quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

779 - A cidade do Caí, em 1940

Na descrição que Alceu Masson fez da sede municipal de Caí, observa-se que a cidade tinha uma estrutura considerável, apesar da população reduzida (6.500 habitantes).
"Quanto às associações, existem em Caí:
1) três sociedades recreativas: Liga Esportiva (no prédio do atual Country Clube), Sociedade Ginástica (que veio, depois a ser o Clube Aliança) e Sociedade Recreativa União (no bairro Vila Rica, o popular Poeira);
2) três clubes de foot-ball: Club Atlético Caiense, Sport Club União e Grêmio Sportivo Fluvial;
3) dois clubes de tennis: Tennis Club Caí, com duas quadras, e Brasil Tennis Club, com uma quadra apenas;
4) um clube de remo e natação, o Praia Club;
5) seis clubes de bolão: Não Pode, Primavera, Caí, Gaúcho, Colibri e Elite;
São dois os estabelecimentos bancários que funcionam na sede do município: as agências do Banco do Comércio e do Banco Pfeiffer S.A.
Desde 1921 acha-se instalado em Caí o tiro de guerra 471, que foi fundado em 3 de junho de 1919 e teve, primeiramente, a sua sede em Nova Petrópolis. O 471 vem dando ao exército nacional diciplinadas turmas de reservistas, as maiores do interior do estado.
A iluminação pública nada deixa a desejar. A corrente eletrica é fornecida pela usina Maurício Cardoso, do município de Montenegro, à qual a rede de Caí foi recentemente ligada.
Funciona na cidade o cinema Gaúcho, de propriedade dos srs. Danilo Zimmermann e Erno Marcks."

778 - Picada ou linha

As mulas cargueiras eram o único meio de transporte para cargas que podia ser usado nas estreitas picadas de antigamente

Picada significa, originalmente, um caminho estreito aberto no meio do mato. Mais estreito do que uma estrada, permitindo apenas a passagem de pedestres e montarias (cavalos, mulas). Mas Alceu Masson já alertava, em 1940, para o fato de que na região colonial do Vale do Caí a palavra era usada com um sentido diferente.
Nesta época, as picadas já haviam sido substituídas por estradas, suficientemente largas para permitir a passagem de carretas, automóveis e caminhões.
Então, a palavra continuava sendo usada para designar localidades.
São José do Hortêncio surgiu de uma picada (um caminho estreito aberto no meio do mato). Em vista disto, por muito tempo foi conhecido como Picada do Rio Cadeia, Picada dos Portugueses ou Picada do Hortêncio.
Assim outras localidades também foram nomeadas de forma semelhante. Picada 48, por exemplo. Na sua maioria estas antigas denominações foram trocadas por novos nomes. Picada 48, por exemplo, virou Lindolfo Collor. Algumas localidades, entretanto, continuam sendo conhecidas desta forma. O exemplo mais conhecido é o de Picada Café, que hoje é nome de uma pequena cidade e município.
A palavra linha tem sentido semelhante. No Vale do Caí serviu para designar picadas traçadas de forma retilínea. Ou, em certos casos, refere-se a linhas retas (imaginárias) que servem para determinar a divisa entre territórios (entre municípios, estados, países). São José do Hortêncio, ainda em 1940, era conhecida como Linha Hortêncio. Hoje ainda, a cidade de São José do Hortêncio se distingue pelo fato de que quase todos os seus prédios estão situados numa mesma avenida, a Mathias Steffens. O que se deve à origem da localidade. Originalmente, foi aberta uma picada retilínea, no meio do mato. E os colonos que lá se estabeleceram fizeram suas casas com frente para esta picada. Com o tempo, o mato foi sendo derrubado e o terreno, nos fundos das casas, foi usado para plantações. A picada virou estrada e depois rua. Mas continuou sendo uma linha reta. Por isto, ao invés de Picada Hortêncio, passou a ser conhecida como Linha Hortêncio.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

