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domingo, 28 de janeiro de 2018

5272 - Imigração Alemã e a Igreja Luterana

Fundada em 1827, a igreja luterana de Campo Bom foi 
a primeira 
construída no estado. Inicialmente o prédio era de madeira



Imigração Alemã ao Brasil e Rio Grande do Sul - I
por: Egídio Weissheimer, contador e pesquisador
telefone: 3342.89.96 - email: weissheimer@tutopia.com.br Endereço do Instituto de Genealógico do Rio Grande do Sul - INGERS
1. APRESENTAÇÃO.
O trabalho que vamos apresentar vai enfocar dois assuntos:
1) a imigração alemã ao Brasil, dando ênfase aos motivos que levaram a tantos alemães a abandonar a sua pátria em procura de uma vida melhor para si e sua família; e
2) os primórdios da IGREJA EVANGÉLICA (Luterana) no Brasil, em que damos uma pequena biografia dos primeiros Pastores que aqui chegaram, juntamente com os imigrantes, aqui fundando as primeiras comunidades evangélicas luteranas de origem alemã.
2. IMIGRAÇÃO ALEMÃ AO BRASIL: POR QUE VIERAM E DE ONDE VIERAM?
Para entender os motivos que levaram a tantos alemães a emigrar ao Brasil, a partir do ano de 1824, é necessário regredir um pouco na nossa história.
No dia 7 de Setembro de 1822, o Príncipe D. Pedro, às margens do Riacho Ipiranga, em São Paulo, proclamava a Independência do Brasil.
Em 1808 a Família Real Portuguesa havia fugido para o Brasil, a bordo de 14 navios ingleses, para escapar da invasão das tropas napoleônicas. Com a derrota de Napoleão na Batalha de Waterloo em 18.6.1815, nada mais impedia o regresso de D. João VI a Portugal, o que efetivamente ocorreu em 24 de Abril de 1821. Com o retorno da família real, entenderam as autoridades portuguesas que o Brasil deveria retornar à simples condição de colônia, fato que já deixara de ser desde que fora incorporado ao Reino Unido de Portugal e Algarves. Com isto nem as autoridades brasileiras nem o Príncipe Regente D. Pedro concordavam, o que determinou a proclamação da Independência.
Esta proclamação, no entanto, encontrou muitas oposições no país, pois as autoridades das províncias eram portuguesas e mantinham-se fiéis à Coroa Portuguesa. As tropas portuguesas tiveram que ser daqui expulsas em 1823. Novo exército teve que ser formado, para garantir militarmente a independência, pois em Lisboa grandes aparatos de forças militares estavam sendo preparados para invadir o Brasil.
Mas não havia soldados suficientemente preparados no país. Era necessário trazê-los do exterior. Além de soldados também necessitava o país de colonos que viessem se instalar no sul, onde a questão militar quanto à soberania sobre a Província Cisplatina havia gerado diversos conflitos com a Argentina. Por recomendação de D. Leopoldina, arquiduquesa da Áustria e filha do Imperador Francisco I com quem D. Pedro se casara em 1816, decidiu-se trazer não só soldados mas também colonos da Alemanha. Lá existiam milhares deles desempregados desde o fim das guerras napoleônicas.
A difícil missão de angariar colonos e engajar soldados alemães para os Batalhões de Estrangeiros do Brasil, coube ao Major Johann Anton von Schaeffer que havia chegado ao Brasil em 1814 e conseguido granjear a amizade de D. Leopoldina, pelo interesse que ambos tinham nas ciências naturais.
De posse de uma procuração que o nomeava de "Agente de afazeres políticos do Brasil", Schaeffer encontrou inicialmente grandes dificuldades em contratar soldados na Alemanha. A exportação de soldados era terminantemente proibida, desde o Congresso de Viena em 1815, pois as grandes nações européias (Prússia, Inglaterra, Áustria e Rússia), não permitiriam o surgimento de um outro "Napoleão" no mundo. E D. Pedro I, com a independência do Brasil foi considerado um usurpador do poder, um rebelde que traíra o seu país.
Enquanto que em alguns estados alemães havia a proibição, em outros existia o direito dos cidadãos à emigração. Principalmente nos estados da atual Renânia, onde, pela proximidade com a França, a destruição tivera sido maior, e onde mais se fizeram sentir os efeitos do fim do feudalismo. Os camponeses, que agora podiam abandonar o campo, não encontravam trabalho nas cidades, também já repletas de artesãos desempregados pela explosão demográfica. A revolução industrial estava substituindo a mão-de-obra humana pelas máquinas que produziam mais e melhor.
Os minifúndios criados pelo direito hereditário, aliado às terras exauridas por sua contínua exploração, foram fatores que determinaram a expulsão dos camponeses que, por não encontrarem ocupação nas cidades, tinham apenas uma saída: a emigração.
Com a oferta do governo brasileiro de terras de 77 hectares, equivalente a 150 "morgos", além de ferramentas, gado, sementes, auxílio financeiro durante os dois primeiros anos e isenção de impostos nos primeiros 10 anos, a missão de Schaefer foi grandemente facilitada.
Para não chamar a atenção das autoridades Schaeffer embarcava soldados disfarçados e imiscuídos entre as famílias de colonos. Vieram assim, no período de 1824 a 1830 aproximadamente 5.000 (cinco mil) colonos ao Rio Grande do Sul, em meio a outros tantos soldados que permaneciam no Rio de Janeiro, engajados nos Batalhões de Estrangeiros.
