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| A Câmara Municipal, no tempo do império, cumpria também as funções que hoje cabem à prefeitura. Enquanto não foi construído o prédio próprio (foto),os vereadores tiveram de usar um prédio alugado. |
O Caí passou logo a contar com um forum uma câmara municipal (que exercia também o poder executivo, pois não haviam prefeitos na época), uma polícia civil. Mas faltava tudo naquele pequeno povoado de São Sebastião do Caí. A escolha do lugarejo, também conhecido como Praia ou Porto do Guimarães, se deveu ao fato de que até ali era possível navegar pelo rio Caí, mesmo que precariamente. Logo acima, o rio apresentava suas primeiras cachoeiras. Portanto, era naquele lugar que os imigrantes deviam desembarcar para iniciar a sua longa jornada, a pé, a cavalo ou em lombo de mula, até as terras a eles destinadas no alto da Serra.
Nas proximidades existiam duas localidades bem mais antigas e desenvolvidas que o Caí: Capela de Santana (então denominada Santana do Rio dos Sinos) e São José do Hortêncio (então denominada Hortêncio ou Portuguesiche Schneiss - Picada do Português). Ambas muito distantes e ligadas a São Sebastião do Caí por caminhos muito precários.
São Sebastião do Caí não contava, por exemplo, com um cemitério. Os sepultamentos eram feitos no cemitério de Capela do Rio dos Sinos (atual Capela de Santana), que ficava a três léguas (20 quilõmetros de estrada ruim). Para Hortêncio, na época, provavelmente não havia estrada. Apenas uma picada (trilho no meio do mato pelo qual passavam cavalo ou mulas andando em fila, mas não se podia trafegar com uma carroça de bois).
A professora Carina Martiny, mestre em história da UNISINOS, desenvolveu um minucioso estudo sobre a Câmara de Vereadores de São Sebastião do Caí na sua fase inicial. Ela aborda a falta de estrutura da sede municipal criada às pressas nesse comentário:
" No Relatório da Câmara Municipal à Assembléia Legislativa Provincial, de 7 de março de 1878, a administração pública apontava que uma das grandes necessidades da vila era a construção de cemitério municipal pois “o que existe é sito em outra freguesia a distancia de 3 legoas, mais ou menos, da mesma Villa”, referindo-se, neste caso, ao cemitério existente na freguesia de Santana do Rio dos Sinos (SÃO SEBASTIÃO DO CAÍ, 1878, f. 4v). Do mesmo modo que o cemitério, a necessidade de um matadouro público tornou-se premente como evidencia um episódio ocorrido em 1883, quando o fiscal da Câmara intimou o açougueiro Jacob Fetter, proibindo-o de matar gado junto a sua casa dentro da vila. O açougueiro, não aceitando a intimação, requereu à Câmara que esta construísse um matadouro público e, enquanto isto não fosse feito, pediu autorização à Câmara para continuar abatendo o gado no mesmo lugar, o que a Câmara não permitiu (SÃO SEBASTIÃO DO CAÍ, 1876-1886, f. 144).)"
Outra carência do lugarejo era a de um prédio que oferecesse condições para o funcionamento da Câmara Municipal. Para suprir essa necessidade, foi alugado um prédio que pertencia a um dos vereadores.
A doutora Carina Martiny comenta o fato apontando um possível favorecimento do vereador, que teria cobrado alto valor pela aluguel:
"o local que Centeno alugava à Câmara, por um período de quatro anos a 50 mil-réis ao mês, tinha um “salão grande e uma sala e dois quartos ao lado para as sessões da câmara e reunião dos jurados” (SÃO SEBASTIÃO DO CAÍ, 1876-1886, f. 15v) – rendia-lhe 2:400$000 ao
final de quatro anos, quantia bastante significativa."
O prédio foi alugado para o funcionamento da Câmara que, na época, era o poder executivo e o legislativo (o equivalente, portanto, às atuais prefeitura e câmara municipal). Mas serviria, também, para "reunião dos jurados".
Em favor de César José Centeno e dos vereadores que tomaram a decisão de alugar o prédio por esse valor, deve se lembrar que a falta de prédios disponíveis deve ter inflacionado muito o valor dos aluguéis. Na localidade elevada repentinamente à condição de sede de um município e de um grande projeto de colonização os prédios disponíveis, por certo, eram muito disputados e Centeno talvez tivesse outras boas ofertas por ele.
É digno de menção o fato de que os descendentes do Coronel Paulino Teixeira, que foi o principal vereador caiense, presidente da câmara, no período inicial do município, consideram que ele jogou fora a fortuna herdada de seu pai, Juca Inácio Teixeira, devido à dedicação que tinha pela causa pública. O reconhecimento dos caienses por Paulino Teixeira era tal que o seu nome identifica uma das principais ruas da cidade, até hoje.
Juca Inácio era dono da fantástica Fazenda Pareci, que abrangia a totalidade dos atuais municípios de Pareci Novo, Harmonia e Tupandi e mais uma parte dos municípios de Capela e Caí.
Trechos entre aspas extraídos da tese “POR SER NEGÓCIO DE SEU PARTICULAR INTERESSE”: A AÇÃO DA ELITE POLÍTICA LOCAL NA CÂMARA MUNICIPAL (SÃO SEBASTIÃO DO CAÍ, FINAL DO SÉCULO XIX) apresentada no X EncontroEstadual de história, realizado pela Universidade de Santa Maria em julho de 2010

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