777 - Os passos

Atualmente os comerciantes preferem instalar as suas lojas em esquinas ou no entroncamento de rodovias. São lugares pelos quais passa um maior número de pessoas e lá suas lojas são mais vistas e lembradas.
Bem antigamente, quando não existiam pontes, os rios eram transpostos nos passos. Ou seja, locais onde era mais fácil de passar. A pé ou a nado, montado a cavalo ou numa mula, os viajantes enfrentavam os riscos da travessia pela necessidade de viajar. Os tropeiros que levavam manadas de gado ou de mulas, nos séculos XVII, XVIII, XIX e até a metade do século XX, iam do Rio Grande do Sul até São Paulo e não encontravam muitas pontes no seu caminho.
Quando chovia, a travessia se tornava mais difícil e perigosa e, muitas vezes, era necessário esperar alguns dias, antes de efetuar a travessia e seguir viagem.
As picadas no meio da mata convergiam para estes passos. Com o tempo elas tornaram-se estradas, mas os viajantes continuaram utilizando os passos. Ali costumava haver um homem que, com um caíco ou uma balsa auxiliava os viajantes a fazer a travessia e ganhava algum dinheiro pelo serviço.
Estabelecimentos comerciais eram normalmente instalados junto aos passos, para aproveitar o trânsito que ali passava. E, como era comum naquele tempo, os armazéns tinham acomodações para hóspedes. Muito utilizadas nas ocasiões em que o rio cheio impedia a travessia.
Com o tempo, no mesmo local dos passos, foram sendo instaladas barcas capazes de transportar automóveis e carretas. E, em muitos casos, no mesmo local do passo ou próximo dele foram construídas pontes.
Um exemplo disto é o Passo da Boa Esperança, junto à cidade de Feliz. Desde o início do século XIX, e antes disto, o local era usado para travessias. E lá por 1840 havia um morador no local. No ano de 1900, com o trânsito já intenso (inclusive para Caxias do Sul e outras cidades da região serrana, foi feito um grande investimento: a construção de uma ponte de ferro, no ano de 1900. Ela foi feita uma centena de metros rio acima.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

776 - Caí Velho

O Salão Kayser (popular Kaysão) funciona há décadas, realizando bailes populares

Quem vai pela RS-122 do Caí a Bom Princípio, logo antes de chegar a esta cidade, passa por uma grande ponte sobre o rio Caí. Se reparar bem, verá que por baixo desta ponte, além do rio, passa uma estrada. É a velha estrada Rio Branco, que ia do Caí até a Feliz, quase sempre acompanhando a margem do rio.
Percorrendo a velha estrada, andando apenas algumas centenas de metros, no mesmo sentido em que corre o rio, chega-se a uma pequena localidade que é muito antiga. Ali existe um modesto salão de baile chamado Salão Kayser. Também conhecido popularmente como Kaysão. No rio, ali bem perto, existe o antigo passo Selbach, por onde carros, cavalos e pedestres atravessavam o rio antes da existência da ponte. Havia uma barca no local.
Esta localidade era conhecida antigamente como Caí e ela já existia, com algumas casas e ao menos um estabelecimento comercial, na década de 1850. Nesta mesma época, no local onde hoje existe a cidade de São Sebastião do Caí havia apenas fazendas esparsas, sem constituir uma povoação.
Com o tempo, na medida que formou-se a vila e depois a cidade de São Sebastião do Caí, ou Caí, a localidade mais antiga (aquela a que nos referimos, junto ao passo Selbach) passou a ser chamada de Caí Velho. Nome que ainda hoje é utilizado, embora alguns prefiram chamar o local de Bela Vista, como uma extensão da localidade deste nome que existe rio acima, na mesma margem (a esquerda) do rio Caí.

