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sábado, 14 de fevereiro de 2015

5129 - O confronto entre integralistas e a guarda municipal caiense segundo o Diário de Notícias

O Caí na época do confronto


"As últimas horas da tarde de domingo começou a circular no centro da cidade a notícia, que aos poucos se foi espalhando, de que graves acontecimentos se tinham desenrolado em São Sebastião do Caí. Essas notícias, exageradas como soem ser sempre em tais casos as primeiras informações, intranquilisavam que, num grande conflito ocorrido naquela vila, entre elementos da polícia local e integralistas que lá se tinham reunido, idos desta capital, de Caxias, de São Leopoldo, de Novo Hamburgo e de Caí, haviam tombado cerca de quarenta pessoas.
Esses boatos cresceram de vulto quando se soube, já então com fundamento, que o Dr. Valentim Aragon, sub-chefe de polícia da primeira região, havia seguido à tardinha para aquela localidade, acompanhado por um forte contrigente da Brigada Militar do Estado. Pouco depois comentava-se, também, que havia seguido para São Sebastião uma companhia de Oitavo Batalhão de Caçadores, com sede em São Leopoldo.

PARA SÃO SEBASTIÃO
A reportagem do Diário de Notícias, em virtude dos boatos e em face da dificuldade de colher em um domingo informações oficiais, tratou de por-se imediatamente em campo para averiguar o que de fato houvera. E depois de se certificar de partida precipitada do sub-chefe de polícia para São Sebastião do Caí, resolveu seguir imediatamente, de automóvel, com redatores e fotógrafo, para aquele município.
Poucos minutos passavam das 19 horas e corria já a nossa caravana pela faixa de cimento da estrada Porto Alegre - São Leopoldo, na sua missão jornalística de visitar o próprio teatro dos acontecimentos afim de transmitir informações verdadeiras aos leitores do Diário de Notícias.

EM SÃO LEOPOLDO
Em São Leopoldo, onde chegamos depois de uma ótima viagem, notava-se desde logo que algo de anormal transformara a vida calma da sua população. Patrulhas do Exército percorriam as ruas e a quietude da cidade, sem a alegria costumeira dos domingos assinalava à observação do repórter um início de confirmação dos boatos correntes na capital.
Atravessamos várias ruas e fomos parar o nosso carro em frente ao Hotel Rio Branco, situado na praça que fica aos fundos da igreja matriz da vizinha cidade, onde se aglomeravam inúmeros populares, formando grupos de três e quatro pessoas.
Esses grupos, visivelmente, comentavam com reservas comuns em tais ocasiões, algum acontecimento importante.

UM MORTO
Aproximamo-nos de um dos grupos e dando a conhecer a nossa qualidade de jornalistas, solicitamos informes sobre o que se passava. Diversas pessoas, imediatamente, entraram a dar-nos esclarecimentos.
Comentavam-se, como supuzéramos, os acontecimentos de São Sebastião do Caí. E, como acontecia em Porto Alegre, os boatos dominavam de modo a nada, ainda, nos permitir apurar ao certo. Adiantaram porém os nossos informantes que a única coisa indiscutível que se sabia em São Leopoldo é que havia sido morto, à bala, o filho do sr. João Schroeder Júnior, proprietário do Hotel Rio Branco, Sr. José Luiz Schroeder que seguira pela manhã, para São Sebastião num ônibus conduzindo uma parte da milícia integralista dali.
A família do morto esperava, naquele momento, a chegada do cadáver, que já devia vir em caminho, pois seu pai e diversos amigos tinham ido buscá-lo em São Sebastião.

PARA SÃO SEBASTIÃO
Depois de havermos obtido, com a família do assassinado, uma sua fotografia, tirada recentemente, dispuzemo-nos a prosseguir na viagem, afim de chegarmos ao teatro dos acontecimentos o mais cedo possível, com o objetivo de ouvir os depoimentos das pessoas envolvidas nos mesmos.
Após uma viagem relativamente boa, através de uma estrada péssima, chegamos à vila de São Sebastião do Caí.
Logo na entrada da vila, deparamos com o velório de uma das vítimas da sangrenta ocorrência.
Era uma das praças da polícia municipal, que fôra morta no início do conflito.

PARA A PREFEITURA
Se o ambiente em São Leopoldo já impressionava pelo seu aspecto invulgar, o da vila de São Sebastião do Caí era deveras impressionante pelo silêncio e desolamento não obstante os numerosos grupos, que pelas esquinas palestravam em voz baixa.
Como soubéssemos que o Dr. Valentin Aragon havia chegado na vila poucos momentos antes, dirigimo-nos, imediatamente para a Prefeitura Municipal, onde está sediada a delegacia de polícia da localidade.

