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sábado, 1 de novembro de 2014

4940 - Tudo por um microfone

Pio Rambo (o mais à direita) poucos anos antes da sua estréia como locutor

Era outubro de 1964. Naquele fim-de-semana os sinos da torre da igreja de Harmonia ecoaram festivos pelo vale, anunciando a grande festa que ocorreria naquele domingo. Era a festa da igreja.
Mas todos os preparativos já iniciavam bem antes, para a logística do festa ser perfeita. Eu era criança - tinha sete anos - e adorava acompanhar todo aquele movimento frenético misturado entre muitas pessoas que se empenhavam para a realização da festa. Meu pai era o sonoplasta. Mas também responsável por fazer toda a instalação de cornetas pelo galpão que ficava entre a igreja velha e a nova, na igreja velha e também na torre da igreja nova, para a música e os anúncios ecoarem triunfantes pelo vale, atraindo toda a população à festa.
Meus irmãos e eu, no frenesi de acompanhar tudo de perto, ajudávamos o pai a puxar os cabos, instalar as cornetas, montar o equipamento, testar tudo para que, no dia da festa, a sonoridade fosse boa, dando alegria àquela festa. Depois de tudo montado, nos apinhávamos na frente do microfone de cápsula a cristal, para passar o som. Cada um queria ao menos falar alguma coisa nele para o pai ouvir e dosar melhor os graves e agudos daquele velho amplificador RCA dos anos cinquenta. Ele era a válvulas, de sessenta watts. 
No sábado de tardesinha, véspera do dia da festa, chegavam as barras de gelo, que eram compradas em fábricas de gelo ou revendas de bebidas. As barras  eram grandes e, para não derreterem até o dia seguinte,  eram colocadas em cima da serragem e, depois, cobertas com mais serragem. Esse era o recurso que se tinha, na época, para retardar o degelo. Na manhã do domingo, as barras eram quebradas em pedaços e colocadas sobre as garrafas de cerveja e refrigerante. E tudo era novamente coberto de serragem para o gelo se manter. 
No domingo, bem cedo, o pai e, é claro, também eu e os irmãos, já estávamos circulando pelo ambiente, enquanto a missa festiva corria na igreja. E a gente pegava pedacinhos de gelo para chupar, já que em casa não tinha geladeira e isto era novidade. O gelo tinha gosto de serragem e essa sensação foi tão marcante que consigo sentir aquele sabor até hoje.
A festa começava  com a saída do povo da missa. O galpão logo ficava apinhado de gente falando alto, vindo para almoçar. A churrasqueira, montada fora do galpão, tinha uns dez metros de comprimento e os churrasqueiros corriam no meio da fumaça, virando aquele monte de espetos de taquara para deixar a carne no ponto.
O pai, no palco situado no meio do galpão, tocava  discos de 78 rotações e fazia a festa andar. Alguns anúncios, de vez em quando, também eram feitos na voz dele. E, claro, nós os filhos, ficávamos ao redor, escolhendo as músicas, limpando os discos, pegando bilhetes de mensagens, assessorando em tudo. As mensagens feitas mediante pagamento - tudo para ajudar a cobrir as despesas da paróquia, o que era o grande objetivo da festa. Essas mensagens, geralmente, começavam pelas palavras "Alguém que muito lhe ama".
O almoço acontecia, com dezenas de mesas enormes, apinhadas de gente comendo, bebendo, falando e rindo alto. Era churrasco com salada de alface, cebola e tomate e cacetinhos cortados ao meio. Delícia.
Antes de irmos para a festa, o pai dava a cada um de nós dois cruzeiros. O que dava para duas Pepsi ou duas Grapete. Ou então para um sorvete na sorveteria da rodoviária. E nós saíamos da festa para ir até o centro da vila comprar um sorvete com duas bolas, uma de morango e a outra de creme, feitas pelo Carlos Hilgert. Afinal, naquela época, tomar sorvete era coisa muito rara e o Carlos fazia um sorvete divino. A Grapete que esperasse.
De volta, a festa corria animada, com meninas mandando 'prender' rapazes na cadeia improvisada feita com pedaços de taquara. Para sair da cadeia, eles tinham que comprar a liberdade. Os rapazes também mandavam prender meninas e eles mesmos compravam de volta a liberdade delas para serem notados. Mas alguns coitados e coitadas não tinham a mesma sorte e, as vezes, ficavam presos a tarde inteira por falta de dinheiro para pagar a liberdade ou por não ter alguém que pagasse.
Nas mesas, animação, histórias etílicas do passado eram recontadas com detalhes; pessoas rindo alto, crianças penduradas nos seios da mãe mamando, namorados beijando as mãos das namoradas, já que, em público, avançar mais era pecaminoso. Havia uma brincadeira estranha entre os adultos: fazer caber todo o conteúdo de uma garrafa de cerveja dentro do bico de uma mamadeira. Os homens faziam isso com uma vontade doentia. Quando não dava certo e o bico escapava do gargalo, era um banho de cerveja. Mas quando dava certo, era motivo de muita comemoração.
Numa certa altura, depois do almoço, o pai botou a tocar a música "Itsy bitsy teenie weenie". Aquela que teve a versão para o português com o nome de Biquini de Bolinha Amarelinha. Mas não por muito tempo. Com passos rápidos o padre Oscar Mallmann chegou perto do palco e disse para tirar esta música da festa dele porque era imoral. O pai obedeceu prontamente, entregando o disco ao padre, que pegou uma tampa de garrafa e riscou aquele lado do disco de forma que era impossível tocar novamente aquela música. Ela era imoral só porque falava em biquíni.
Havia, também, a rifa da festa, que angariava bons fundos e distribuía cinco prêmios. Foi então que aconteceu um dos momentos mais memoráveis da minha infância. Naquela festa eu pedi para o pai deixar eu ler os números do resultado da rifa. Então ele me disse que no bloquinho de rifas dele ainda faltavam vender seis números. Se eu conseguisse vendê-los até a hora de girar a roda do sorteio, ele me deixaria ler os números no microfone. Eu tinha sete anos de idade.
Saí caminhando no meio do povo, oferecendo aqueles números. Mas vi que a missão era praticamente impossível porque a maioria das pessoas ali presentes já havia adquirido um ou mais números. Mas eu precisava vender, eu havia ganho a chance e queria falar naquele microfone para todo aquele povo presente. E quanto mais 'nãos' recebia, mais minha carinha de tristeza se manifestava, até que uma lágrima rolou do cantinho dos olhos. E foi com esta carinha que ofereci para um casal. O homem, na hora, disse que já tinha comprado. Mas a sua esposa disse para ele comprar ao menos um número para ajudar. 
O homem me fitou e perguntou:
- Quantos números você ainda tem para vender?
- Seis! - Respondi desolado. - Eu preciso vender todos estes números!
O homem então mandou eu sentar do lado dele, a mulher alisou meus cabelos. Um pouco mais calmo, repeti que precisava vender aqueles números. O homem, curioso pela minha insistência, perguntou:
- Mas por que tu precisa vender estes números? Se não vender não tem problema.
Então eu disse, chorando:
- Preciso vender estes números para meu pai me deixar anunciar o resultado do sorteio no microfone.

