.
Já o nome do vapor Barão pode ser uma referência ao Barão do Jacuí, Francisco Pedro Buarque de Abreu, que distinguiu-se como comandante militar na Revolução Farroupilha. 
Tendo lutado, inicialmente, em favor da separação do Rio Grande do Sul do império brasileiro, Francisco Pedro (também conhecido como Chico Pedro ou Moringue) passou a guerrear em favor do império. Razão pela qual o imperador o destinguiu com o título de barão.
Francisco Pedro, depois da revolução, foi recompensado pelo imperador com o título de Barão.  Ele teve grande prestígio na região do Vale do Caí pelo fato de realizar loteamentos na cidade de Montenegro (com venda de terrenos em área que hoje fazem parte do centro da cidade de Montenegro e em áreas rurais como a do atual município de Maratá.

A ESTAÇÃO DE SÃO LEOPOLDO


Conforme informa o blog Estações Ferroviárias do Brasil, "a estação de São Leopoldo foi inaugurada em 1874 como ponto final da primeira ferrovia do Rio Grande do Sul, a The Porto Alegre and New Hamburg Brazilian Railway. O prédio chegou pré-fabricado da Inglaterra e foi montado no espaço a ele destinado. 

Em 1876, a linha foi completada até Novo Hamburgo."


domingo, 25 de novembro de 2018

5440 - O Vale da Felicidade é também o Vale do Amanhã

O Vale da Felicidade: foto tomada há aproximadamente 30 anos, pelo jornalista
Renato Klein tendo como tema os seus filhos Daniel e Fábio e o vale do Rio Caí.

Vale da Felicidade é o nome que foi dado ao Vale da Felicidade. Denominação que se deve ao fato de a região ser a que apresenta os melhores índices de alfabetização no país. O que foi contatado, pela primeira vez, na apuração do dados do censo demográfico de 2010.
Outras pesquisas demonstraram que o Vale do Caí conta conta com as melhores administrações municipais do país.
Fazem parte da região do Vale do Caí,  além de Montenegro, São Sebastião do Caí, Portão e outros 16 municípios menores. Todos estes com população abaixo de 14.000 habitantes e três deles com pouco mais do que dois mil habitantes.
Exceto por Montenegro, Caí, Feliz e Salvador do Sul os demais emanciparam-se há menos de 20 anos. E são esses municípios menores e mais jovens que, na sua maioria, apresentam melhores níveis de desenvolvimento humano.
Embora não estejam incluídos na região política denominada Vale do Caí, outros municípios notavelmente desenvolvidos também se encontram no Vale do Caí (se usarmos essa denominação referentemente à questão hidrográfica). Este é o caso dos municípios de Gramado, Canela e Nova Petrópolis, notáveis pelo seu desenvolvimento baseado no turismo.

Foto de Renato Klein, mostrando o Vale do Rio Caí contemplado pelos seus filhos Daniel e Fábio Fuchs Klein.


sexta-feira, 16 de novembro de 2018

5439 - Mário Carlos Leão


O Doutor Mário Leão teve longa carreira de advogado e político,
em São Sebastião do Cai

O advogado Mário Carlos Leão, que nasceu na então localidade de Feliz, ainda pertencente ao município de São Sebastião do Caí, estudou em Porto Alegre até formar-se em Direito. Passou, então, a exercer a profissão de advogado, mas também se dedicou à  política elegendo-se prefeito municipal.

5438 - Autoridades na Festa da Bergamota

O governador do estado esteve presente ao evento

No ano de 1994, o governador e secretários do governo participaram da Festa da Bergamota. 
Na foto, da esquerda para a direita, aparecem na foto Cesar Schirmer, que era Secretário da Agricultura Rio Grande do Sul, Antônio Britto, governador do estado; Nelson Proença, Secretário de Desenvolvimento RS, e a corte da festa: a Rainha Helen Adam Goulart, Princesas Graciane e Luciana Liell.

