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segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

5038 - Entrevista com o Doutor Cassel 3

O doutor, com sua esposa Maria das Mercês, na homenagem pelos 50 anos
de exercício da medicina


FN - Um assunto que seria interessante abordar nesta entrevista é a dificuldade que havia para o exercício da medicina naquela época
CASSEL - De fato, as dificuldades, naquele tempo eram muito grandes. Doentes de parto, por exemplo, não vinham para o hospital. Se a parteira não resolvia o caso, a gente tinha mesmo de ir fazer o parto na casa da cliente. E os táxis que havia por aí, naquela  época, eram uns fordzinhos, 29,do Jorge Agnelo e do José Weingarten. O josé Weingarten era um filho mais velho que eu tinha (Ri). Ele gostava de trago. Aconteceram muitas histórias engraçadas com ele. Certa vez, eu fui chamado a fazer um parto na família Kuntzler, lá na Linha Hortêncio. Fui procurar pelo José no Atafona, um bar que funcionava na praça, no prédio hoje ocupado pela biblioteca... Ele estava num “gato” (porre) medonho. Mas eu falei pra ele “Tu tem que ir” e ele foi. Na direção ele só rosnava. Mas chegamos. Quando o carro parou na frente da casa, ele caiu pra cima do volante. Era uma noite muito fria. Eu então pus por cima dele um casaco amarelo que ele tinha. Puxei as “sarnefas” (lonas) do auto e fui trabalhar no parto. Depois do serviço feito, o seu Kunsler me falou. “Não. O Sr. não vai embora logo. Vai tomar um café”. Então eu pedi prum guri que ele fosse chamar o motorista pra tomar junto. Depois de algum tempo, voltou o menino e disse em alemão “Der Kell wet net wach”. Quer dizer: “O cara não acorda”. “ Será que o desgraçado morreu”, eu pensei, e fui até o auto. Tive de sacudir o José até que ele finalmente acordou. Tomamos café e voltamos. Realmente, naquele tempo era muito difícil fazer medicina.
CASSEL - Naquela época, era muito difícil exercer a medicina, pois não havia antibióticos, nem raio X, nem nada. Era tudo na base do olhômetro. Além disto, era difícil pelas viagens que a gente tinha que fazer. Eu, por exemplo, tinha uma clientela muito grande lá pelo Vale Real, Morro Gaúcho... Eu tinha de ir até lá, andando por estradas ruins. Tinha muitos clientes também em Capela e Conceição, uma zona paupérrima naquele tempo. Depois, com a acácia, é que aquela gente melhorou de situação financeira.
O Caí, naquela época, tinha muito movimento por causa da navegação.

FN - Mas em 1938, quando o Senhor mudou-se para cá, a navegação já não estava em decadência?
CASSEL - Não. Não. A navegação só começou a morrer em 41, 42, quando abriram a estrada Júlio de Castilhos. O pessoal, então começou a comprar caminhões e a transportar os produtos pela estrada, o que saía mais em conta pois dispensava as despesas de embarque e desembarque nos cais do Caí e Porto Alegre. Antes disto, todos os produtos de Linha Nova, Linha Hortêncio e outras localidades desta zona tinham de vir até o Caí para serem embarcadas no nosso cais e levadas, então, para Porto Alegre. Isto dava muito movimento de comércio aqui no Caí.

Matéria publicada pelo jornal Fato Novo na sua edição 
de 13 de dezembro de 1984

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