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sábado, 28 de abril de 2018

5372 - A missão dos jesuitas alemães no Rio Grande do Sul

Vista da cidade de Tupandi no início do século XXI avistando-se, pelos fundos,
o Centro de Eventos e a Sociedade Santa Cecília
O livro A missão dos jesuítas alemães no Rio Grande do Sul é de autoria do padre Ambros Schupp e ele se constitui numa verdadeira preciosidade histórica. O livro, originariamente foi escrito em alemão, sendo traduzido por Arthur Blásio Rambo. Lembrando que os imigrantes alemães chegaram em São Leopoldo a partir do ano de 1824 e as duas primeiras paróquias comandadas por padres alemães foram as de Dois Irmãos e São José do Hortêncio. 
Mas vejamos a história de São Salvador. A narrativa ocupa as páginas 92 a 95 do livro.


Capa do livro do padre Ambros Schupp SJ, da editora Unisinos.

"A oeste da paróquia de Bom Princípio, em ambos os lados do arroio Salvador, estendia-se uma parte das das posses de José Inácio Teixeira. No ano de 1855, ele ofereceu-as para serem vendidas. A venda ficou a cargo de Peter Kuhn, que como Winter procedia da Picada dos portugueses (São José do Hortêncio) e defendia o mesmo princípio como aquele: 'católicos com católicos e protestantes com protestantes'. O senhor Winter foi o colonizador de Bom Princípio, a então Winterschneis. Já São José do Hortêncio era a Portugieserschneis. Já o sr. José Ignácio Teixeira foi o proprietário de todas as terras da região. Ele morava em Pareci).

Apareceu gente de todos os lados com intenção de comprar, sobretudo das velhas picadas de São José (do Hortêncio) e de Dois Irmãos, onde se instalara uma tal ou qual superpopulação. Também muitos imigrantes novos fixaram-se na mata virgem.

Não demorou e foram abertas novas picadas nas mais diversas direções. Em 1860 reuniram-se diversas famílias para construir uma escola comunitária, na qual realizavam o culto divino aos domingos e em dias santificados. Em 1864 já se contavam 80 famílias, e a escola ficara pequena para a realização dos cultos. Em 1866 foi decidida a construção de uma capela maior. Durante um bom número de anos foi atendida pelos padres Sedlak e Kellner, vindos de São José. Em 1868, este último pregou uma missão de duas semanas de duração. Os bons colonos recordavam-se dela, com alegria e consolo, ainda anos mais tarde.

São Salvador ainda pertencia, na época, ao município de Triunfo. Depois que, em 1871, Montenegro foi erigida canonicamente à condição de paróquia - civilmente já o fora em 1867 -  o P. Kellner se tornara o primeiro vigário da paróquia, E ele se fez, seguidas vezes, presente em São Salvador, que fazia parte de sua paróquia, ou mandava o seu coadjutor. 

Com a elevação de Bom Princípio a curato, em 1873, e a posterior transferência da sede do curato para São Salvador em 1875, cessou essa vinculação. 

Depois de muitas tratativas e do especial empenho do padre Dolermann, então superior da missão, São Salvador foi finalmente constituída como paróquia, tanto religiosa como civilmente. Poucos dias mais tarde instalou-se nela o padre Pfluger como primeiro vigário. Ele era, até então, vigário de Dois Irmãos. O P. Mayer, que fora o 'cura' até então, partiu para Santa Cruz, e o P. Wilhelm Ley, por sua vez, veio de lá para ser o coadjutor do novo pároco de São Salvador. O irmão Stuckenberg encarregou-se da casa, da cozinha e da adega.

A moradia dos três era uma casa pequena, bastante afastada da igreja e separada pelo arroio Salvador. Servira anteriormente de residência para o P. Meyer. Haviam ratos em abundância e quando, durante a noite, resolviam fazer as suas sessões de dança, o vigário via-se obrigado a intervir com o bordão. O pior, porém, era o caminho para a igreja. A cada chuva transformava-se em lodaçal difícil de passar e, quando o arroio enchia, o que facilmente acontecia, tornava-se quase intransponível.

Por esta razão, a comunidade paroquial movimentou-se a fim de construir uma casa paroquial nova e espaçosa perto da igreja, que ficou pronta e foi ocupada no dia 14 de julho.

O vigário tinha todas as razões para estar satisfeito com a sua paróquia. Graças ao princípio clarividente do honrado Peter Kuhn, que só pretendia vender lotes para católicos, a paróquia ficou sem mistura. É verdade que, no começo, encontravam-se três protestantes na picada. Aconteceu, porém, que já no mesmo ano de 1876 eles passaram para a igreja católica.

Uma relação extraordinariamente benéfica reinava entre o novo pároco e a sua comunidade. O Padre Pfluger mostrava-se um verdadeiro pai tanto na crítica como no louvor a todos. E os bons colonos de São Salvador privavam da sua casa alegres e cheios de confiança como crianças na casa paterna e compartilhavam com ele suas alegrias e sofrimentos. E exemplar era a frequência ao culto divino, assim como os sacramentos.

Como se pode deduzir do que foi dito, a paróquia de São Salvador engloba também Bom Princípio com suas capelas filiais. Depois que São Vendelino foi separada no dia 14 de novembro de 1879  e também Bom Princípio se tornou uma paróquia autônoma em 10 de maio de 1880, São Salvador ficou com apenas três capelas filiais: São Benedito, Harmonia e Linha Bonita. Destas três as duas primeiras localizam-se no sul e a terceira no sudoeste da matriz.