A esposa do homem, penalisada, abriu sua bolsa e, na hora, comprou os seis números. Depois disse para eu caprichar, já que eu queria tanto fazer isso. Dei os bilhetes para ela, peguei o dinheiro e saí correndo no meio da multidão até o palco para mostrar meu feito para o pai. Ele, sorrindo, disse que, conforme me havia prometido, eu iria anunciar a rifa daquela festa.
Chegou o momento do sorteio. O sorteio era feito numa roleta: uma roda enorme com um monte de números. Creio que ia até 99 e cada número era separado do outro por um prego. O sorteio aconteceu. Trouxeram os números, o pai me deu o papelzinho e perguntou se se eu conseguia ler a letra.  Eu disse que sim, tremendo de alto a baixo. Para alcançar o microfone ele teve que colocar uma caixa de cerveja emborcada. Essas caixas eram feitas de madeira e o nome certo para elas era engradado. Eu subi nela e ouvi minha voz de criança anunciando os cinco números sorteados. Um dos prêmios foi para aquela mulher que comprou os números de rifa e me deu a chance de falar, pela primeira vez, num microfone para um monte de pessoas.
Quando havia terminado de ler os números, desci da caixa de cerveja. O pai orgulhoso, emocionado comigo, me abraçou longamente e disse:
- Sobe aí, anuncia de novo! Alguém pode não ter ouvido.

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