775 - As estradas municipais

Alceu Masson era funcionário da prefeitura municipal, quando escreveu o livro Caí, a respeito do município que, então, era assim denominado. O prefeito era Egydio Michaelsen. Um homem de grande visão que estimulou Masson a fazer o livro, que foi financiado pela administração municipal.
Foi, portanto, uma publicação oficial. E não é de esperar-se que nele fossem abordados aspectos críticos que pudessem desmerecer a administração. No capítulo das estradas, o autor fez questão de ressaltar que as estradas municipais estavam estavam em "excelente estado de conservação".
O que, talvez, tenha sido uma avaliação otimista.
As principais estradas foram assim descritas por Masson:

"Faria Lemos. Começa no km 42 da estrada Rio Branco. segue pela margem direita do rio Caí, e vai até a linha Sebastopol."
Esta localidade, hoje, pertence ao município de Caxias do Sul. A estrada, que liga Sebastopol a Vila Cristina, deverá ser asfaltada em 2010, pela prefeitura de Caxias.
"Estrada do Vale do Lobo. Começa na estrada do Rio Branco, junto ao arroio Escadinhas, transpõe o Morro Grande, e, passando pela linha Nova, vai até a linha Olinda, onde se liga à estrada Presidente Lucena."

"Estrada da Forqueta. Começa na estrada Rio Branco, junto ao arroio do Ouro, e segue até Nova Milano, no município de Farroupilha, onde se liga à estrada Júlio de Castilhos."
Esta estrada, no seu trecho inicial (que vai das localidades de Arroio do Ouro até Forqueta Baixa, ambas no município de Vale Real) hoje é asfaltada.
Esta estrada liga Escadinhas (que hoje é praticamente um bairro de Feliz) a Linha Nova e segue em direção a Nova Petrópolis. Passa, então pela antiga e pitoresca localidade de Linha Olinda.

"Estrada da Picada Cará. Partindo da ponte da Feliz, segue pela margem esquerda do rio Caí, e termina nas proximidades da divisa com o município de Taquara."
Em 1940, os municípios do Caí e de Taquara faziam divisa entre si. O que deixou de acontecer devido às inúmeras emancipações ocorridas na segunda metade do século XX. Uma parte desta estrada está sendo asfaltada na ligação de Feliz com Linha Nova.

"Estrada de São José do Hortêncio. Partindo de Vila Rica, arrabalde da cidade de Caí, vai ligar-se à estrada do Vale do Lobo no Morro Grande, passando por Chapadão, arroio Cairé (antigo Arroio Bonito) e S. José do Hortêncio."
"Estrada de Linha Nova. Sai da estrada S. José do Hortêncio, passa por Linha Nova Baixa, e vai terminar na povoação que lhe dá o nome."