Foto e informações extraídas do Facebook de Alzir Bach

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

5437 - De região estagnada a exemplo de desenvolvimento para o país

Da grande cidade de Montenegro à pequena São Vendelino, a região banhada pelo rio Caí teve extraordinário desenvolvimento nas últimas quatro décadas 

Chama atenção, cada vez mais, o fato de que o Vale do Caí é a região mais desenvolvida do país.
Fato muito notável, se considerarmos que, até meados do século XX a região se caracterizava pelo atraso na comparação com as outras regiões do seu entorno?
Até 1980, São Sebastião do Caí era uma cidade estagnada. Montenegro, que teve uma fase de brilho nas décadas e 50 e 60, perdeu impulso. E, dos outros municípios existentes na região na época, Feliz, Salvador do Sul tinham desenvolvimento medíocre. A população do Vale do Caí, nessa época, migrava maciçamente para cidades mais dinâmicas, com destaque para Novo Hamburgo, onde florescia a indústria de calçados. Portão era o único município da região que apresentava progresso significativo, graças à proximidade e semelhança com o Vale do Sinos.
Em 1980 ocorreram fatos que começaram a mudar a realidade regional. 
Um deles foi o movimento emancipacionista, que resultou na criação do município de Bom Princípio, em 1982. No ano seguinte, Hilário Junges assumiu a prefeitura daquele município e fez um governo tão brilhante e produtivo que mudou totalmente a realidade daquele antigo distrito caiense. Esse sucesso espetacular incentivou a emancipação de 14 outras localidades interioranas: Brochier, Tupandi, São Vendelino, São José do Hortêncio, Capela de Santana, Harmonia, São Pedro da Serra, Pareci Novo, Maratá, Barão, Alto Feliz, Vale Real, Linha Nova e São José do Sul. 
Além de servir de estímulo às demais emancipações, Bom Princípio deu-lhes a receita do sucesso administrativo: contenção nos gastos, especialmente na folha de pagamentos + investimento da prefeitura no estímulo à produção. Em outras palavras: é preciso conter os gastos para que sobre recurso para investir no aumento da geração de riqueza no município.
Seguindo esse modelo, todos os municípios novos progrediram muito e não há dúvida de que a qualidade das administrações municipais foi fundamental para isso. Estatísticas atuais confirmam que as administrações municipais do Vale do Caí são as melhores do país.
O que contribuiu muito para o impressionante progresso observado na região nos últimos tempos, foi o desenvolvimento das integradoras Frangosul, Naturovos, Agrosul e Ouro do Sul. Empresas que operam a produção de carnes e ovos em regime de integração com produtores rurais da região. Tanto nas indústrias como nas granjas, a produção tem elevado grau de eficiência e produtividade e esta produção tornou-se a maior geradora de riqueza da região. A produção de aves e suínos teve o seu desenvolvimento grandemente favorecido pelo fato das prefeituras apoiarem fortemente a implantação de modernos aviários e pocilgas. Modelo criado no município de Tupandi, no governo Hilário Junges (outra vez), e seguido por boa parte dos demais municípios. 
A eficiência das administrações na promoção da atividade econômica não se resumiu ao setor de carnes. As prefeituras também se empenharam e tiveram sucesso no estímulo à indústria, comércio, setor primário e serviços de modo geral. E todos esses setores cresceram, gerando grande crescimento econômico, fortalecendo as próprias prefeituras e melhorando a renda e a qualidade de vida da população.
Estatísticas mostram que o Vale do Caí já é hoje a região mais desenvolvida do país e o progresso continua intenso, contrastando fortemente com a situação que se observava 30 anos atrás.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

5436 - Doutor Mário Leão

Mário Leão era casado com Irene Hoff Leão e teve 6 filhos, 12 netos e 5 bisnetos | Arquivo familiar
O Caí perdeu, na noite do último domingo, um dos mais importantes políticos da sua história
O ex-prefeito de São Sebastião do Caí, Mário Carlos Leão, faleceu no início da noite de domingo, 28 de outubro, por volta de 18h30, vítima de infarto. Ele estava internado no Hospital Unimed de Montenegro e tinha 95 anos de idade.
Em homenagem a esse grande caiense, o prefeito Clóvis Duarte assinou, na manhã de segunda-feira, o decreto de luto no município por três dias. Clóvis ressaltou que o doutor Mário Leão se destacou com grande habilidade na gestão pública.
O velório foi realizado no Centro de Cultura na segunda-feira | Renato Klein/FN