São Benedito, que se localiza a uma hora de São Salvador, começou a ser colonizado  em 1860. Uma velha serraria em ruínas demonstra que ali houve uma atividade humana. Sem dúvida foram braços escravos. José Ignácio Teixeira, a quem já tivemos ocasião de conhecer, instalara a serraria em questão. Possuía outra em Pareci, onde se encontrava a sua residência propriamente dita. Mandara abrir um caminho pela mata para chegar à primeira das serrarias. Com o correr do tempo, esse caminho foi totalmente tomado pela vegetação.

Entrementes apresentara-se em 1857 um belga, conde de Montravel, com intenção de fundar uma colônia nas margens do Forromeco. Mandou reabrir o caminho, prestando assim um grande serviço aos colonos que logo em seguida povoaram São Benedito. Ele próprio teve menos sorte com o seu empreendimento. Como bom católico pretendia, assim como outros antes dele fizeram com bom êxito, assentar apenas católicos em sua fundação. Cometeu, porém, o equívoco de aceitar pessoas de todas as nações: belgas, franceses, suíços,etc.

Este fato, somado a falhas na administração, foi fatal para a sua causa. Apareceram dificuldades e complicações, as quais foi incapaz de enfrentar, motivo pelo qual o governo assumiu a colônia com todos os ativos e passivos.

Os primeiros colonos que se fixaram em São Benedito procediam das antigas paróquias de São José e São Miguel (Walachei, Morro dos Bugres e Sapiranga).

No ano de 1866, seis anos depois de sua chegada, portanto, os moradores de São Benedito construíram uma capela que durante muito tempo serviu também como escola.  Quinze anos mais tarde, no dia 20 de março de 1881, o Padre Eultgen  benzeu a pedra fundamental de uma bonita capela gótica e, seis anos depois, em 1887, foi construída também uma nova escola.

A segunda capela filial de São Salvador, a Harmonia, localiza-se uma hora mais para o sul, portanto duas horas distante da igreja matriz.  Sua fundação data de 1863, sendo, portanto, três anos mais recente do que São Benedito. Em 1868, os moradores ergueram um pequeno prédio escolar, que também teve que servir para os serviços religiosos. Passaram mais dez anos para que fosse construída uma nova capela. A igreja atual existe apenas desde 1901.

Linha Bonita, a terceira capela filial, localiza-se, como já foi observado, um pouco desviada da linha para o oeste. Foi povoada em 1866 e desde então desenvolveu-se magnificamente. Ostenta com razão o nome de 'Bonita'.

No início, os padres rezavam a missa na residência de Nicolau Haupental. Somente em 1882 foi construída uma capela e, quatro anos mais tarde, uma escola.

A paróquia matriz desenvolvia-se dia a dia com mais esplendor em companhia das três filiais. Um espírito realmente cristão e piedoso soprava quente pelo morros e vales. Pôde-se observá-lo quando aos domingos os sinos da igreja tocavam e o povo piedoso afluía de todas as direções.

Os bravos salvadorenhos comemoravam a cada ano com uma solenidade toda especial a festa do Natal, que ao mesmo tempo também era a festa titular de sua igreja. Não se poupavam os foguetes, que no Brasil não podem faltar em nenhuma festividade. Também no ano de 1876 foram disparados para anunciar o início da santa missa. O evento coincidiu com uma grande seca, e aconteceu que um dos foguetes caiu sobre as tabuinhas do telhado, que pegaram fogo. Enquanto no interior se achavam piedosamente reunidos, irrompeu o fogo acima de suas cabeças. Evidentemente, a devoção estava acabada. O fogo foi finalmente apagado, mas o recado fora entendido. Não demorou muito e a pedra fundamental de uma espaçosa igreja foi lançada. No dia 20 de outubro de 1879 estava concluída, e a velha capela que até então fora conservada dentro da nova, pôde ser demolida, podendo dois dias mais tarde ser realizado o primeiro solene culto divino.

Até aquele momento reinaram paz e entendimento na paróquia. No ano de 1883 entraria em cena um acontecimento que acarretaria uma profunda cisão na comunidade e traria muitas horas amargas para o vigário.

Com grande sacrifício em dinheiro trabalhava-se num acabamento interno digno da igreja. Joseph Flach, um jovem artesão em madeira, discípulo do irmão Johan Egloff, acabara de confeccionar um altar-mor em estilo gótico. No ano seguinte deveria pintar internamente a igreja, e seu irmão Michael, também discípulo do mencionado irmão jesuíta e mestre não menos exímio, construir dois altares laterais góticos. Foi quando um grupo de homens da capela filial de Harmonia cismou que o lugar certo para a sede da paróquia estaria com eles. Fizeram de tudo e por fim conseguiram que o seu pleito fosse decidido favoravelmente pela câmara. Mas não lograram a confirmação da parte da igreja. A fim de consegui-lo, empenharam-se em vão durante cinco anos. Veriam então realizado o desejo".


XXXXXX

Creio  que o que segue sobre Harmonia também interesse a Tupandi, pois relata a conciliação: "Harmonia tornou-se paróquia e São Salvador (Tupandi) sua filial. A agitação em São Salvador foi extraordinária. Não se podia e não se queria acreditar que as coisas ficassem assim. E para que a convicção desse algum resultado, dois homens de respeito, Peter Heck e Joseph Nedel, dirigiram-se a Porto Alegre, o primeiro um excelente católico, o outro, além disso, um membro influente do partido do governo. Por meio de sua intermediação conseguiram que no dia 28 de novembro de 1887 as coisas tomassem um outro rumo. É verdade que Harmonia permaneceu com Linha Bonita como paróquia independente. São Salvador recebeu de volta a sua antiga autonomia, mesmo que com uma única capela filial: São Benedito. De lá em diante, Harmonia ficou inteiramente sob a direção de padres seculares". Página 95.

Texto extraído do Blog do Pedro Eloi

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