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quarta-feira, 2 de setembro de 2015

5181 - A incrível viagem a pé, feita por Cantarola até Brasíia

Cantarola foi a Brasília para pagar uma promessa e a viagem durou 54 dias


Pode ser que existam pessoas no Caí que não conheçam João da Silva Reis, apesar dele já ter sido vereador e vice-prefeito municipal. Não há quem não conheça, no entanto, o Cantarola, agricultor do Angico, baterista de bandinha, homem dedicado a ajudar os outros.
Cantarola nasceu em Capela de Santana, de uma família pobre e numerosa. Perdeu a mãe quando era pequeno e saiu pelo mundo, passando por maus pedaços. Cresceu, casou, teve muitos filhos e, principalmente, conquistou a simpatia e a gratidão de milhares de pessos pelos favores que já prestou.
Quando se precisa de alguém para castrar um animal ou auxiliar um parto difícil numa vaca, muitas vezes é ao Cantarola que se recorre. E ele nunca cobra por esses serviços.
Quando morre um indigente ou se encontra um cadáver putrefato, é o Cantarola que se chama para lavar o corpo e vesti-lo para o enterro. Ele toma todas as providências com relação aos papéis.
Aliás, ele é especialista em desatar os nós da burocracia. Arruma carteira de motorista para quem não consegue. Faz de tudo. Consegue carteira de identidade em tempo record, quando há necessidade de pressa.
Quando um pobre adoece e precisa de internação na Santa Casa, o caso é para o Cantarola e, se o pobre precisa de uma cadeira de rodas ou algo desse gênero, é só pedir que ele dá um jeito.
Tanto ele fez desse tipo de coisa, que sse tornou um homem de utilidade pública, no município e na região. Sensível a isso, o prefeito Bruno Cassel resolveu transformar a bondade do Cantarola em profissão e deu-lhe um cargo na prefeitura, com um salário de R$600,00, para dar-lhe condições de fazer mais ainda pelos pobres do município.
Cantarola não exige nada em troca dos seus favores. Fica apenas um pouco magoado quando vê que o povo não lhe retribui os favores com votos, quando ele disputa uma eleição. Mas nem por isso ele deixa de ajudar a todos. Não ambiciona mais ser prefeito (cargo que ele já exerceu, como vice, substituindo o prefeito), atuará na política, daqui pra  frente, apenas como cabo eleitoral dos seus deputados e, provavelmente, como vereador. Para um homem como ele, que não teve o privilégio de frequentar uma escola e permanece, até hoje, analfabeto, já foi muito o que conseguiu até hoje.
Tais conquistas, sem dúvida, foram devidas a algumas qualidades extraordinárias deste homem do qual poderia se dizer, sem exagero nenhum, que é uma lenda viva na região. 
Uma destas qualidades é a determinação que o leva a enfrentar e vencer desafios que, para outros homens, parecer iam impossíveis e a dedicar-se a causas que jamais passariam pela cabeça de qualquer outra pessoa.
Exemplo mais notável disto foi o caso acontecido há vinte anos atrás. Ele tinha 43 anos, era vereador pelo extinto Partido Democrata Cristão (ele é homem extremamente religioso e não dorme à noite sem rezar vários terços pedindo a Deus pelos seus eleitores) e já era o mesmo homem que é hoje: popular, prestativo, generoso. Então, no ano de 1965, ele empreendeu a sua mais exaltada proeza: uma viagem a pé, de São Sebastião do Caí a Brasília, realizada em 54 dias e, na qual, ele percorreu 2305 quilômetros sem aceitar carona e sem levar consigo nenhum dinheiro, alimentando-se do que ganhava ou do que achava nos matos e dormindo onde lhe davam pouso ou onde fosse possível.
Cantarola viveu uma experiência incrível. Foi, por mais de uma vez, ameaçado de morte por pessoas que o confundiam com criminosos. Foi assaltado. Conheceu a miséria mais chocante, entre os  caboclos do interior de Goiás que, àquela época, ainda era puro mato. Passou fome em lugares onde percorreu quilômetros de estada sem encontrar uma única casa e onde os motoristas não paravam por medo de um assalto. Chegou a alimentar-se da carne de um tatu atropelado e já em início de putrefação.
Ao sair do Caí para essa grande viagem, que ele fez para pagar a promessa feita para que não houvesse derramamento de sangue na revolução de 1964, os caienses despediram-se dele com uma grande festa. E outra grande reunião se deu quando da sua volta, quando lhe prepararam uma surpresa: um churrasco com 275 quilos de carne e que foi comido todo, de tanta gente que foi cumprimentá-lo pela proeza. Cantarola chorou na festa quando sua banda, o Jazz Cacique, tocou em sua homenagem.
Quando  ele começou a caminhada, foi acompanhado de carro até o Vale Real por amigos e curiosos que iam junto de carro ou bicicleta. Deu-se mal nesse início de viagem, pois os pés se incharam devido às machucaduras  provocadas pela sandália Franciscano que usava. Teve de interromper a viagem por uns dias. Depois continuou usando sandálias Havaianas e teve melhor resultado. Ao longo da viagem, gastou três pares destas sandálias e cada um dos pares utilizados era maior que o anterior, pois os seus pés foram inchando na viagem.
Com tantos problemas ele, mesmo assim, não desistiu nunca, pois nele, segundo afirma, o sofrimento aumenta a fé. Diria melhor, talvez, se ao invés de fé falasse em determinação. Palavra que, entretanto, ele não conhece direito.
Mesmo com pouca instrução, Cantarola aprendeu algumas coisas fundamentais que fizeram dele uma pessoa notável.  Primeiramente uma, a qual ele adotou como norma de vida, à qual se entrega com a dedicação de um fanático: a necessidade de ajudar os outros.
Amar o próximo fazendo-lhe todos os benefícios é um dos princípios básicos do cristianismo. É, também, uma tese, defendida por alguns filósofos do cristianismo, que ajudar os outros é sempre vantajoso para quem ajuda, mais ainda do que o ajudado. Cantarola é um exemplo a confirmar essa afirmação pois, afinal, o que seria ele, agricultor analfabeto, se não fosse pelos benefícios que sempre procurou fazer, de forma tão insistente, a todos que dele necessitavam?

Matéria publicada no jornal Fato Novo em 22 de agosto de 1985

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