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segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

5039 Entrevista com o Doutor Cassel 2

Doutor Cassel discursando na homenagem que lhe prestaram
ao completar 50 anos de medicina
FN -Por que houve esta solicitação da cidade para que o Sr. viesse para cá? O dr. Krekel não estava dando conta?
CASSEL - Não. Ele tinha problemas aqui e resolveu voltar  para Alemanha.

FN - Ele era o único médico da cidade?
CASSEL - Não. Tinha também aqui o dr. Hunsche, que era uma grande pessoa. Ele já estava no Caí há quarenta anos, e tinha um hospitalzinho lá perto do rio, defronte à fábrica de escovas. E tinha ainda o dr. Hongraff. Este, não era médico formado. Naquele tempo, havia liberdade profissional. Podia-se até comprar um diploma. Mas ele ficou pouco tempo por aqui. Ficamos eu e o dr. Hunsche. O dr. Hunsche era velhinho e teve problemas na época da guerra contra Alemanha.
O filho do dr. Hunsche estava na Alemanha durante a guerra e o velhinho que não tinha nada a ver com a história, sofreu arbitrariedade de parte política. Invadiram a casa dele, queimaram livros científicos...
Naquela ocasião, se fez muita coisa errada por aqui. Houve muita perseguição contra os colonos que só sabiam falar alemão e ficaram proibidos, em virtude da Alemanha ser, naquele momento, uma nação inimiga, de utilizar esta língua. E eles não tinham culpa de não saber o português. Não tinham escolas, para aprender. Nas escolas pastorais, que existiam na época, o que se estudava era o alemão mesmo. Mas a polícia não entendia isto. Eu mesmo fui pressionado no sentido de não falar o alemão no meu consultório. E eu reagia isto. Houve até um conflito aí no clube, por causa desta história. Aconteceram muitas injustiças. O seu Osvino Müller, chegou até ser preso, naquela época.

FN - Ele era simpatizante no nazismo?
CASSEL - Não. Não foi por isto. Acontece que naquela época havia um sistema de controle de preços, uma espécie de SUNAB, que era controlada pelo prefeito e pelo delegado de polícia. O Osvino havia comprado querosene e açúcar acima do preço de tabela. Ele avisou, então ao prefeito Egydio Michaelsen que também ia vender acima do preço estabelecido pelo tratamento. Mas daí, como o delegado já estava de olho nele porque o Osvino manifestava sua simpatia pelos alemães, pegou uma notinha,  como prova de que as vendas estavam sendo feitas acima do preço , prendeu o Osvino e levou ele pra Porto Alegre.
O Osvino não era nazista. Ele fazia parte de um pequeno grupo que, como eu, era francamente contrário ao nazismo, mas defendia os colonos contra as injustiças que a polícia de então fazia contra eles. Por isso o delegado estava de má vontade com o Osvino.
No dia da prisão a senhora do Osvino foi me avisar e eu fuil lá ver se eu conseguia soltar ele. Fiquei preocupado, pois o Osvino era um homem doente. Asmático. Fui lá e falei com o célebre Aurélio Py, coronel do exército. Um sujeito de mau instinto. Ele me disse um mundo de desaforos. Me chamou de alemãozinho.Eu, então, respondi. "Olha. Talvez eu seja mais brasileiro do que tu.Porque eu, pelo menos, procuro trabalho.Tenho uma profissão. O meu tataravô é que veio da Alemanha. O meu bisavô já nasceu no Brasil." Por sorte eu encontrei, naquele dia, um oficial da aviação aposentado. Um velho conhecido de Santa Maria, muito meu amigo.Ele resolveu o problema e soltaram o Osvino.
Neste episódio o compadre Egydio Michaelsen cometeu uma falha. Coitado, ele já morreu. Não pode se defender. Mas o dr. Egydio negou que tivesse autorizado ao Osvino fazer a venda por preço superior ao da tabela.
Aliás, um fato parecido aconteceu também com tio dele, o velho Michaelsen em Nova Petrópolis. Ele era encarregado do correio de lá e aconteceu que foi uma velhinha perguntar se tinha carta pra ela. Mas perguntou em alemão. Alguém ouviu e denunciou. Pegaram a velhinha e trouxeram para a delegacia do Caí, que era perto da prefeitura. De novo, eu tive de intervir. Por sorte tinha aqui no Caí, por aquela época, um juiz muito camarada. O dr. Alcina Lemos, um “bicho meio caborteiro”. Nós então conseguimos dar um jeitinho e soltamos a velhinha.

FN - Quer dizer que falar alemão, naquela época, dava cadeia mesmo?
CASSEL - Dava. Dava cadeia.

Matéria publicada pelo jornal Fato Novo na sua edição 
de 13 de dezembro de 1984


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