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sábado, 13 de setembro de 2014

4791 - O suicida covarde

A barca do rio foi o cenário principal dessa história narrada por Pio Rambo


Conheci, quando criança, um cara que tinha crises psicóticas e, nestas crises, tinha sentimentos suicidas. Mas era um suicida patético porque não tinha coragem em se matar. Somente arranjava o cenário completo para amedrontar todos ao seu redor, mas o desfecho de sua intenção nunca acontecia. 
Eu era criança na época, mas convivi com estes seus momentos porque ele era casado com uma parente nossa e, portanto, era amigo do meu pai. E meu pai sempre dizia que ele nunca iria se matar porque era muito covarde para isso.
Uma das cenas que ele protagonizou foi em Harmonia, lugar onde eu morava e por onde também passa o rio Caí. Só que lá o rio faz uma curva de quarenta e cinco graus, bem dizer um cotovelo, barrado por um paredão de basalto de mais de quarenta metros de altura. Nesta curva, as águas são profundas e várias pessoas já morreram afogadas, presas entre os galhos das árvores que foram se acumulando nos poços do rio. Justamente em cima daquele paredão, certo dia, o José (nome fictício) foi fazer acampamento para, uma hora, decidir se jogar lá de cima, para a morte. 
Ficou uma semana inteira com sua psicose corroendo seus miolos, tentando criar coragem para se jogar lá de cima. Parentes dele levavam comida e água para ele, já que se negava a sair dali. Toda vez em que alguém chegava lá, ele se posicionava perigosamente na beirada do perau ameaçando se jogar. Mas, sem coragem, não se jogava. Depois daquela semana, com ele dormindo no relento, sem banho, sujo, fedendo, chamaram meu pai para tentar dissuadi-lo da ideia de se jogar lá de cima.
Meu pai conseguiu mudar a ideia dele e voltando com ele até nossa casa, onde ele tomou um banho e ganhou roupas emprestadas para se vestir. No dia seguinte foi embora e voltou pro Caí, onde morava. Durante meio ano, era verão, ele ficou normal, seguindo sua vida. 
Mas, no inverno, friozão, ele veio visitar meu pai. Como sempre, passou a noite conosco, com sua tosse asmática e seus roncos leônicos, acordando a todos nós, crianças, com medo de que ele viesse nos amedrontar. No dia seguinte, levantou, tomou café e pegou o ônibus para voltar ao Caí. 
Na época, ainda não havia ponte e a travessia do rio era feita na barca. O ônibus desembarcava os passageiros na barranca do rio e seguia viagem até Montenegro. Quando os passageiros que iam para o Caí estavam sobre a barca, ela foi puxada para a outra margem, movida pela força no braço dos quatro homens que a puxavam com paus, que tinham um corte, encaixando num cabo de aço que atravessava o rio entre as margens.
Chegando no meio do trajeto, com o rio de águas sujas, pois havia chovido, José tirou primeiro seu sobretudo, dobrou e colocou no piso da barca. Depois tirou seu chapéu de feltro e deitou de cabeça pra cima sobre o sobretudo. Tirou os óculos fundo de garrafa, ele era míope, dobrou e colocou dentro do chapéu. Então, olhando para a torre da igreja matriz, abanou e gritou:
- Adeus meu São Sebastião do Caí! - e se atirou nas águas barrentas, afundando que nem um saco de batatas. Um barqueiro, vendo isto, largou a madeira e se atirou nas águas geladas, trazendo o homem de volta para a barca. Os dois tiritando de frio, o barqueiro deu um tabefe na cara do José e gritou irado:
- Da próxima vez que se jogar, não te salvo mais. Vou deixar tu te afogar.
E José, choroso, reclamou:
- Mas era isso que eu queria!
E o barqueiro berrou de volta:
- Então faz isso um dia sozinho e não numa barca cheia de gente!

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