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quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

5233 - Um adeus a Breno Sauer

O caiense Breno Sauer foi um dos maiores instrumentistas gaúchos, 
com carreira em Porto Alegre, São Paulo e Chicago


Morreu no dia 13 de março de 2017, em Niles, na grande Chicago, o veterano pianista, vibrafonista, acordeonista e band leader gaúcho Breno Sauer.
Nascido em São Sebastião do Caí, em 3 de novembro de 1929, Breno era um sujeito que buscava um som, uma assinatura. Encontrada pela primeira vez em 1957 – um ano antes da Bossa Nova –, em Curitiba, onde fez fama com seu modernérrimo Breno Sauer Quinteto.
A referência era Art Van Damme, acordeonista de jazz que explodiu a cabeça dos músicos gaúchos dos anos 1950 e 60, gerando dezenas de grupos chamados “Conjuntos Melódicos” – o mais famoso foi o de Norberto Baldauf.
E qual o segredo do som mortal de Van Damme? A combinação inédita de vibrafone, acordeom (que pode ser um instrumento suave, se tocado por quem domine seus instintos predatórios), guitarra (de jazz, grave e discreta), baixo acústico e bateria com vassourinhas.
O quinteto Sauer só tinha craques: Breno no acordeom, Garoto no vibrafone, Olmir “Alemão” Stocker na guitarra, Gabriel Bahlis no baixo, Pirata na bateria. Garoto, Olmir e Bahlis seguem vivos e atuantes – o primeiro em Porto Alegre, onde dirige uma big band, os outros dois em São Paulo.
E foi em São Paulo que, fato extraordinário para qualquer músico gaúcho dos anos 1950, em quatro anos lançaram pela CBS quatro discos: Viva o Samba (1959), Viva a Música (1960), Viva a Bossa (1961) e Viva o Ritmo (1962). Todos ótimos, todos encontráveis na internet – mas eu jamais diria pra você procurar raridades fora de catálogo em sites de pirataria como orfaosdoloronix.wordpress.com. Isso é feio.
Já a música é linda: segundo a contracapa de Viva o Samba, “uma nova dimensão, um novo som para o samba. Sambas tipo segunda metade do século XX”.
Em 1962, passa por Porto Alegre, onde se encanta com a jovenzinha Neusa, que vencera o concurso A Voz de Ouro ABC, da rádio Gaúcha. Ela, 16. Ele, 33.
Escândalo – e nunca mais se separaram. Outro teste para a fortaleza de seu coração foi que o cantor e então estudante de medicina Sabino testou no peito de Breno um captador de som que estavam desenvolvendo para seu grupo, o Renato & Seu Conjunto.
Resultado: diagnóstico de arritmia radical e recomendação de procurar um cardiologista. Troca então de instrumento. Sai o pesado acordeom e entram o vibrafone e o piano – que, sabemos, são mais pesados, mas não ficam pendurados em ti.
De volta a São Paulo, incorpora o baterista rio-grandino Portinho – ainda hoje um dos grandes bateristas do jazz latino-americano –, e lança mais um discão: Sambabessa, de 1963, pela RGE. Manda chamar o pianista porto-alegrense Adão Pinheiro (virtuose falecido em 2013) e cria o Breno Sauer Quarteto, num clima Modern Jazz Quartet: vibrafone, piano, contrabaixo e bateria.
Mandam ver num som nem bossa, nem samba-jazz, muito particular, que rende mais dois discos, pela Musidisc: 4 na Bossa e 4 no Sucesso. O primeiro lhes dá, em São Paulo, o prêmio de Grupo Instrumental do Ano de 1965.
E olha que competiam com Sergio Mendes & Bossa Rio, Edson Machado, Meirelles & Copa 5, Zimbo Trio... (Alguns destes trabalhos, lendas entre colecionadores, foram relançados em CD e LP pela gravadora inglesa whatmusic.com. Vale procurar.)
E aí o cenário musical brasileiro mudou. MPB, canção de protesto, Jovem Guarda e Tropicália: o espaço sumiu pra grupos instrumentais. Acrescente-se o acirramento da ditadura militar e uma emigração em massa: Tom Jobim, Carlinhos Lyra, João Gilberto, Chico Buarque, Caetano, Gil, Edu Lobo, Francis Hime, Sergio Mendes, João Donato, o também gaúcho Manfredo Fest. Todo mundo indo embora.
Pois em 1965, novamente em Porto Alegre e com um melancólico emprego num cabaré, Breno é convidado para ir ao México com o também pianista Peixoto Primo, montando um grupo juntos. Pelos próximos cinco anos, terá agenda cheia, até que, em 1972, atravessa a fronteira com Neusa e os dois vão encarar os Estados Unidos, onde fixam-se em Chicago.
Lá, montam os grupos Made in Brazil e Som Brasil, misturando hard-bop e música brasileira, lançam dois discos e viajam pelo hemisfério norte até Breno cansar de grupos, em 1995. Mas seguiu tocando regularmente, com variadas formações. Entre elas, um trio com um guitarrista chileno e um bandoneonista uruguaio, num repertório inédito pra ele: tangos, milongas e chamamés.
Aos 80 anos, Breno se redescobria cavando suas mais profundas raízes: “Eu nunca fui muito desse negócio de música gaúcha. Mas certamente nunca me senti menos gaúcho por causa disso”.
P.S.: em 2015, Breno me escreveu dizendo que vinha a Santa Catarina visitar uma filha e que, “se eu juntasse a turma”, ele desceria até Porto Alegre. Chamei o Renê Goya, da Estação Elétrica, e reunimos quase 20 dos remanescentes de “turma” no Café Fonfon, gravando tudo. Foram horas de risadas, choro e histórias incríveis, com gênios como Tasso Banguel, Norberto Baldauf, Breno, Adão Pinheiro, Garoto e muitos mais – uns iam telefonando pros outros e não parava de chegar gente. Parte pequena disso está numa série – Porto Alegre 100 Anos de Música - que fizemos para a TVE. A maior parte do material segue inédito.

Texto de Arthur de Faria publicado pelo jornal Zero Hora


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