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sábado, 24 de maio de 2014

4054 - Helmuth Schäffer: o sineiro da comunidade

Festa da cumeeira na construção da casa de Helmuth Schäffer, em Costa da
Serra.

No solo, da esquerda para a direita, Luiza Carolina Schäffer, Selma Schäffer 
Krohn, Elma Schäffer Borchardt com o pequeno Irineu, seu filho; Olga Streit 
Schäffer, Norma Streit e Leopoldo Schäffer, de boné.
Acima, na fila de oito pessoas, o primeiro é Helmuth von Ramin segurando 
uma cesta e o último é o dono da casa Helmuth Edwin Schaeffer.
Os demais são vizinhos e amigos que vieram ajudar na construção,
além de construtores profissionais.


Helmuth Edwin Schäffer nasceu em Costa da Serra, no interior de Montenegro no dia 31 de janeiro de 1912. Seus pais foram o comerciante Leopoldo Schäffer e Carolina Schubert Schäffer.  Leopoldo era dono de um armazém secos e molhados naquela localidade e
Helmuth era o seu filho mais novo. Iniciou sua vida trabalhando no armazém de seu pai. Ajudava no atendimento aos clientes e ia, de carroça ou a cavalo, até a Montenegro, fazer compras para abastecer o armazém.
Leopoldo doou (na década de 1930) um terreno para a construção de uma nova igreja luterana para a localidade, pois a igreja antiga foi atingida e incendiada por um raio no ano de 1928. 
A antiga igreja  ficava junto ao atual cemitério da localidade. Depois de incendiada, a igreja (que era de madeira) reconstruída, não foi reconstruída no local. Ela foi erguida há um quilômetro dali, junto à atual estrada que hoje liga Montenegro a Brochier. Em frente ao armazém de Leopoldo Schäffer, que doou o terreno. 
Essa nova igreja foi construída em alvenaria, mas era bem pequena e não tinha torre. Por isso houve a necessidade de construir uma estrutura de madeira para sustentar o sino.
Em 1931, quando era ainda solteiro e morava com os pais junto ao armazém, Helmuth então com 19 anos, atravessava a estrada para puxar o sino.
Uma pequena localidade, como Costa da Serra não conta com um pastor residente. No passado, assim como hoje, o pastor de uma cidade maior visita as localidades do entorno fazendo cultos em dias e horários pré-programados. Há um calendário de cultos estabelecido já no início do ano.
Não pode caber ao pastor, portanto, a responsabilidade de cumprir um compromisso sagrado da comunidade: o de tocar o sino.
Para isso, um membro da comunidade local assume a responsabilidade. Em Costa da Serra, quem se tornou o sineiro da comunidade foi o jovem Helmuth Schäffer.
Além do trabalho no armazém do pai e na roça, Helmuth assumiu a missão de tocar o sino. Ele tinha, então, 19 anos e desempenhou essa função, rigorosamente, até que sua saúde não lhe permitiu mais cumprir o dever assumido com a comunidade. Todos os dias o sino tocava e as pessoas sabiam que era Edwin que o estava tocando. Edwin, ainda solteiro, morava com os pais, em dependências do mesmo prédio em que funcionava o armazém. Na frente da igreja.
O sino das igrejas evangélicas interioranas é, até hoje, tocado ao meio-dia e ao meio-dia.  Nos dias de  culto, ele é tocado uma hora antes e na de início da cerimônia. Quando uma pessoa da comunidade morre, a triste notícia é propagada através do toque do sino. Nesse caso o toque é diferente, com batidas lentas, mais compassadas, e provocadas por batidas, com uma barra de metal, diretamente no sino. O sineiro tem, nesse caso, de subir a torre. Normalmente, isso é desnecessário porque ele usa uma corda para, do piso da igreja, movimentar o sino provocando o badalar.
Não muito tempo depois, num baile, Edwin Schäffer conheceu Olga Streit, uma jovem de Novo Hamburgo, nascida em 5 de agosto de 1911. Isso aconteceu quando ela fazia uma visita a uma parente que morava na localidade. 
Surgiu o amor e, depois de um namoro que não foi muito longo, Edwin e Olga resolveram casar.
Ela era de família católica e seu pai, Leopoldo, não aprovou o casamento e não deu consentimento que ele se realizasse na igreja da localidade. Edwin e Olga, decididos, foram para Montenegro e se hospedaram na casa dos proprietários da Olaria Lerch, uma família amiga. O casamento ocorreu no ano de 1937, quando Helmuth tinha 25 anos e a cerimônia foi realizada na Igreja Evangélica de Montenegro.
De volta para Costa da Serra,  Edwin providenciou a construção da casa onde iria morar, ao lado da Igreja Evangélica, num terreno também pertencente ao seu pai. E não lhe faltou apoio da família e da comunidade para construir uma bela residência. O que demonstra que a reprovação do casamento interconfessional (entre pessoas de religiões diferentes) não foi tão categórica. Naquela época, ocorriam casos em que namorados eram impedidos de casar com a pessoa amada devido à oposição dos pais e, até, de suicídios provocados pelo desgosto de jovens que não conseguiram realizar o seu sonho de amor devido à intransigência dos pais.
Concluída a construção da casa, Olga e Edwin, foram morar ali e, em 1940, nasceu a sua primeira filha, que foi batizada na igreja ao lado. O batismo, portanto, foi na religião evangélica luterana. Ela recebeu o nome de Carmem Danúbia Schäffer e hoje mora em Montenegro. É casada com Décio Oliveira, funcionário aposentado da Receita Estadual.
Ao lado de sua casa, Helmuth  construiu a fábrica de manteiga Schäffer, cuja produção era vendida principalmente em Montenegro, onde tinha uma vasta clientela. Nos anos de 1941, 1942 e 1944 nasceram, sucessivamente, os filhos Sônia Marilene, Ernani Edwin e Bruno Leopoldo Schäffer.
Com quatro filhos para manter, Helmuth se desdobrou em trabalho, ampliou a pequena fábrica e aumentou a produção de manteiga. Mas, em 1949,  teve de suspender a fabricação, pois surgiram exigências de parte do ministério da saúde quanto à higiene que inviabilizaram a produção de alimentos em pequenas empresas familiares e, com isso, a fábrica de manteiga teve de ser fechada.
Edwin partiu, então, para outro ramo de atividade. O plantio e comercialização da acácia negra. Ele tinha um costume pouco comum entre as pessoas do interior, naquela época: o de ler. Com isso, aprendeu muito, inclusive sobre o cultivo da acácia negra, tornando-se um grande conhecedor das técnicas de cultivo desta árvore, da qual se extrai o tanino. 