"Estrada de Sant' Ana do Rio dos Sinos. Também é conhecida por estrada da Capela. Partindo da estrada Júlio de Castilhos, à margem esquerda do arroio Cadeia; atravessa a estrada Buarque de Macedo nas proximidades da estação Capela; passa pela sede do distrito de Capela, antiga Sant'Ana do Rio dos Sinos, que lhe deu o nome; transpõe o arroio Mineiro, e penetra no município de Canoas, terminando no passo do Rio dos Sinos."
Esta é a estrada mais antiga do Vale do Caí. Existe, por isto, a expressão "mais velha que a estrada da Capela". Por ela, antigamente, se chegava tanto a Montenegro (pela estrada do Paquete), como ao Caí.
Masson retrata a situação da estrada em 1940. Ela começava no ponto em que hoje se encontra a entrada do núcleo da UCS Vale do Caí. Seguia até as proximidades do campo de futebol do Altaneiro e dali seguia até o Passo da Taquara. Na seqüência, chegava ao Virador, local de terreno arenoso, onde carretas viravam com facilidade e o trânsito fez com que se formasse um pequeno cânion, com altos barrancos nas laterais da estrada. Seguindo em direção de Capela, hoje ela atravessa a RS-240 e, logo depois disto, desce por uma forte lomba, na qual a prefeitura do Caí fez um investimento importante para a época: uma pavimentação com pedra irregular. Isto deve ter acontecido no tempo dos primeiros automóveis, que tinham muita dificuldade em subir lombas, principalmente em terrenos arenosos, que levavam os carros a patinar. Logo em seguida, a estrada atravessa o arroio Mineiro. Mas isto não constou da descrição de Masson. Chegava, então à vila de Capela de Santana. Depois, passando novamente pelo arroio Mineiro, seguia por um caminho hoje menos conhecidos que, em 1940 (segundo Masson) pertenciam ao município de Canoas e que, depois, passaram à posse do municípo de Portão.
O passo do Rio dos Sinos deve ser o mesmo que hoje é mais conhecido como Passo do Carioca, no bairro do Carioca (da cidade de Sapucaia do Sul). Próximo ao Zoológico de Sapucaia. Por este passo deu-se a penetração dos primeiros colonizadores que transpuseram o rio do Sinos e foram se estabelecer em Capela de Santana (anteriormente conhecida como Sant'Ana do Rio dos Sinos e, mais antigamente ainda, como Ilha do Rio dos Sinos).
Antes da construção da estrada estadual Buarque de Macedo (atual RS-122), a estrada da Capela ia até o Caí. Ao invés de entroncar com a Buarque de Macedo, ela passava, então, pela lomba da Roseta. Outro local que ficou famoso pela dificuldade que os antigos automóveis encontravam nos aclives. Em seguida havia o armazém de Jacob Thomas Klein (prédio ainda hoje muito bem conservado). E, depois, o Passo do Cadeia, local onde se atravessava o arroio a vao (caminhando ou sobre uma montaria) ou numa balsa. Por fim, chegava-se ao Caí, pelo bairro Quilombo (atual rua Esperanto).

"Estrada do Paquete. Partindo da sede do distrito de Capela, passa pela Fazeda Paquete, e vai ligar-se à estrada Buarque de Macedo nas proximidades do passo do Manduca."
Na época em que Alceu Masson escrevia, não existia ainda a atual ponte da RS-240 e a única forma de cruzar o rio Caí para chegar de carro a Montenegro era usando a barca existente no Passo do Manduca (situado na cidade de Montenegro). Tanto a estrada estadual Buarque de Macedo como a estrada do Paquete (municipal) convergiam para o passo.
A estrada do Paquete começa, em Capela de Santana, nas proximidades do antigo e histórico cemitério católico da cidade.
Pode causar estranheza no leitor o fato de que a área situada do outro lado do rio, em frente à cidade de Montenegro, pertencia ao município do Caí (hoje pertence ao de Capela de Santana, que emancipou-se do Caí). Da mesma forma, as terras situadas no outro lado do rio, em frente à cidade do Caí, pertenciam a Montenegro (hoje pertencem ao ex-distrito montenegrino de Pareci Novo). Antigamente, os rios e arroios eram usados preferencialmente para marcar as divisas entre municípios.

Segundo a Wikipédia, paquete é a denominação dada aos antigos navios de luxo de grande velocidade, geralmente movidos a vapor. Na origem do nome está a designação inglesa de packet boat e que pode ser traduzida para português como navio dos pacotes. Estes navios faziam travessias regulares levando encomendas (pacotes) e correio. Posteriormente, alguns armadores realizaram contratos com a Coroa de Inglaterra para levar o correio, ganhando o direito de usar o prefixo RMS (Royal Mail Ship). O Titanic tinha este prefixo, por exemplo.

Introduzida em 1850, a linha de Paquetes a Vapor 'estabelecida por conta Régia de Sua Majestade Britânica', rompeu mais de três séculos de incerteza do tempo de travessia do Atlântico pelos navios à vela. O impacto dessa linha a marcou o imaginário popular."

Consta que o nome da fazenda Paquete se deve ao naufrágio de um navio no rio Caí, em frente a esta fazenda. Poderia ser o caso do vapor Horizonte, que naufragou naquelas imediações. Ou talvez um caso mais antigo que não identificamos.