No Rio de Janeiro os colonos ficavam alojados em galpões na Praia Grande ( Niterói), onde aguardavam a viagem ao Sul. Enquanto que a travessia do Atlântico era efetuada em navios de 3 mastros (galeras), as viagens para Porto Alegre eram efetuadas em bergantins, sumacas e escunas de 2 mastros apenas. A Capital da Província de São Pedro era atingida após 3 semanas de viagem. Aqui, depois de recepcionados pelo Presidente da Província Sr. José Feliciano Fernandes Pinheiro, ficavam alojados na extremidade sul do porto, em prédio do Arsenal de Guerra, proximidades da atual Usina do Gasômetro. Para o transporte até São Leopoldo, na época conhecida apenas por "Faxinal do Courita", eram utilizados lanchões toldados, movidos à vela e a remo. Em carretas os colonos chegavam à Feitoria do Linho-Cânhamo, estabelecimento fabril destinado à produção de cordoalhas largamente empregadas na navegação e que havia sido desativada no início de 1824 pelo Governo Imperial pelos sucessivos déficits e cuja administração ainda estava nas mãos do Inspetor José Thomaz de Lima. Com o encerramento das atividades da Feitoria, os 321 escravos que nela trabalhavam foram remetidos à Corte do Rio de Janeiro. As duas léguas de terras, correspondentes a 180 colônias de 100.000 braças quadradas (cerca de 8.700 hectares), foram medidas e divididas em lotes. As construções que compreendiam além do prédio principal do estabelecimento fabril ( do qual até hoje é preservada a sua parte frontal transformada em Museu do Imigrante), existiam ainda outros 81 e que foram destinados para obrigar os colonos alemães enquanto esperavam o recebimento do seu lote de terras.
3. A IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA NO BRASIL. OS PRIMEIROS PASTORES E AS PRIMEIRAS COMUNIDADES QUE DERAM ORIGEM A IGREJA EVANGÉLICA DE CONFISSÃO LUTERANA NO BRASIL.
1º ciclo.
O início da IGREJA EVANGÉLICA (Luterana) no Brasil confunde-se com a chegada dos primeiros imigrantes protestantes ao nosso País. Os primeiros Pastores que chegaram ao Brasil não encontram nem igrejas nem comunidades organizadas. Estes verdadeiros peregrinos da fé, aqui encontraram inúmeras dificuldades para pregarem o Evangelho.
1. Pastor Friedrich Osvald Sauerbronn, 1º Pastor do Brasil. 
O primeiro Pastor protestante no Brasil foi Friedrich Osvald Sauerbronn ( nasc. em 1784 falec. em 1864). Em 1818 o Governo havia fundado Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. O Pastor Sauerborn veio ao Brasil em 1824, a bordo do veleiro "Argus", acompanhando 300 imigrantes alemães, a maioria do Hessen, todos eles angariados pelo Major Schaeffer e que lá se radicaram. Veio ao Brasil com a promessa de receber o mesmo salário dos vigários da igreja católica e que o Governo lhe construiria uma igreja e uma escola. Portanto, o primeiro Pastor protestante que veio ao Brasil não veio ao Rio Grande do Sul e sim permaneceu em Nova Friburgo/RJ.
2. Pastor Johann Georg Ehlers, 1º Pastor do R.G. Sul.
No Sul do Brasil o primeiro Pastor foi Johann Georg Ehlers ( nascido em 22.8.1779, em Lüdersem / Hanôver e falecido 03.1850 no Rio de Janeiro). Igualmente foi contratado pelo major Schaeffer, percebendo 400$000 réis de ordenado anual. Atravessou o Atlântico na Galera "Germânia", terceiro veleiro que trouxe imigrantes ao Brasil. Veio viúvo, acompanhado de três filhos, pois sua esposa Maria Margerethe Tiedemann havia falecido antes dele emigrar. Chegou na recém fundada Colônia Alemã de São Leopoldo no dia 6.11.1824. Celebrou seu primeiro culto no Natal de 1824. Como não havia igreja realizou o ofício religioso no jardim da casa do Inspetor José Tomaz de Lima. Mas logo lhe foi concedido um galpão na Feitoria para realizar os cultos dominicais.
No ano seguinte, em 1825, requereu e recebeu um terreno do Inspetor Lima para lá construir "um salão, onde exerça a prédica e mais funções de seu ministério" e, além disso, um terreno para um cemitério. A construção parece ter-se iniciado em seguida, mas as obras sofreram uma interrupção de longos anos devido a Revolução Farroupilha e foram concluídas apenas em 1846.
Na década da revolução farroupilha o Pastor Ehlers passou por muitos dissabores. A revolução havia dividido os alemães de São Leopoldo, uns sob o comando do Dr. Johann Daniel Hillebrand, que apoiavam os legalistas, outros sob o comando de Hermann von Salisch, que lutavam a favor dos rebeldes. A povoação estava igualmente dividida. Durante o período revolucionário trocava de mando: ora na mão dos legalistas, ora na dos rebeldes.
Em 1836, quando São Leopoldo era retomada pelos legalistas, Ehlers foi acusado por Hillebrand de ser simpatizante do movimento revolucionário. Foi mandado a Porto Alegre, onde ficou de Junho de 1836 até fins de 1838, sabendo-se, apenas, que durante este período de 30 meses, ficou por 7 meses preso. Ehlers ficou no cargo até 1845, quando se transferiu para o Rio de Janeiro onde faleceu em Março de 1850.
3. Pastor Carl Leopoldo Voges, 2º Pastor do R.G. Sul.
Passados apenas 4 meses da chegada do Pastor Ehlers, chegaria a São Leopoldo o Pastor Carl Leopold Voges, igualmente contratado por Schaeffer. Pastor Voges nasceu em Friedberg junto a Hildesheim / Hanôver. Atravessou o Atlântico a bordo da galera dinamarquesa "Georg Friedrich" que transportava aproximadamente 500 passageiros, entre colonos e soldados. A viagem para Porto Alegre foi realizada pelo bergantim "Flor de Porto Alegre" que, em Janeiro de 1825, naufragou nos bancos de areia na altura de Mostardas. Dois colonos não conseguiram nadar até a praia e faleceram.
Voges chegou em São Leopoldo no dia 11.2.1825, tornando-se Pastor Adjunto de Ehlers ministrando e realizando os atos religiosos do lado direito do Rio dos Sinos (Hamburgo Velho, Dois Irmãos, Campo Bom e Ivoti), enquanto Ehlers ocupava-se na margem esquerda do rio (Feitoria Velha e São Leopoldo). Em meados de 1826 o Governo Imperial fundou uma colônia alemã próximo a Torres. Para lá foram remetidos de São Leopoldo cerca de 400 colonos. Voges que ainda era solteiro acompanhou esta caravana que lá chegou em Novembro de 1826.
