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domingo, 1 de junho de 2014

4089 - Porque estudar e conhecer a Estrada Rio Branco


A inexistência de estudos sobre as estradas coloniais no período da imigração no RS é a inspiração deste trabalho. Acredita-se que o resgate histórico do legado das estradas coloniais, em conexão com a realidade maior, constitui uma contribuição importante para a história da cultural do Rio Grande do Sul e de Caxias do sul, considerando que as estradas foram às vias de acesso para os imigrantes, como também para escoamento de sua produção agrícola e industrial no final do século XIX e inicio do século XX.
Além desse aspecto, verifica-se na História de Caxias do Sul uma enorme lacuna no que diz respeito ao traçado das estradas coloniais.
A presença de um patrimônio histórico material e imaterial nos lugares por onde passava a Estrada Rio Branco, em Caxias do Sul, no século XIX, de São Sebastião do Caí até Vacaria, passando por Bom Principio, Feliz, Vale Real, Nova Palmira, de cultura marcadamente alemã, no Vale do Cai; o trecho da Estrada do Imigrante, na Terceira légua, até Ana Rech, em Caxias do Sul, passando pela hoje Avenida Rio Branco, São Pelegrino, de cultura marcadamente italiana; o trecho de Vila Seca até a Ponte dos Korff, passando por Criúva, de cultura marcadamente luso-brasileira, seguindo por São Manuel até Vacaria, permanecem como um legado histórico da colonização européia (portuguesa, alemã e italiana) ocorrida nos diversos períodos da história colonial Rio-grandense, do período do tropeirismo ao ciclo migratório, constituindo uma riqueza inter cultural para os municípios do antigo traçado da Estrada Rio Branco.
A preservação e valorização dos elementos culturais locais de forma integrada, constitui uma vantagem comparativa e competitiva, uma vez que a diversidade paisagística (vale e montanha) e a diversidade cultural (hábitos e costumes) se traduzem em atrativos e produtos turísticos, desde que planificados e ressignificados.
  Nestes locais, o espaço exige a preservação do meio ambiente, da cultura, da moradia, dos espaços de lazer, constituindo uma visão multi dimensional, que leva em consideração variáveis socioeconômicas, institucionais e ambientais e uma visão sistêmica do território como um todo.
Esta visão parte da perspectiva de um território com atividades diversas, com atores sociais diversos, e que é rural e urbano. Unem-se nestes territórios elementos de processos de industrialização com elementos tradicionais de culturas rurais. Essa noção aponta para o reconhecimento do local e dos atores locais como parâmetros de ações de desenvolvimento.
O território envolvido é composto de diversos espaços de fenômenos, que colocam a necessidade de um redimensionamento setorial e espacial, entre eles o espaço turístico, como uma nova forma de desenvolvimento local. A perspectiva municipal tende a ser substituída pela perspectiva territorial- regional, tendo como elemento central as potencialidades específicas de cada local. Nesse contexto, o rural tende a ser crescentemente percebido (e valorizado) em quatro dimensões centrais: a de espaço produtivo, a de espaço de residência, a de espaço de serviços (inclusive os de lazer, turismo) e a de espaço patrimonial (valorizado pela função de preservação dos recursos naturais, dos bens comuns e culturais).
Tal dimensão requer novos instrumentos de diagnóstico e planejamento do desenvolvimento local[1], bem como estabelecer uma formação multidisciplinar dos diversos atores, sem a qual a promoção turística se torna um fim em si mesmo.
A valorização do território e o processo de ressignificação começa por seu conhecimento  histórico, pelo inventário e busca de documentos antigos, consulta à memória oral dos que ainda vivenciaram o a estrada no seu movimento de tráfego, ou tiveram parentes que nela trabalharam e a busca nos arquivos fotográficos.
O movimento de mercadorias, tanto para consumo nas colônias, quanto as que eram comercializadas nos centros urbanos da época, como também as matérias primas que não eram encontradas no território, como por exemplo,  o ferro, eram transportadas por carretas tracionadas por mulas e cavalos, de São Sebastião do Caí até as colônias e povoados, pela Estrada Visconde do Rio Branco, até o advento do transporte ferroviário, em 1910, quando diminuiu o tráfego de carretas e o transporte fluvial. 