"Estrada do Campestre. Sai da estrada Júlio de Castilhos nas proximidades do povoado de Conceição, e termina no arroio Feitoria."
É a estrada do Campestrão. O arroio Feitoria é um afluente do Cadeia que banha os municípios de Dois Irmãos, Ivoti e Lindolfo Collor.
"Estrada do Pareci. Partindo da estrada da Capela, perto do entroncamento desta com a Júlio de Castilhos, passa por Pareci Velho e pela Estação Pareci, na linha da viação férrea, e liga-se à Buarque de Macedo, no distrito de Capela."
Esta estrada começa nas imediações do campo de futebol do Altaneiro, na Barra do Cadeia, passando pela localidade de Pareci Velho e, logo depois, penetra no município de Capala de Santanan, na localidade hoje denominada Estação Pareci.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

774 - Tal e Kronental

Residência, moinho e marcenaria de Henrique Seibert 
pelo ano de 1940, no que é hoje a cidade de Vale Real 
(clique sobre a foto para ver melhor)
O sufixo tal, que fazia parte do nome de muitas localidades coloniais, segundo Alceu Masson, tem o seguinte significado.
Nas suas palavras:
"A palavra alemã tal, com que terminam muitas designações locativas municipais, significa vale. Antigamente escrevia-se thal. Hoje, porém, de acordo com a ortografia alemã, omite-se o h."
Um exemplo é o nome Kronental, pelo qual era conhecida antigamente, a atual cidade de Vale Real. A tradução do nome antigo é Vale da Coroa. Este nome foi dado porque a localidade é cercada por morros pontiagudos que se assemelham aos dentes de uma coroa. Com um pouco de imaginação, quem se encontra neste local e observa as montanhas que o cercam, tem a sensação de estar dentro de uma gigantesca coroa.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

773 - Estradas Presidente Lucena e Buarque de Macedo

Além da estrada Júlio de Castilhos, que na época começava a ser asfaltada, outras três estradas estaduais cortavam o município do Caí na época em que foi escrita a monografia de Alceu Masson (1940): a Estrada Rio Branco, a Presidente Lucena e a Buarque de Macedo.
A Estrada Presidente Lucena ainda hoje tem este nome. Ela liga, atualmente, as cidades de Ivoti e Picada Café, passando por Presidente Lucena.
Em 1940, Alceu Masson assim a descreveu:
"Partindo de São Leopoldo, penetra no município de Caí pela Linha Olinda, segue até Nova Petrópolis, atravessando a Linha Imperial e vai até a Linha Brasil. No trecho compreendido entre os arroios Veado e Serraria, forma a linha divisória que separa de Caí o município de São Leopoldo."
A atual cidade de Presidente Lucena foi conhecida, até a sua emancipação, como Arroio Veado. Picada Café pertenceu ao município do Caí, o que só deixou de acontecer quando da emancipação de Nova Petrópolis, em 1954. As localidades de Linha Araripe, Linha Brasil e Linha Imperial (assim como Picada Café) foram integradas ao novo município.
A Estrada Buarque de Macedo foi construída na década de 1870 e ligava Montenegro a região serrana. Sua construção fez parte do projeto estratégico de atração de imigrantes para colonizar aquela região. O barão Luis Henrique de Holleben comandou a sua construção. Como se vê pela descrição de Alceu Masson, o mesmo nome era dado à estrada que ligava Montenegro à localidade de Rincão do Cascalho, no município de Portão. Ela correspondia, aproximadamente, ao traçado da atual RS-240 (rodovia Maurício Cardoso). Como, naquela época, não havia a ponte sobre o rio Caí, a estrada conduzia ao Passo do Manduca, local onde se podia passar o rio numa barca.
Alceu Masson descreve o trecho da estrada que pertencia ao município do Caí:
"Partindo da (estrada) Júlio de Castilhos, no distrito de Portão, passa por Garcez, corta a linha de viação férrea perto da estação Capela, e, seguindo por Boqueirão, atravessa o passo do Manduca e o município de Montenegro, e termina no município de Taquari."
Por esta descrição, nota-se que, em 1940, o nome Buarque de Macedo era dado à estrada que, adiante de Montenegro, seguia para Taquari e Lajeado. E não mais para a que seguia para a Serra, passando por Salvador do Sul e Barão.