Os 184 colonos católicos foram assentados em São Pedro de Alcântara (hoje Colônia São Pedro) e os 237 evangélicos instalaram-se em Três Forquilhas (hoje Itati). Além de Três Forquilhas Voges mantinha sua atividade eclesiástica na região de Dois Irmãos, onde, inclusive se casou com Luísa Elisabetha Diefenthäler em 24.3.1828. Para sua subsistência em Três Forquilhas o Pastor Voges recebeu 2 colônias de terras, onde construiu sua residência, a igreja, a escola e uma casa de comércio. Faleceu em Três Forquilhas em 1892, após 65 anos de atividade eclesiástica.
4. Pastor Friedrich Christian Klingelhoefer.
Foi o 4º Pastor protestante a chegar ao Brasil e o 3º para o R.G. Sul. Nasceu em 15.9.1784 em Battenberg, na época pertencente ao Ducado-Eleitoral de Hessen-Kassel. Depois de exercer o Pastorado por 17 anos na Alemanha, foi contratado por Schaeffer para trabalhar no Brasil, onde chegou em Dezembro de 1825 a bordo da Galera Dinamarquesa "Creole" que trazia 300 imigrantes ao Brasil. Veio acompanhado da mulher e 4 filhos e com a promessa de Schaeffer de aqui receber uma sesmaria de terras. Esperou no Rio de Janeiro por mais de 2 meses até que conseguisse os documentos das terras prometidas. Mas ao chegar em São Leopoldo em 17.4.1826, nada mais recebeu do que os demais colonos: uma colônia de terras em Campo Bom, entre os lotes dos colonos Johann Bloos e Johann Vetter. Na nova morada dedicou-se de início à lavoura.
Com a transferência do Pastor Voges para Três Forquilhas, em outubro de 1826, passou a atender a vida espiritual e religiosa dos moradores do lado direito do Rio dos Sinos, mais precisamente Campo Bom e arredores. Em 1827 construiu a 1ª Igreja, inicialmente de madeira, mais tarde substituída por outra, de alvenaria, e que se encontra erigida até os nossos dias. Na igreja aos domingos celebrava os cultos, e durante a semana funcionava a escola, cujo professor era o próprio Pastor.
Por ocasião da Revolução Farroupilha o Pastor Klingelhoefer aderiu ao movimento ao lado dos revoltosos, por achá-la vantajosa aos protestantes. O projeto de constituição farroupilha previa igualdade e liberdade religiosa, ao contrário do Governo Imperial que prometia liberdade religiosa aos evangélicos, mas a constituição determinava que a religião oficial era a católica-romana. Por isso ficou conhecido como "o Pastor farrapo". O Governo Imperial ao tomar conhecimento do seu apoio aos farrapos suspendeu o pagamento dos seus subsídios.
Em fins de 1838, tentando fugir do conflito revolucionário que ensanguentava a colônia alemã, e dar segurança para sua família, transferiu-se para Rio Pardo, cidade que era reduto dos rebeldes. Ao atingir a localidade de Freguesia Nova ( hoje Arroio dos Ratos) envolveu-se em combate com tropas imperiais sendo morto no campo de batalha e ali mesmo sepultado no dia 6.11.1838. Mais tarde seus restos mortais foram trazidos a Porto Alegre e sepultados no Cemitério Evangélico.
Com Klingelhoefer encerra-se o ciclo da vanguarda do protestantismo no Sul do Brasil. Os quatro primeiros Pastores no Brasil: Sauerborn, Ehlers, Voges e Klingelhoefer, como já vimos, foram todos contratados pelo Major Schaeffer e seus ordenados pagos pelo Governo Imperial. Os Pastores que vieram após, não tiveram mais esta característica comum, pois vieram por "motu próprio". Os três últimos citados ( Ehlers, Voges e Klingelhoefer) foram, como se costuma dizer, os pioneiros da IGREJA EVANGÉLICA (Luterana) no sul do Brasil.
2º Ciclo
A colonização alemã expandiu-se rapidamente pelo Vale do Sinos. Em menos de 4 anos a região abrangida atualmente pelos Municípios de São Leopoldo, Novo Hamburgo, Ivoti, Campo Bom, Dois Irmãos, Estância Velha, Linha Nova e São José do Hortêncio, havia sido loteada e as terras distribuídas aos imigrantes alemães. Em cada localidade, vencendo todas as dificuldades e precariedades da época, com a iniciativa destes poucos Pastores e dos próprios colonos, surgiram as primeiras escolas, as primeiras igrejas e com elas as primeiras comunidades.
Nos vinte anos seguintes, os Pastores que chegaram ao sul, vieram, como já dissemos, por motivação própria e com a iniciativa dos colonos que embora pobres e humildes, trouxeram para o Brasil o sentido religioso em seus corações. Entre estes Pastores podemos citar:
  • Pastor Augusto Wilhelm Klenze ( nasc. em 1805 falec. em 1861). Recebeu, em 1845, após a Revolução Farroupilha, a autorização do Conde de Caxias para exercer as funções de Pastor em São Leopoldo, pois o Pastor Ehlers, já com idade avançada, foi residir no Rio de Janeiro, onde faleceu em 1850. Klenze não só atendia São Leopoldo mas também São José do Hortêncio e Lomba Grande. Foi ele quem construiu a primeira Igreja de São Leopoldo, inaugurada em 18.1.1846, através de uma lista de subscrição com mais de 3.000 assinaturas. Faleceu no domingo de Páscoa, 5.4.1861, de derrame cerebral enquanto celebrava o culto.
  • Pastor Dr. Otto Heinrich Theodor Recke. Nasceu em 1806 na Alemanha e foi o substituto de Pastor Klingelhoefer na comunidade de Campo Bom. Ali substituiu a antiga igreja de madeira construída em 1827, por uma de alvenaria, inaugurada em 1851 e ainda hoje existente. Recke foi Pastor de Campo Bom e comunidades vizinhas de 1848 a 1867 ano em que, depois de 19 anos de Pastorado, mudou-se para Buenos Aires.