UM GRANDE AJUNTAMENTO
Logo que dobramos a esquina da praça João Pessoa, teatro dos acontecimentos da tarde, em direção à Prefeitura Municipal da vila, despertou a nossa atenção um grande ajuntamento de curiosos, que se premia em frente àquela repartição, espiando pelas janelas e comentando os acontecimentos da tarde.
Num dos portões da prefeitura achavam-se de guarda soldados do Oitavo Batalhão de Caçadores do Exército, com sede na cidade de São Leopoldo, os quais de baioneta calada, impediam a entrada de qualquer pessoa na parte mais alta do edifício, em cujas janelas viam-se dezenas de “camisas verdes” detidos e observando o movimento externo.

O INQUERITO
Saltando à frente da prefeitura, dirigimo-nos à sala onde estava funcionando a delegacia de polícia.
Alegando a nossa qualidade de jornalistas, penetramos ali. O Dr, Valetim Aragon, sub-chefe de primeira região, acompanhado de seu amanuense, sr. Armando Ferreira Filho e do investigador Julio Inácio Feijó, iniciara naquele momento o inquérito, para exclarecer as ocorrências.
A seu lado encontravam-se os srs. Reinaldo Veeck, sub-prefeito de São Sebastião do Caí, Irineu Guberto, delegado de polícia, Aluízio Fortes, oficial do Registro de Imóveis e sub-prefeito do terceiro distrito, tenente Valdomiro Veleda de Albuquerque e o Sub-delegado sr. José Antônio Pinto Ribas.

OUVINDO O MÉDICO
No momento em que entrávamos na sala, o Dr. Valentim Aragon ouvia as declarações do Dr. Jobim de Oliveira, médico que atendera aos feridos no conflito daquela tarde.
Explicava aquele cirurgião o estado dos feridos e fazia uma ampla exposição de sua atuação, notificando a natureza dos ferimentos.
Assim, ficamos sabendo que havia onze feridos, dois dos quais estavam em estado bastante grave. Um apresentava ferimentos nos dois braços e nas duas pernas, com fratura dos dois antebraços e de uma das pernas. O outro, um ancião de 74 anos de idade, recebera um ferimento num dos braços e outro no pé direito, tendo ainda recebido numerosas escoriações e contusões pelo corpo.
Os demais feridos, entre os quais havia dois menores alheios aos acontecimentos, passavam relativamente bem, já tendo sido operados, para a extração dos projetis.

IMPORTANTE DEPOIMENTO
Enquanto as autoridades trabalhavam resolvemos que nos cercavam, algumas das quais teciam comentários sobre, o início do conflito.
Assim dirigimo-nos ao sr. Aluizio Fortes, sub-prefeito em exercício no cargo de prefeito, o qual no momento, narrava a sua intervenção na luta da tarde.
Pondo-se logo à nossa disposição, o sr. Fortes entrou a narrar como havia tido início o verdadeiro combate daquele dia:
Principiou, dizendo que os integralistas, que haviam comparecido à vila em vários auto-ônibus, após haverem se reunido e desfilado pelas principais ruas, dispersaram-se, entrando a perambular pela vila em atitude de provocação. E acrescentou:
- “Como era natural, a atitude dos “camisas-verdes” provocou logo um sentimento de revolta entre populares, alguns dos quais mostravam-se verdadeiramente indignados. Pouco depois das duas horas, palestrava eu com alguns integralistas graduados, procurando fazer-lhes ver que a atitude de seus subordinados estava revoltando os populares, vi que junto a um dos caminhões, onde embarcavam os integralistas se iniciara o conflito.
Pedro dos Santos, um habitante de São Sebastião do Caí, segurou pelo guarda municipal Mario dos Reis, vulgo “Marinho”, discutia com um “camisa verde”. Este, recuando quatro passos, sacou do cinto um revólver, detonando um tiro contra os dois homens, atingindo “Marinho” na boca.
O soldado rolou por terra agonizante, entabolando-se então forte tiroteio, tendo a vítima, ainda de revólver na mão, não tido tempo de usar a arma.
O tiroteiro generalizou-se, caindo, então, outras pessoas feridas”.
Segundo diz o sr. Aluizio Fortes, o integralista que primeiro atirou é um rapaz moreno, de mediana estatura, que por ele não mais foi visto.
Acrescentou que durante o tiroteio, que então se formou, foram disparados muitos tiros das janelas do Hotel Adams, onde estavam hospedados os integralistas, tendo um dos tiros que dali foram disparados, atingindo o sr. Frederico Guilherme Damian, que se achava próximo ao ônibus.

CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO

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Continuamos nesta edição a narrar o conflitoacontecido em nossa cidade há 50 anos, no dia 24 de fevereiro de 1935, envolvendo partidários do integralismo e membros da milícia municipal caiense.

Limitamo-nos aqui, como na ediçãoda semana passada a transcrever a matéria publicada pelo jornal Diário de Notícias que mandou seus repórteres para o Caí no dia seguinte ao do conflito e publicou completa reportagem na edição do dia 26 de fevereiro daquele ano.

Nesta parte que a seguir transcrevemos, o repórter transcreve o relato de alguns integralistas com relação ao conflito. Relatos este que se contrapoem ao do prefeito substituto da ocasião: Aloísio Fortes.

Não devem entender os leitores que esta reportagem seja a última palavra sobre este caso. Trata-se antes de um depoimento vivo e importante, pois vem da época em que os fatos aconteceram, mas talvez muito mais ainda, tenha de ser dito sobre este assunto que muitos consideram um tabu, mas que, passados cinquenta anos do desenrolar dos fatos está mais do que na hora de ser examinado  com isenção de ódios para que dele possamos tirar algum ensinamento.

O QUE DISSE O DR. METZLER
Na delegacia de polícia encontrava-se, também o Dr. Wolfran Metzler, chefe integralista de Novo Hamburgo, o qual não tomara parte no conflito a socorrer os feridos.
Procuramos ouvir suas declarações sobre o ocorrido, tendo nos atendido imediatamente.
Disse-nos o Dr. Metzen que dois dos auto-ônibus que haviam transportado milicianos integralistas de Caxias para São Sebastião e o outro de Bento Gonçalves já haviam zarpado para aquelas localidades, quando ele e seu companheiros de Novo Hamburgo fizeram o mesmo.
No momento, porém, que se afastavam da vila ouviram cerrada fuzilaria, que partia do centro da localidade, motivo pelo qual resolveram voltar, a fim de ver o que se passava.
Quando chegavam uma quadra antes da praça João Pessoa, viram vários integralistas correndo na direção em que eles iam seguidos de diversos policiais e pessoas à paisana.
Saltando do veículo tentaram eles saber do que se tratava, quando viram o jovem José Luiz Shroeder, que corria junto à parede, parar em frente à porta de uma padaria existente na primeira esquina aquém da praça, começando a bater ali desesperadamente.
Nesse momento - continuou o Dr. Metzler - aproximou-se correndo um policial e, cercando-se de Shroeder, encostou-lhe o cano do revólver junto ao ouvido esquerdo dando ao gatilho.
O rapaz caiu pesadamente  ao solo, enquanto o seu perseguidor detonava mais uma vez sua arma , deitando a correr em seguida, por uma rua transversal.
Depois de verificar que Shroeder não mais existia, mandou seus companheiros o esperassem numa residência particular das proximidades, dirigindo-se para a praça, afim de socorrer os feridos que ali havia.
Foi, porém, preso em caminho e transportado para a delegacia de polícia.
Tendo encontrado na delegacia o jovem que se retorcia de dores, com um tiro no ventre, dirigiu-se ao sargento que comandava os policiais que mais tarde soube chamar-se Ermes Lucas de Melo, pedindo-lhespara permitir que recolhesse o ferido ao hospital, pois poderia advir alguma infecçãona ferida, caso não fosse feito curativos de urgência na vítima.
O policial porém, longe de atender à solicitação, entrou a deblatear, dizendo que todos podiam muito bem morrer e que não o incomodassem muito porque do contrário ele os mataria um por um para vingar a morte dos seus soldados.
Momentos depois, todavia, chegou à delegacia o tenente Veleda, que mandou trasportar, imediatamente o ferido para o hospital, dando permissão ao Dr. Metzler para auxiliar os outros médicos nos trabalhos com os feridos.