Foi, por isso, contratado pelas empresas Tanino Mimosa e Tanac, duas poderosas empresas produtoras de tanino, principal produto utilizado para o curtimento do couro empregado na fabricação de calçados e bolsas. O tanino tornou-se uma grande riqueza do município de Montenegro, assim como do Caí e outros vizinhos. Montenegro passou a ser conhecida como Capital do Tanino.
Surgiu daí a amizade com o médico imigrante alemão Hans Varelmann, que foi também fundador e principal proprietário da empresa Tanino Mimosa. O doutor não faltava às festas de kerb de Costa da Serra, que eram comemoradas no dia da fundação da comunidade, como é normal nas comunidades evangélicas. Nas católicas, a festa é no dia do santo padroeiro, como São João Batista em Montenegro e São Sebastião, no Caí.
Nos kerb mais antigos, cada família recebia e até hospedava os familiares e amigos que vinham visitá-los. Bem antigamente, os visitantes chegavam em charretes puxadas a cavalo ou, até, em carretas de boi e o costume era a visita prologar-se por três dias. O que não era o caso, certamente, do tempo em que o doutor Varelmann ia à Costa da Serra visitar o amigo e colaborador Helmuth. Isso ocorreu, principalmente, na década de 1950, quando o uso do automóvel começou a se disseminar. 
Nessas ocasiões, o churrasco de kerb era assado por Hemuth Schäffer. Ele  trabalhou a vida sem nunca deixar de tocar o sino da igreja. Seus filhos educados através dos seus bons exemplos, seguiram trajetórias dignas e produtivas. 
Sônia, juntamente com seu marido Heitor Esswein, criou o balneário La Toma, juntamente com Heitor Esswein. Ernani Edwin Schäffer se tornou professor universitário de matemática, lecionando na Unisinos. Bruno é conselheiro evangélico em Novo Hamburgo  e tem um filho que é pastor. 
O maior lazer de Edwin era ver os seriados de Flash Gordon e, para isso, costumava ir até Porto Alegre, no cinema Carlos Gomes. Lia sempre o Correio do Povo, escutava rádio e apreciava uma boa conversa. 
Durante toda a sua vida, ele costumava levantar às quatro e meia da madrugada. 
Quando seu irmão Edmundo morreu prematuramente, em 1958, deixando como herança grandes propriedades rurais cobertas por matos de acácia, ele ajudou seu o sobrinho Egon Schaeffer a fazer a colheita de acácia. Quando Egon chegava à sua casa, às cinco e meia da madrugada, Helmuh Edwin dizia: "Estou te esperando desde a madrugada" e dava risada. "Energia e trabalho" era o seu lema. Não tinha vícios, era sincero e muito amigo. 
Em 2001, aos 89 anos, Edwin se dirigiu à Gerson Müller, passando para ele  a incumbência de puxar o sino, pois a sua saúde já não era a mesma e elej não se sentia mais em condições de cumprir com aquele compromisso a contento. Foram 70 anos fazendo soar  para toda a Costa da Serra o seu triunfo como representante de uma comunidade ordeira e progressista. Olga Streit Schäffer faleceu antes do marido, vitimada pelo mal de Alzheimer. Helmuth faleceu em 16 de janeiro de 2005, 15 dias antes de completar 94 anos.


Nas festas de kerb, quando recebia amigos e parentes, Edwin mostrava
suas qualidades de excelente churrasqueiro


Depois que teve de fechar sua fábrica de manteiga, Edwin passou a se dedicar
à plantação e comercialização de acácia, tornando-se um grande conhecedor
da matéria


Texto de Egon Arnoni Scheffer e foto do seu acervo

Um comentário:

  1. Meu avô tinha o mesmo nome, mas era outra pessoa, pois viveu em Panambí/RS e depois em Condor/RS! Acho que deve ter sido parente de alguns destes pois eles eram também desta região!

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