  • Pastor Johann Peter Haesbaert ( nasc. em 1803 falec. em 1890). Chegou em Hamburgo Velho em 1845 enviado por uma entidade religiosa do Estados Unidos, para onde seus pais, naturais da Alemanha, haviam se mudado quando o Pastor ainda era jovem. Foi Pastor de Hamburgo Velho, Estância Velha, Dois Irmãos, Picada 48 e Ivoti, aposentando-se aos 83 anos. Foi o primeiro Pastor do Sínodo Missouri (IELB) no Rio Grande do Sul. Faleceu em 1890 aos 87 anos de idade após servir por 41 anos as comunidades anteriormente citadas.
Estes primeiros Pastores não eram suficientes para atender ao grande número de comunidades que, em muitos casos, estavam separadas por grandes distâncias. A colonização alemã já havia atingido os vales do Caí e Taquari, onde inúmeras pequenas comunidades luteranas evangélicas foram criadas, em templos modestos, onde os colonos se reuniam aos domingos para batizar os filhos e ouvir a palavra de Deus. Numa época em que o único meio de transporte terrestre era o a tração animal, os Pastores venceram estas distâncias a cavalo. Eram Pastores itinerantes, que percorriam as linhas e picadas de tempos em tempos, realizando casamentos e batismos coletivos, ficando hospedados em casas particulares.
Somente depois de quarenta anos após a chegada dos primeiros imigrantes é que a situação das comunidades evangélicas começou a melhorar.
Uma das promessas dos imigrantes era de plena liberdade religiosa. Mas a Constituição outorgada por D. Pedro I em 1824 determinava que a religião oficial do Império era a católica-romana. As demais religiões eram toleradas. Seus cultos deveriam ser praticados em prédios que não possuíssem aparência externa de igreja, ou seja, não poderiam ter torre nem sino. Aos que não professavam a religião oficial era vedado o acesso aos cargos públicos. Apenas a igreja oficial poderia receber auxílio financeiro do Governo. Enquanto os padres católicos eram pagos pelo Governo, os acatólicos deveriam angariar fundos dentro das suas próprias comunidades para pagar os seus clérigos. Quanto aos casamentos a situação ainda era pior. Apenas os celebrados perante sacerdote católico tinham validade. Eram nulos os casamentos efetuados perante Pastores no exterior ou no País. Toleravam-se os casamentos mistos, desde que os filhos professassem a religião católica, e assim por diante.
Em 1855 o embaixador da Prússia, Sr. Levenhagen, dirigiu carta ao Governo explicando a situação dos evangélicos e propondo a instituição do casamento civil. Foi apresentado um projeto de lei neste sentido, mas jamais foi sancionado por resistência da igreja católica. Diante de tal intransigência o Governo da Prússia revogou a licença dada às agências de emigração para alistar emigrantes ao Brasil. Apenas, então, atendendo a esta pressão da Prússia, D. Pedro II, em 1863, concedeu aos Pastores evangélicos os mesmos direitos dos padres católicos, quanto ao registro de nascimentos, casamentos e óbitos, embora mantida a exigência, de que nos casamentos mistos os filhos deveriam ser educados na religião católica.
Diante dessa nova situação e com o empenho do Pastor Dr. Hermann Borchard que chegara em São Leopoldo em 1864, foi possível mobilizar as autoridades eclesiásticas da Alemanha e da Suíça no sentido de remeter Pastores "para os correligionários evangélicos esquecidos" no Rio Grande do Sul. Não tardou muito para chegarem ao Rio Grande do Sul nada menos do que 11 novos Pastores:
  1. Wilhelm Kleingünther, Pastor de 1864 a 1873 em Porto Alegre;
  2. Johannes Stanger, Pastor de 1865 a 1874 em Picada 48;
  3. Hermann Jakob Bergfried, Pastor de 1866 a 1871 em Santa Cruz;
  4. Christian Smidt, Pastor de 1866 a 1899 em Ferraz e Rio Pardinho;
  5. Johann Friedrich Brutschin, Pastor de 1868 a 1904 em Dois Irmãos;
  6. Heinrich Wilhelm Hunsche, Pastor de 1868 a 1908 em Linha Nova;
  7. Heinrich Eduard Falk, Pastor de 1868 a 1918 em Agudo, S. Cruz, Ferraz e Feliz;
  8. Robert Krone, Pastor de 1868 a 1870 em Santa Maria;
  9. Dr. Carl Gruel, Pastor de 1870 a 1871 em São Leopoldo e Picada 48;
  10. Carl Friedrich Wegel, Pastor de 1870 a 1893 em São Lourenço do Sul;
  11. Johann Heinrich Peters, Pastor de 1871 a 1885 no Forromeco ( atual São Vendelino).
Apenas com a Constituição Republicana de 1891 foram conseguidos todos os direitos dos evangélicos, pois a mesma separava a igreja do estado, instituía os registros civis e proclamava a plena liberdade religiosa para todos os credos.
Se hoje homenageamos àqueles imigrantes, na sua grande maioria simples colonos, que para cá vieram e semearam o progresso econômico e cultural de que tanto nos orgulhamos, é justo também que honremos àqueles Pastores pioneiros, que para cá vieram, também deixando para trás a sua pátria, família e amigos, para aqui semear a fé e cumprir a sua missão de evangelizar.

Referência bibliográfica:
"O Biênio 1824 e 1825 da Imigração e Colonização Alemã do Rio Grande do Sul", de Carlos H. Hunsche;
"O Ano de 1826 da Imigração e Colonização Alemã do R.G. Sul", de Carlos Henrique Hunsche;
"Protestantismo no Sul do Brasil", de Carlos Henrique Hunsche;
"Igrejas Evangélicas", de Rev. Rudolf Becker;
"Hundert Jahre Deutschtum in Rio Grande do Sul", de Padre Teodor Amstad;
"Die Anfänge unserer Kirche in Rio Grande do Sul", de Dr. Klaus Becker.

