sábado, 24 de outubro de 2009

469 - Chegada a Bom Princípio

Infelizmente a pequena igreja da Anunciação do Bom Princípio dali distava bastante, e o terreno que costeava o rio era lamacento e pantanoso.
O padre Miguel (seria o padre Miguel Kellner, que veio ajudar o padre João Sedlack, a partir de 1858, na paróquia de São José do Hortêncio) digno missionário que administra estes bons colonos, veio receber o Prelado à frente de uma numerosa e alegre procissão. Sob um arco triunfal de verdura e de flores. Sua Exª foi saudado por um rapazinho de doze a treze anos, de uma das principais famílias do lugar, que recitou com emoção, mas com voz clara e inteligível, uma poesia em alemão em seu louvor, cuja tradução é a seguinte:
“É este o dia do Senhor, de longe e de perto ouvem-se ressoar cânticos de louvor saídos de corações devotos! Vedes em torno de vós, ó Pastor cheio de graça e de amabilidade, este rebanho que ternamente vos ama, ao qual conduzis e guiais pelos pastos da salvação? Há muitos anos que, errante ao longe, parecia abandonado; finalmente porém aparecestes, ó Pastor, porque pensáveis nele; viestes hoje visitar com carinhoso afeto e zelo infatigável estas vossas ovelhinhas desviadas e conduzi-las ao aprisco sagrado. Estávamos ameaçados, mas, desassombrados no meio dos obstáculos e contradições, varonilmente lutáveis, e logo que façais o aceno de pastor apressar-se-á o iníquo bando dos nossos adversários. Vinde pois, ó Bom Pastor, entrai no meio deste vosso rebanho fiel, em cujos peitos palpitam corações sinceros: o bastão pastoral confiado por Nosso Senhor Jesus Cristo às vossas mãos digníssimas seja para nós um farol e prova visível que a religião santa de Jesus Cristo ainda existe. Em vós, ó coluna da Santa Igreja, lançamos os nossos olhos, e aprouvera a Deus que os nossos lábios pudessem dignamente enunciar o que sentem os nossos corações!”
(Esta peça literária, provavelmente a primeira da literatura principiense a ser publicada, possivelmente foi de autoria do padre Miguel. Mais do que transmitir informações, ela reflete os sentimentos da comunidade local: o de fervor religioso, o do abandono sentido por aquelas famílias de pioneiros vivendo longe da civilização, o de temor pela ameaça dos inimigos - uma referência, talvez, aos índios, mas mais provavelmente aos inimigos da fé, que poderiam ser os protestantes ou os maçons).
Finda a recitação, o Sr. Bispo adiantou-se debaixo do pálio e sob arcadas de verdura até a pequena igreja onde o padre missionário o cumprimentou de novo com um belo discurso em português, traduzido depois ao povo em alemão.
Procedeu-se depois à cerimônia do ósculo ao anel pastoral. À tarde porém, depois do jantar, uma tropa de mais de sessenta cavaleiros veio buscar Sua Exª e acompanhá-lo à luz de archotes, para ver diversos transparentes iluminados de que a igreja se achava ornada em sua honra. A cavalgada era precedida de uma banda de músicos que, ao mesmo tempo que guiava seus cavalos, tocava sobre instrumentos diversos as mais belas peças. (Esta descrição dá conta de quanto já havia crescido a colônia de Bom Princípio que dez anos antes contava apenas com 18 famílias) Ao chegar perto da igreja, que de longe parecia toda em fogo, os nossos ouvidos foram atroados pelo estampido de uma peça de artilharia sem carreta que os mancebos da colônia carregavam a tiros repetidos, os quais repercutiam pelos bosques e montanhas vizinhas como os de um numeroso parque. Esta peça, de fundição européia, sem dúvida ali trazida pelos primeiros exploradores do país, foi achada, há alguns anos, entre o limo do rio, e conservada para defesa, em caso de necessidade, contra as incursões dos bugres. Os nossos cavalos não pareciam gostar de modo algum de todo este barulho; muitos de nós correram seus riscos de se verem lançar fora da sela. Foi preciso pedir aos atiradores que esperassem até que estivéssemos suficientemente distantes, para então continuarem a dar fogo.

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