sábado, 24 de outubro de 2009

468 - Calorosa recepção

A porta da igreja e suas seis janelas estavam ornadas de transparentes iluminados pela parte de dentro, representando diversos emblemas, tais como as duas chaves e a tiara pontifícia, a mitra, o báculo, e as armas episcopais, que, em alusão ao nome de família do Sr. Bispo, trazem uma laranjeira carregada de frutos, tudo isto artisticamente pintado a óleo por aquele mestre de escola polonês, cuja voz já havíamos admirado em São Miguel (a mesma pessoa foi mencionada num trecho anterior da narrativa, nos seguintes termos: “era um soberbo contralto. O cantor era um polonês da Picada do Bom Princípio”).
Viam-se também diversas inscrições, tais como:
“Ecce sacerdos magnus - pasce agnos meos - pasce oves meas - Benedictus qui venit in nomine Domini”, e outras semelhantes que produziam um belíssimo efeito.
Foi uma boa lembrança fazerem nesta mesma noite a iluminação, que não poderia ter lugar no dia seguinte, festa da Ascensão, e nos dois imediatos, pois que apenas a cavalgada, precedida dos músicos, esteve de volta à casa em que residia o Prelado, repentinamente mudou-se o tempo. O céu tornou-se afogueado à luz dos relâmpagos temerosos trovões retumbaram em todo o horizonte, e uma chuva abundante começou a cair em torrentes, continuando assim durante sessenta horas consecutivas. Os caminhos tornaram-se por conseqüencia impraticáveis, não impedindo todavia aos bravos colonos concorrerem de todos os lados à Confirmação. Foi tão grande o seu número que Sua Exª Revma., não podendo pela chuva ir à igreja, determinou-se a confirmá-los na mesma sala da casa em que nos achávamos. Não era possível, em um espaço tão apertado, caber mais do que um certo número. Os outros esperavam pacientemente à porta, expostos sem abrigo a um tempo medonho, molhados até os ossos, homens, mulheres, crianças; e, uma vez terminada a cerimônia, montavam em seus cavalos tão ensopados como eles, para tornarem às suas habitações, distantes duas, três e mais léguas ( 12, 24 e mais quilômetros) pelos mais horríveis caminhos que se possa imaginar.
Ah! É bem certo que o Reino de Deus pertence de predileção aos pobres e simples; somente eles em o nosso século infeliz, possuem aquela fé viva, que nada desanima, aquela fé que lhes faz considerar os sacramentos da Igreja e as menores graças de Deus como inestimáveis tesouros.
Na realidade, semelhante cena era suficiente para consolar bastante tristezas e fazer esquecer bastante fadigas.
Entretanto foi-nos forçoso deixar estes excelentes colonos da picada do Bom Princípio, e dirigimo-nos à colônia Feliz, onde éramos esperados. Aproveitamos os primeiros raios do sol para pormo-nos a caminho. Duas vezes tivemos de passar o Rio Caí, engrossado pelas chuvas, em barcas com nossos cavalos e bagagens, porque de outra maneira não seria possível. As estradas estavam mui lamacentas, mas não nos aconteceu acidente algum.”

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