Imigração Alemã ao Brasil e Rio Grande do Sul - I
por: Egídio Weissheimer, contador e pesquisador
telefone: 3342.89.96 - email: weissheimer@tutopia.com.br Endereço do Instituto de Genealógico do Rio Grande do Sul - INGERS
1. APRESENTAÇÃO.
O trabalho que vamos apresentar vai enfocar dois assuntos:
1) a imigração alemã ao Brasil, dando ênfase aos motivos que levaram a tantos alemães a abandonar a sua pátria em procura de uma vida melhor para si e sua família; e
2) os primórdios da IGREJA EVANGÉLICA (Luterana) no Brasil, em que damos uma pequena biografia dos primeiros Pastores que aqui chegaram, juntamente com os imigrantes, aqui fundando as primeiras comunidades evangélicas luteranas de origem alemã.
2. IMIGRAÇÃO ALEMÃ AO BRASIL: POR QUE VIERAM E DE ONDE VIERAM?
Para entender os motivos que levaram a tantos alemães a emigrar ao Brasil, a partir do ano de 1824, é necessário regredir um pouco na nossa história.
No dia 7 de Setembro de 1822, o Príncipe D. Pedro, às margens do Riacho Ipiranga, em São Paulo, proclamava a Independência do Brasil.
Em 1808 a Família Real Portuguesa havia fugido para o Brasil, a bordo de 14 navios ingleses, para escapar da invasão das tropas napoleônicas. Com a derrota de Napoleão na Batalha de Waterloo em 18.6.1815, nada mais impedia o regresso de D. João VI a Portugal, o que efetivamente ocorreu em 24 de Abril de 1821. Com o retorno da família real, entenderam as autoridades portuguesas que o Brasil deveria retornar à simples condição de colônia, fato que já deixara de ser desde que fora incorporado ao Reino Unido de Portugal e Algarves. Com isto nem as autoridades brasileiras nem o Príncipe Regente D. Pedro concordavam, o que determinou a proclamação da Independência.
Esta proclamação, no entanto, encontrou muitas oposições no país, pois as autoridades das províncias eram portuguesas e mantinham-se fiéis à Coroa Portuguesa. As tropas portuguesas tiveram que ser daqui expulsas em 1823. Novo exército teve que ser formado, para garantir militarmente a independência, pois em Lisboa grandes aparatos de forças militares estavam sendo preparados para invadir o Brasil.
Mas não havia soldados suficientemente preparados no país. Era necessário trazê-los do exterior. Além de soldados também necessitava o país de colonos que viessem se instalar no sul, onde a questão militar quanto à soberania sobre a Província Cisplatina havia gerado diversos conflitos com a Argentina. Por recomendação de D. Leopoldina, arquiduquesa da Áustria e filha do Imperador Francisco I com quem D. Pedro se casara em 1816, decidiu-se trazer não só soldados mas também colonos da Alemanha. Lá existiam milhares deles desempregados desde o fim das guerras napoleônicas.
A difícil missão de angariar colonos e engajar soldados alemães para os Batalhões de Estrangeiros do Brasil, coube ao Major Johann Anton von Schaeffer que havia chegado ao Brasil em 1814 e conseguido granjear a amizade de D. Leopoldina, pelo interesse que ambos tinham nas ciências naturais.
De posse de uma procuração que o nomeava de "Agente de afazeres políticos do Brasil", Schaeffer encontrou inicialmente grandes dificuldades em contratar soldados na Alemanha. A exportação de soldados era terminantemente proibida, desde o Congresso de Viena em 1815, pois as grandes nações européias (Prússia, Inglaterra, Áustria e Rússia), não permitiriam o surgimento de um outro "Napoleão" no mundo. E D. Pedro I, com a independência do Brasil foi considerado um usurpador do poder, um rebelde que traíra o seu país.
Enquanto que em alguns estados alemães havia a proibição, em outros existia o direito dos cidadãos à emigração. Principalmente nos estados da atual Renânia, onde, pela proximidade com a França, a destruição tivera sido maior, e onde mais se fizeram sentir os efeitos do fim do feudalismo. Os camponeses, que agora podiam abandonar o campo, não encontravam trabalho nas cidades, também já repletas de artesãos desempregados pela explosão demográfica. A revolução industrial estava substituindo a mão-de-obra humana pelas máquinas que produziam mais e melhor.
Os minifúndios criados pelo direito hereditário, aliado às terras exauridas por sua contínua exploração, foram fatores que determinaram a expulsão dos camponeses que, por não encontrarem ocupação nas cidades, tinham apenas uma saída: a emigração.
Com a oferta do governo brasileiro de terras de 77 hectares, equivalente a 150 "morgos", além de ferramentas, gado, sementes, auxílio financeiro durante os dois primeiros anos e isenção de impostos nos primeiros 10 anos, a missão de Schaefer foi grandemente facilitada.
Para não chamar a atenção das autoridades Schaeffer embarcava soldados disfarçados e imiscuídos entre as famílias de colonos. Vieram assim, no período de 1824 a 1830 aproximadamente 5.000 (cinco mil) colonos ao Rio Grande do Sul, em meio a outros tantos soldados que permaneciam no Rio de Janeiro, engajados nos Batalhões de Estrangeiros.