A construção de estradas coloniais obedecia a uma demanda de acesso aos barracões de imigrantes e as glebas de assentamentos, vilas e povoados, denominada de “viação externa”, pelos engenheiros agrimensores encarregados da medição de terras e construção de estradas, enquanto a “viação interna” referia-se às linhas e travessões de circulação interna, também denominadas de vicinais. A evolução dos meios de transportes foi responsável pelo surgimento de novas estradas feitas com novos materiais.
Também o traçado da estrada Rio Branco foi sendo alterado para diminuir as subidas íngremes e diminuir a quilometragem, como também para afastá-la do Vale do rio Cai em função das constantes enchentes que alagavam  a estrada, provocando atoleiros.
Os vários conjuntos arquitetônicos existentes, desde os corredores de taipas de pedra e galpões campeiros, nos Campos de Cima da Serra; as casas coloniais italianas feitas em pedra e em madeira, as igrejas; e as casas de arquitetura enxaimel do vale do Caí, remanescentes da colonização alemã, permanecem até hoje como testemunho desta época. Estes conjuntos arquitetônicos, muitos deles conservados na sua originalidade, constituem verdadeiros símbolos da contribuição da etnia européia, açoriana, alemã e mais recentemente italiana, na ocupação deste território. Juntamente com a cultura material de cada lugar, ocorrem também manifestações da cultura imaterial, igualmente importante e igualmente patrimônio cultural de um povo, como seus costumes, expressos na língua, no folclore, na produção artesanal, na religiosidade .
Recuperar a história da Estrada Visconde do Rio Branco é fundamental para o registro, a preservação e valorização dos elementos marcadamente culturais de um patrimônio que pertence á população de Caxias do Sul, do Vale do Caí e dos Campos de Cima da Serra. Segundo a UNESCO, patrimônio cultural imaterial compreende "as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas junto com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados e que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural transmitido de geração em geração, esse patrimônio é mantido e permanentemente recriado pelas comunidades e grupos em função de sua interação com o meio em que vivem e com a sociedade mais ampla”[2]
Foi com a Estrada Rio Branco, construída a partir de 1877 para que as levas de imigrantes italianos pudessem chegar até sua terra da "cocagna", que estas culturas puderam interagir possibilitando miscigenações que hoje compõem a história da evolução étnica de Caxias do Sul.
O território objeto deste trabalho é composto de diversos espaços de fenômenos, que colocam a necessidade de um registro adequado, pelo risco de perderem-se no tempo.
 Nesse contexto, o rural tende a ser percebido (e valorizado) como o espaço da preservação das tradições culturais, e interpretado em quatro dimensões analíticas: a de espaço produtivo, a de espaço de residência, a de espaço social e a de espaço cultural.
A valorização da Estrada Rio Branco começa pelo conhecimento de sua história e registro, depois prossegue na forma de ações integradoras de gestão cultural, interagindo os diversos atores envolvidos com os agentes públicos locais
A estrada Visconde do Rio Branco enquadra-se neste espectro de patrimônio histórico cultural, tanto na materialidade dos trechos ainda originais, como na imaterialidade das lendas e mitos que cercavam o mundo dos carreteiros e tropeiros que por ali passaram, no final do século XIX.
Como o início da construção da estrada Visconde do Rio Branco coincide com o início da imigração italiana, em 1875, Caxias nesta época pertencia ao município de São Sebastião do Caí, cuja emancipação ocorre somente em 20 de junho de 1890, as abordagens históricas referem-se às três secções da estrada, até São Sebastião do Caí,  até 1884, e  de Caxias a Vacaria, citado nos documentos oficiais como “prolongamento da Rio Branco”, até 1903, quando é inaugurada, mesmo incompleta e a ponte do korff em construção.
Este trabalho foi motivado pela necessidade de um estudo histórico que trate de documentar a história das estradas coloniais e sua contribuição para o desenvolvimento local.  Neste sentido, pode-se perceber a importância econômica da estrada Visconde do Rio Branco para o desenvolvimento de Caxias do Sul na primeira fase de sua industrialização, por ser a ligação de transporte com os centros econômicos da época. A existência de vias de comunicação com outros municípios era considerada uma das principais condições para a emancipação das colônias.


[1] Ministério do Desenvolvimento Agrário do Brasil- Rede TRAF. Apresentação.
[2] MINISTÉRIO DA CULTURA. Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular.

Texto extraído do site etradariobrancohistoria, de Luiz Ernesto Brambatti

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