Mário Carlos Leão foi prefeito de São Sebastião do Caí de 1956 a 1959. Foi também promotor de Justiça e advogado de 1943 a 2006. Ele era natural de Feliz que, na época, fazia parte do município de São Sebastião do Cai.O velório foi realizado no palco do Centro de Cultura e o enterro, às quatro horas da tarde de segunda-feira, no Cemitério Municipal, com grande acompanhamento.
A filha Marília é vereadora e pode ser candidata a prefeita em 2020 | Arquivo familiar
O pai do ex-prefeito, Marcos José de Leão, era o escrivão distrital em Feliz onde Mário Leão ficou até os 13 anos, quando partiu para estudar em Porto Alegre no Colégio Rosário. Na capital ele fez o ginasial e, mais tarde, começou a estudar à noite no Júlio de Castilhos.
Como era aluno do noturno, sobrava tempo para trabalhar durante o dia. Foi trabalhar então no Cais do Porto, onde era agente da Companhia União Fluvial do Caí. Ainda trabalhando, fez a faculdade de Direito e, ao se formar, veio para São Sebastião do Caí advogar com seu irmão Olavo, que na época , era um dos poucos profissionais do direito na cidade.
O doutor Mário morreu dois anos após o falecimento de sua esposa Irene Hoff Leão e teve seis filhos: Janice, Regina, Juliana, Marília, Maria da Graça e Marcos Daniel.
A filha Marília Leão Fortes é atualmente a única vereadora no Caí e já é cotada para concorrer à Prefeitura nas próximas eleições em 2020.
Prefeito
Entre as obras mais importantes do governo de Mário Leão (1956-1959) no Caí, ele mesmo destacava a eletrificação rural, numa época que a energia elétrica era muito precária. “Eu me lembro que, no Caí, só tinha energia elétrica até o Rio Branco. Com isso, eu iniciei o processo de levar luz às comunidades do interior. Foi uma festa”, recordou, em entrevista ao Fato Novo. Neste tempo São Sebastião do Caí ainda abrangia os distritos de Nova Petrópolis, Feliz, Bom Princípio e Capela de Santana e Portão.
Dr. Mário teve encontro com o presidente Figueiredo | Arquivo familiar
Por isso ele foi escolhido para ser candidato a prefeito novamente em 1964, tendo como seu oponente o médico Bruno Cassel, que já havia sido prefeito caiense uma vez, nos anos de 1947 a 1951.
Devido ao grande prestígio e reconhecimento que o povo caiense tinha pelo doutor Cassel – principalmente pela sua abnegação à medicina – o doutor Mário perdeu essa eleição.
Avô Coração de Leão     
Texto escrito pela neta Mariana Leão Ledur
Como toda boa fã, sempre prestei atenção em todos os detalhes referentes ao meu ídolo: sei de cor data de nascimento, número do CPF e número da OAB; sei o filme e a música preferidos (não casualmente o filme é Dr. Jivago e a música Tema de Lara.
A janta preferida era um pão de milho torrado com manteiga e mel, acompanhado de um café com leite.
Lugar preferido no mundo era Bruges, na Bélgica, e a praia Lagoinha, em Santa Catarina. Mas, afora as opções pessoais, a história dele é o que sempre me fascinou;
Ele foi interno quando criança e o boletim da escola era sempre da cor “encarnado” (que significava excelente). Disciplinas preferidas: história e geografia.
Getúlio Vargas lhe pagou uma guaraná quando tinha nove anos e dividia a mesma pensão com Mario Quintana na juventude.
Mário e Irene com seus 6 filhos | Arquivo Familiar
Paixão Côrtes e Brizola também ilustraram episódios da sua história. Nascido na década de 20, em uma família tradicional do interior, tirou uma moça simples das amarras de um pai autoritário e lhe ofereceu a liberdade plena.
Era ele que buscava os bicos caídos dos filhos nas madrugadas e fazia as melhores mamadeiras pela manhã.
Falou para a filha grávida que não era necessário casar. Depois, quando ela quis se separar, foi o primeiro a dizer para ela voltar pra casa que ajudaria a cuidar do bebê.
E assim foi: buscava a neta na escola todos os dias e ia para casa fazer o joguinho das capitais no intervalo do Chaves (e ele não perdia um).
Ciúmes só tinha do Antônio Fagundes (e como tinha) e do tal Capitão Tigre (a clássica briga do tigre e do leão). Fez de tudo para que as netas meninas tivessem boas condições de estudo.
Visita dos netos e bisnetos ao Dr. Mário | Arquivo Familiar
Adorador da vida política e diplomata de alma, nunca vi ele levantar a voz. Há 11 anos me disseram que ele tinha uma expectativa de 6 meses de vida.
Taí… Com 95 anos. seis filhos, doze netos e cinco bisnetos: todos apaixonados por ele e que, agora, ficam cheios de saudade.
Acho que, finalmente, entendi o significado da expressão “Coração de Leão”. 
Te amo, vô!