No Rio de Janeiro os colonos ficavam alojados em galpões na Praia Grande ( Niterói), onde aguardavam a viagem ao Sul. Enquanto que a travessia do Atlântico era efetuada em navios de 3 mastros (galeras), as viagens para Porto Alegre eram efetuadas em bergantins, sumacas e escunas de 2 mastros apenas. A Capital da Província de São Pedro era atingida após 3 semanas de viagem. Aqui, depois de recepcionados pelo Presidente da Província Sr. José Feliciano Fernandes Pinheiro, ficavam alojados na extremidade sul do porto, em prédio do Arsenal de Guerra, proximidades da atual Usina do Gasômetro. Para o transporte até São Leopoldo, na época conhecida apenas por "Faxinal do Courita", eram utilizados lanchões toldados, movidos à vela e a remo. Em carretas os colonos chegavam à Feitoria do Linho-Cânhamo, estabelecimento fabril destinado à produção de cordoalhas largamente empregadas na navegação e que havia sido desativada no início de 1824 pelo Governo Imperial pelos sucessivos déficits e cuja administração ainda estava nas mãos do Inspetor José Thomaz de Lima. Com o encerramento das atividades da Feitoria, os 321 escravos que nela trabalhavam foram remetidos à Corte do Rio de Janeiro. As duas léguas de terras, correspondentes a 180 colônias de 100.000 braças quadradas (cerca de 8.700 hectares), foram medidas e divididas em lotes. As construções que compreendiam além do prédio principal do estabelecimento fabril ( do qual até hoje é preservada a sua parte frontal transformada em Museu do Imigrante), existiam ainda outros 81 e que foram destinados para obrigar os colonos alemães enquanto esperavam o recebimento do seu lote de terras.
3. A IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA NO BRASIL. OS PRIMEIROS PASTORES E AS PRIMEIRAS COMUNIDADES QUE DERAM ORIGEM A IGREJA EVANGÉLICA DE CONFISSÃO LUTERANA NO BRASIL.
1º ciclo.
O início da IGREJA EVANGÉLICA (Luterana) no Brasil confunde-se com a chegada dos primeiros imigrantes protestantes ao nosso País. Os primeiros Pastores que chegaram ao Brasil não encontram nem igrejas nem comunidades organizadas. Estes verdadeiros peregrinos da fé, aqui encontraram inúmeras dificuldades para pregarem o Evangelho.
1. Pastor Friedrich Osvald Sauerbronn, 1º Pastor do Brasil. 
O primeiro Pastor protestante no Brasil foi Friedrich Osvald Sauerbronn ( nasc. em 1784 falec. em 1864). Em 1818 o Governo havia fundado Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. O Pastor Sauerborn veio ao Brasil em 1824, a bordo do veleiro "Argus", acompanhando 300 imigrantes alemães, a maioria do Hessen, todos eles angariados pelo Major Schaeffer e que lá se radicaram. Veio ao Brasil com a promessa de receber o mesmo salário dos vigários da igreja católica e que o Governo lhe construiria uma igreja e uma escola. Portanto, o primeiro Pastor protestante que veio ao Brasil não veio ao Rio Grande do Sul e sim permaneceu em Nova Friburgo/RJ.
2. Pastor Johann Georg Ehlers, 1º Pastor do R.G. Sul.
No Sul do Brasil o primeiro Pastor foi Johann Georg Ehlers ( nascido em 22.8.1779, em Lüdersem / Hanôver e falecido 03.1850 no Rio de Janeiro). Igualmente foi contratado pelo major Schaeffer, percebendo 400$000 réis de ordenado anual. Atravessou o Atlântico na Galera "Germânia", terceiro veleiro que trouxe imigrantes ao Brasil. Veio viúvo, acompanhado de três filhos, pois sua esposa Maria Margerethe Tiedemann havia falecido antes dele emigrar. Chegou na recém fundada Colônia Alemã de São Leopoldo no dia 6.11.1824. Celebrou seu primeiro culto no Natal de 1824. Como não havia igreja realizou o ofício religioso no jardim da casa do Inspetor José Tomaz de Lima. Mas logo lhe foi concedido um galpão na Feitoria para realizar os cultos dominicais.
No ano seguinte, em 1825, requereu e recebeu um terreno do Inspetor Lima para lá construir "um salão, onde exerça a prédica e mais funções de seu ministério" e, além disso, um terreno para um cemitério. A construção parece ter-se iniciado em seguida, mas as obras sofreram uma interrupção de longos anos devido a Revolução Farroupilha e foram concluídas apenas em 1846.
Na década da revolução farroupilha o Pastor Ehlers passou por muitos dissabores. A revolução havia dividido os alemães de São Leopoldo, uns sob o comando do Dr. Johann Daniel Hillebrand, que apoiavam os legalistas, outros sob o comando de Hermann von Salisch, que lutavam a favor dos rebeldes. A povoação estava igualmente dividida. Durante o período revolucionário trocava de mando: ora na mão dos legalistas, ora na dos rebeldes.
Em 1836, quando São Leopoldo era retomada pelos legalistas, Ehlers foi acusado por Hillebrand de ser simpatizante do movimento revolucionário. Foi mandado a Porto Alegre, onde ficou de Junho de 1836 até fins de 1838, sabendo-se, apenas, que durante este período de 30 meses, ficou por 7 meses preso. Ehlers ficou no cargo até 1845, quando se transferiu para o Rio de Janeiro onde faleceu em Março de 1850.
3. Pastor Carl Leopoldo Voges, 2º Pastor do R.G. Sul.
Passados apenas 4 meses da chegada do Pastor Ehlers, chegaria a São Leopoldo o Pastor Carl Leopold Voges, igualmente contratado por Schaeffer. Pastor Voges nasceu em Friedberg junto a Hildesheim / Hanôver. Atravessou o Atlântico a bordo da galera dinamarquesa "Georg Friedrich" que transportava aproximadamente 500 passageiros, entre colonos e soldados. A viagem para Porto Alegre foi realizada pelo bergantim "Flor de Porto Alegre" que, em Janeiro de 1825, naufragou nos bancos de areia na altura de Mostardas. Dois colonos não conseguiram nadar até a praia e faleceram.
Voges chegou em São Leopoldo no dia 11.2.1825, tornando-se Pastor Adjunto de Ehlers ministrando e realizando os atos religiosos do lado direito do Rio dos Sinos (Hamburgo Velho, Dois Irmãos, Campo Bom e Ivoti), enquanto Ehlers ocupava-se na margem esquerda do rio (Feitoria Velha e São Leopoldo). Em meados de 1826 o Governo Imperial fundou uma colônia alemã próximo a Torres. Para lá foram remetidos de São Leopoldo cerca de 400 colonos. Voges que ainda era solteiro acompanhou esta caravana que lá chegou em Novembro de 1826.