OS FERIDOS
Pela manhã de ontem, soubemos que os comerciantes de São Sebastião do Caí tinham resolvido não abrir seus estabelecimentos durante o dia de ontem. Essa notícia nos foi dada quando íamos visitar os feridos no Hospital da localidade.
Com autorização do Dr. Jobim de Oliveira, que ainda trabalha ativamente, auxiliado pelo Sr. Bruno Hoegraefe, passamos a visitar os feridos ali recolhidos.
Em diversas salas do hospital encontramos as seguintes pessoas:
Efrain Wagner, de 30 anos de idade, casado, residente em Porto Alegre, onde trabalha no Banco Inglês, apresentando um ferimento por projetil de arma de fogo, com orifício de entrada na altura do osso ilíaco e saída na região glútea, além, de contusões na cabeça, produzidas por coronhaços de revólver. O ferimento pertencente à milícia integralista de Porto Alegre.
Nelson Schemes, de 17 anos, solteiro, residente em São Sebastião do Caí, que apresentava um ferimento por bala no peito. Esse menor, que se achava nas proximidades da praça, vendo a cair ferido o ancião Frederico Guilherme Danian, correu a socorrê-lo, recebendo, o tiro que o prostrou.
João Francisco Maciel Fernandes, de 26 anos de idade, solteiro, pertencente à milícia integralista de Porto Alegre, um dos que se acha em estado mais grave. Recebeu ele quatro ferimentos por projétil de arma de fogo, três dos quais fraturaram-lhe os dois punhos e uma das pernas, tendo o outro atravessado a outra perna. Além desses ferimentos apresenta ele diversas contusões e pisaduras.
Armindo Lehn, de 26 anos de idade, da milícia integralista de Novo Hamburgo, apresenta um ferimento contuso na cabeça, produzido por coronha de revólver.
Vicente Canalli Filho, de 23 anos, solteiro, da milícia integralista de Caxias, com entrada na parte posterior do joelho esquerdo e saída na parte anterior da articulação do mesmo lado.
Frederico Guilherme Damian, de 73 anos de idade, casado, da milícia integralista de São Sebastião do Caí, que apresenta um ferimento por bala na coxa direita, além de várias escoriações e contusões pelo tórax e membros.
Benjamim Custódio de Oliveira, de 28 anos, casado, da milícia integralista de Caxias. Sofreu dois golpes de coronha de revólver ma cabeça.
Belarmino Lucas, de 40 anos, praça da polícia municipal de São Sebastião do Caí, com ferimento por bala na perna direita.
Cezar Mondim, de 26 anos, casado, da milícia integralista desta capital, com ferimento por projétil de arma de fogo, com entrada na parte superior do peito, indo se alojar nas costas, de onde foi extraído.
Depois de visitarmos os feridos no hospital procuramos o outro ferido, o soldade da polícia Urbano Keller, em sua residência, à rua General Câmara. Apresentava ele um ferimento por projétil de arma de fogo na parte superior do peito a esquerda, com saída nas costas.

EFRAIN WAGNER
Durante nossa visita ao Hospital de Caridade palestramos longamente com os feridos ali recolhidos.
O primeiro por nós ouvido foi o Sr. Efrain Wagner, caixa do Banco Inglês desta capital, o qual nos disse que não assistira o início do conflito, pois se retirara do local onde o mesmo se originou, quando foi atingido por um dos primeiros tiros disparados.
Tinha ido ele aquele local, acompanhado pelo Sr. Pedro Marçam Veimann, quando viu que os ânimos se estavam exaltando.
Afim de evitar um conflito, dispunha-se ele a embarcar num ônibus que se achava parado numa das esquinas fronteiras à praça, quando foi ferido, caindo por terra, aonde foi espancado por um policial, que lhe desferiu vários golpes com a coronha de seu revólver.

CESAR MONDIM
O depoimento de Cezar Mondim é quase idêntico ao de Efrain Wagner.
Acrescenta ele apenas, que foi ferido, quando procurava levantar do solo o ancião Frederico Guilherme Damian, que a todo o instante sofria pisotões e golpes de coronha.
Como não pudesse permanecer no local, pois “havia muita bala” dirigiu-se para os lados da estrada de São Leopoldo, onde encontrou-se com Marçal Veimann, que o socorreu.
Disse que esteve muito tempo na delegacia de polícia, atirado no chão, e acrescentou: “Se não fosse o tenente Veleda não sei se estaria aqui.”

URBANO KELER
O soldado Urbano Keler, da polícia municipal, conta que não viu quem começou a briga. Viu cair também, pois os integralistas estavam quase todos armados e faziam fogo sem cessar.
Foi atingido quando perseguia um grupo que se dirigia para o hotel Adams."

Reprodução de matérias publicadas pelo jornal Diário de Notícias nos dois dias posteriores ao episódio

Um comentário:

  1. Muito boa narrativa documentaria histórica. Se me permitires irei plagiar alguns itens para minha peopria pesquisa sobre o integralismo.

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