sábado, 24 de outubro de 2009

496 - "Perseguições" durante a guerra

Em localidades do interior dos municípios da região colonial cabia aos subprefeitos (que geralmente acumulavam a função de subdelegados) a obrigação de fazer com que a lei fosse cumprida. O que não era fácil, pois grande parte dos colonos sequer sabia falar o português. Proibidos de falar o alemão quando eles iam à missa ou ao armazém, portanto, era o mesmo que proibi-los de falar. E a guerra foi longa, durou anos.
E muitos colonos eram, na verdade, fervorosos defensores da Alemanha. Imagine-se o que acontecia quando eles tomavam uns chopes a mais nos bares e nas festas. Além disto haviam os receptores de rádio. Colonos que não entendiam o português tinham seus receptores somente com o propósito de ouvir as rádios alemãs. Durante a guerra estas emissoras passaram a transmitir quase exclusivamente propaganda a favor da Alemanha e contra os países que estavam em guerra contra ela, inclusive o Brasil. Por isto, ouvir tais emissoras tornou-se proibido durante o período de guerra. Mas era muito comum que os colonos desobedecessem tal determinação e, por isto, muitos receptores foram apreendidos.
O subprefeito de Bom Princípio, na época, era João Rodrigues da Fonseca. Ele também teve de reprimir as manifestações pró nazismo. Ele agiu assim no cumprimento das suas obrigações de representante do governo, apesar de não ter nenhuma antipatia pelas pessoas de origem alemã. Pelo contrário, Apesar de ser de origem portuguesa, João Rodrigues (conhecido também pelo apelido de Jango) sempre viveu em meio aos colonos alemães, bem integrado com eles, e expressava-se perfeitamente em alemão. Sua esposa era de origem alemã e sequer sabia falar o português.
Armindo Carrard não cometeu arbitrariedades. Agiu dentro daquilo que era determinado pela lei da época. Mas, mesmo assim, desagradou muitos colonos com as atitudes que foi obrigado a tomar em virtude da sua função de subprefeito em Tupandi. Ele até se empenhava em defender os colonos que sofriam problemas devido ao clima hostil criado na época da guerra. Mas, mesmo assim, ficaram alguns ressentimentos contra ele por atitudes que teve de tomar no exercício das suas funções oficias.
Um caso muito interessante ocorreu com um colono da localidade de Júlio de Castilhos (pertencente ao distrito de Tupandi) que se dedicava ao comércio de produtos coloniais da região e os transportava - em carreta - até à estação férrea de Maratá. No caminho a carreta atolou e ele gritou para um dos animais que fazia a tração da carroça, chamando-o de Getúlio. O nome do então ditador brasileiro Getúlio Vargas. O colono foi preso e levado a Porto Alegre. E Armindo teve de entrar em ação para conseguir libertá-lo.
Este episódio mostra como os descendentes de alemães guardavam, ainda, um vínculo muito forte com a Alemanha. Muitos se consideravam mais alemães do que brasileiros e a maioria dos descendentes de germânicos simpatizavam com o governo nazista de Adolf Hitler. Não eram, ainda, do conhecimento público o holocausto judeu e fora amplamente divulgado o extraordinário progresso obtido pela Alemanha na década de 30 sob o governo nazista. Era comum na época - entre os descendentes de germânicos - a idéia de que Getúlio Vargas errou ao unir-se aos ingleses e norte-americanos para declarar guerra contra a Alemanha. Também entre os brasileiros de descendência italiana e japonesa foi forte este tipo de sentimento. Portanto era razoável, também, que o governo brasileiro se preocupasse em contê-lo nas regiões do país em que predominavam estas colônias. O fato de um colono dar o nome do governante do país a um dos seus animais de carga hoje seria bem tolerado. Mas é natural que, num período de guerra, este tipo de coisa fosse encarado de forma diferente.

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