Os 184 colonos católicos foram assentados em São Pedro de Alcântara (hoje Colônia São Pedro) e os 237 evangélicos instalaram-se em Três Forquilhas (hoje Itati). Além de Três Forquilhas Voges mantinha sua atividade eclesiástica na região de Dois Irmãos, onde, inclusive se casou com Luísa Elisabetha Diefenthäler em 24.3.1828. Para sua subsistência em Três Forquilhas o Pastor Voges recebeu 2 colônias de terras, onde construiu sua residência, a igreja, a escola e uma casa de comércio. Faleceu em Três Forquilhas em 1892, após 65 anos de atividade eclesiástica.
4. Pastor Friedrich Christian Klingelhoefer.
Foi o 4º Pastor protestante a chegar ao Brasil e o 3º para o R.G. Sul. Nasceu em 15.9.1784 em Battenberg, na época pertencente ao Ducado-Eleitoral de Hessen-Kassel. Depois de exercer o Pastorado por 17 anos na Alemanha, foi contratado por Schaeffer para trabalhar no Brasil, onde chegou em Dezembro de 1825 a bordo da Galera Dinamarquesa "Creole" que trazia 300 imigrantes ao Brasil. Veio acompanhado da mulher e 4 filhos e com a promessa de Schaeffer de aqui receber uma sesmaria de terras. Esperou no Rio de Janeiro por mais de 2 meses até que conseguisse os documentos das terras prometidas. Mas ao chegar em São Leopoldo em 17.4.1826, nada mais recebeu do que os demais colonos: uma colônia de terras em Campo Bom, entre os lotes dos colonos Johann Bloos e Johann Vetter. Na nova morada dedicou-se de início à lavoura.
Com a transferência do Pastor Voges para Três Forquilhas, em outubro de 1826, passou a atender a vida espiritual e religiosa dos moradores do lado direito do Rio dos Sinos, mais precisamente Campo Bom e arredores. Em 1827 construiu a 1ª Igreja, inicialmente de madeira, mais tarde substituída por outra, de alvenaria, e que se encontra erigida até os nossos dias. Na igreja aos domingos celebrava os cultos, e durante a semana funcionava a escola, cujo professor era o próprio Pastor.
Por ocasião da Revolução Farroupilha o Pastor Klingelhoefer aderiu ao movimento ao lado dos revoltosos, por achá-la vantajosa aos protestantes. O projeto de constituição farroupilha previa igualdade e liberdade religiosa, ao contrário do Governo Imperial que prometia liberdade religiosa aos evangélicos, mas a constituição determinava que a religião oficial era a católica-romana. Por isso ficou conhecido como "o Pastor farrapo". O Governo Imperial ao tomar conhecimento do seu apoio aos farrapos suspendeu o pagamento dos seus subsídios.
Em fins de 1838, tentando fugir do conflito revolucionário que ensanguentava a colônia alemã, e dar segurança para sua família, transferiu-se para Rio Pardo, cidade que era reduto dos rebeldes. Ao atingir a localidade de Freguesia Nova ( hoje Arroio dos Ratos) envolveu-se em combate com tropas imperiais sendo morto no campo de batalha e ali mesmo sepultado no dia 6.11.1838. Mais tarde seus restos mortais foram trazidos a Porto Alegre e sepultados no Cemitério Evangélico.
Com Klingelhoefer encerra-se o ciclo da vanguarda do protestantismo no Sul do Brasil. Os quatro primeiros Pastores no Brasil: Sauerborn, Ehlers, Voges e Klingelhoefer, como já vimos, foram todos contratados pelo Major Schaeffer e seus ordenados pagos pelo Governo Imperial. Os Pastores que vieram após, não tiveram mais esta característica comum, pois vieram por "motu próprio". Os três últimos citados ( Ehlers, Voges e Klingelhoefer) foram, como se costuma dizer, os pioneiros da IGREJA EVANGÉLICA (Luterana) no sul do Brasil.
2º Ciclo
A colonização alemã expandiu-se rapidamente pelo Vale do Sinos. Em menos de 4 anos a região abrangida atualmente pelos Municípios de São Leopoldo, Novo Hamburgo, Ivoti, Campo Bom, Dois Irmãos, Estância Velha, Linha Nova e São José do Hortêncio, havia sido loteada e as terras distribuídas aos imigrantes alemães. Em cada localidade, vencendo todas as dificuldades e precariedades da época, com a iniciativa destes poucos Pastores e dos próprios colonos, surgiram as primeiras escolas, as primeiras igrejas e com elas as primeiras comunidades.
Nos vinte anos seguintes, os Pastores que chegaram ao sul, vieram, como já dissemos, por motivação própria e com a iniciativa dos colonos que embora pobres e humildes, trouxeram para o Brasil o sentido religioso em seus corações. Entre estes Pastores podemos citar:
  • Pastor Augusto Wilhelm Klenze ( nasc. em 1805 falec. em 1861). Recebeu, em 1845, após a Revolução Farroupilha, a autorização do Conde de Caxias para exercer as funções de Pastor em São Leopoldo, pois o Pastor Ehlers, já com idade avançada, foi residir no Rio de Janeiro, onde faleceu em 1850. Klenze não só atendia São Leopoldo mas também São José do Hortêncio e Lomba Grande. Foi ele quem construiu a primeira Igreja de São Leopoldo, inaugurada em 18.1.1846, através de uma lista de subscrição com mais de 3.000 assinaturas. Faleceu no domingo de Páscoa, 5.4.1861, de derrame cerebral enquanto celebrava o culto.
  • Pastor Dr. Otto Heinrich Theodor Recke. Nasceu em 1806 na Alemanha e foi o substituto de Pastor Klingelhoefer na comunidade de Campo Bom. Ali substituiu a antiga igreja de madeira construída em 1827, por uma de alvenaria, inaugurada em 1851 e ainda hoje existente. Recke foi Pastor de Campo Bom e comunidades vizinhas de 1848 a 1867 ano em que, depois de 19 anos de Pastorado, mudou-se para Buenos Aires.
  • Pastor Johann Peter Haesbaert ( nasc. em 1803 falec. em 1890). Chegou em Hamburgo Velho em 1845 enviado por uma entidade religiosa do Estados Unidos, para onde seus pais, naturais da Alemanha, haviam se mudado quando o Pastor ainda era jovem. Foi Pastor de Hamburgo Velho, Estância Velha, Dois Irmãos, Picada 48 e Ivoti, aposentando-se aos 83 anos. Foi o primeiro Pastor do Sínodo Missouri (IELB) no Rio Grande do Sul. Faleceu em 1890 aos 87 anos de idade após servir por 41 anos as comunidades anteriormente citadas.
Estes primeiros Pastores não eram suficientes para atender ao grande número de comunidades que, em muitos casos, estavam separadas por grandes distâncias. A colonização alemã já havia atingido os vales do Caí e Taquari, onde inúmeras pequenas comunidades luteranas evangélicas foram criadas, em templos modestos, onde os colonos se reuniam aos domingos para batizar os filhos e ouvir a palavra de Deus. Numa época em que o único meio de transporte terrestre era o a tração animal, os Pastores venceram estas distâncias a cavalo. Eram Pastores itinerantes, que percorriam as linhas e picadas de tempos em tempos, realizando casamentos e batismos coletivos, ficando hospedados em casas particulares.
Somente depois de quarenta anos após a chegada dos primeiros imigrantes é que a situação das comunidades evangélicas começou a melhorar.
Uma das promessas dos imigrantes era de plena liberdade religiosa. Mas a Constituição outorgada por D. Pedro I em 1824 determinava que a religião oficial do Império era a católica-romana. As demais religiões eram toleradas. Seus cultos deveriam ser praticados em prédios que não possuíssem aparência externa de igreja, ou seja, não poderiam ter torre nem sino. Aos que não professavam a religião oficial era vedado o acesso aos cargos públicos. Apenas a igreja oficial poderia receber auxílio financeiro do Governo. Enquanto os padres católicos eram pagos pelo Governo, os acatólicos deveriam angariar fundos dentro das suas próprias comunidades para pagar os seus clérigos. Quanto aos casamentos a situação ainda era pior. Apenas os celebrados perante sacerdote católico tinham validade. Eram nulos os casamentos efetuados perante Pastores no exterior ou no País. Toleravam-se os casamentos mistos, desde que os filhos professassem a religião católica, e assim por diante.
Em 1855 o embaixador da Prússia, Sr. Levenhagen, dirigiu carta ao Governo explicando a situação dos evangélicos e propondo a instituição do casamento civil. Foi apresentado um projeto de lei neste sentido, mas jamais foi sancionado por resistência da igreja católica. Diante de tal intransigência o Governo da Prússia revogou a licença dada às agências de emigração para alistar emigrantes ao Brasil. Apenas, então, atendendo a esta pressão da Prússia, D. Pedro II, em 1863, concedeu aos Pastores evangélicos os mesmos direitos dos padres católicos, quanto ao registro de nascimentos, casamentos e óbitos, embora mantida a exigência, de que nos casamentos mistos os filhos deveriam ser educados na religião católica.
Diante dessa nova situação e com o empenho do Pastor Dr. Hermann Borchard que chegara em São Leopoldo em 1864, foi possível mobilizar as autoridades eclesiásticas da Alemanha e da Suíça no sentido de remeter Pastores "para os correligionários evangélicos esquecidos" no Rio Grande do Sul. Não tardou muito para chegarem ao Rio Grande do Sul nada menos do que 11 novos Pastores:
  1. Wilhelm Kleingünther, Pastor de 1864 a 1873 em Porto Alegre;
  2. Johannes Stanger, Pastor de 1865 a 1874 em Picada 48;
  3. Hermann Jakob Bergfried, Pastor de 1866 a 1871 em Santa Cruz;
  4. Christian Smidt, Pastor de 1866 a 1899 em Ferraz e Rio Pardinho;
  5. Johann Friedrich Brutschin, Pastor de 1868 a 1904 em Dois Irmãos;
  6. Heinrich Wilhelm Hunsche, Pastor de 1868 a 1908 em Linha Nova;
  7. Heinrich Eduard Falk, Pastor de 1868 a 1918 em Agudo, S. Cruz, Ferraz e Feliz;
  8. Robert Krone, Pastor de 1868 a 1870 em Santa Maria;
  9. Dr. Carl Gruel, Pastor de 1870 a 1871 em São Leopoldo e Picada 48;
  10. Carl Friedrich Wegel, Pastor de 1870 a 1893 em São Lourenço do Sul;
  11. Johann Heinrich Peters, Pastor de 1871 a 1885 no Forromeco ( atual São Vendelino).
Apenas com a Constituição Republicana de 1891 foram conseguidos todos os direitos dos evangélicos, pois a mesma separava a igreja do estado, instituía os registros civis e proclamava a plena liberdade religiosa para todos os credos.
Se hoje homenageamos àqueles imigrantes, na sua grande maioria simples colonos, que para cá vieram e semearam o progresso econômico e cultural de que tanto nos orgulhamos, é justo também que honremos àqueles Pastores pioneiros, que para cá vieram, também deixando para trás a sua pátria, família e amigos, para aqui semear a fé e cumprir a sua missão de evangelizar.

Referência bibliográfica:

"O Biênio 1824 e 1825 da Imigração e Colonização Alemã do Rio Grande do Sul", de Carlos H. Hunsche;
"O Ano de 1826 da Imigração e Colonização Alemã do R.G. Sul", de Carlos Henrique Hunsche;
"Protestantismo no Sul do Brasil", de Carlos Henrique Hunsche;
"Igrejas Evangélicas", de Rev. Rudolf Becker;
"Hundert Jahre Deutschtum in Rio Grande do Sul", de Padre Teodor Amstad;
"Die Anfänge unserer Kirche in Rio Grande do Sul", de Dr. Klaus Becker.

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