772 - Estrada Rio Branco

O Museu Zanini, na localidade de Terceira Légua (no interior de Caxias do Sul), guarda lembranças dos primeiros colonos italianos, que lá se estabeleceram antes de chegar a Caxias



Saiba mais sobre o projeto Rota Estrada Rio Branco 
no blog Estrada Rio Branco:
                                                                    http://estradariobranco.blogspot.com/


A estrada Rio Branco "parte da sede do município e segue em direção ao norte, acompanhando o rio Caí pela margem esquerda. No lugar denominado Escadinhas interrompe-se e só recomeça no Kaudenbach (hoje, Arroio Feliz), pois nesse trecho, que primitivamente lhe pertencia, passa atualmente a estrada Júlio de Castilhos", relatava Alceu Masson, em 1940.
A estrada Rio Branco, portanto, deve corresponder à atual estrada da Várzea da Vila Rica, que começa no bairro caiense da Vila Rica. A estrada seguia pela margem do rio Caí, passando pelo bairro caiense que ainda hoje é conhecido como Rio Branco e seguindo pelas localidades de Caí Velho e Bela Vista, hoje pertencentes ao município de Bom Princípio. Passava depois pela localidade de Escadinhas, já no município de Feliz. Este trecho, entretanto, no ano de 1940, havia sido incorporado à estrada Júlio de Castilhos, mais moderna e feita em terreno livre de alagamentos pelas enchentes do rio Caí.
Passando Escadinhas, a estrada chegava a Kaudenbach que corresponde à atual localidade de Arroio Feliz. "De Kaudenbach, continua a Rio Branco pela margem direita do (rio) Caí, atravessa a povoação de Vila Real (antiga Kronetal), segue até Nova Palmira, e dali ruma para o município de Vacaria, passando por Galópolis, Caxias, Ana Rech, Estrada da Serra e Criúva."
O que Masson chama de Vila Real é hoje a cidade de Vale Real. As localidades de Nova Palmira e Galópolis ainda preservam suas denominações originais. Pelo fato da estrada se destinar a Vacaria, pode se deduzir que ela vem a ser o antigo caminho dos tropeiros de gado.
De Feliz até Vila Cristina, a Estrada Rio Branco se avizinhava do rio Caí, seguindo o seu traçado. De Vila Cristina até Caxias do Sul, ela acompanhava o trajeto do arroio Pinhal, que nasce no local onde hoje se encontra a cidade de Caxias do Sul.
O Vale do Caí era coberto por densas matas, praticamente intransponíveis. As margens dos rios foram os primeiros terrenos desmatados, pois já na primeira metade do século XIX era intensa a exploração de madeira própria para construção, que era levada para Porto Alegre através do rio Caí. Boiando. A madeira derrubada era arrastada até o rio por juntas de bois, abrindo-se caminhos para isto. E, neste processo, a mata nas áreas próximas do rio iam se tornando menos densas. Também era junto ao rio que os primeiros moradores se estabeleciam, pois o rio era a estrada daquele tempo. Tudo isto fazia com que as primeiras estradas que surgiram na região fossem abertas junto ao rio, como foi o caso da Estrada Rio Branco. Mas estradas assim apresentavam o grave defeito de sofrerem interrupções de trânsito por ocasião das enchentes. Por isto, mais tarde, foi construída a estrada Júlio de Castilhos, evitando os trechos da Rio Branco que passavam por terrenos inundáveis.
A estrada Júlio de Castilhos (mais moderna, como escreveu Alceu Masson) representou um novo caminho para a ligação entre o Vale do Caí e Caxias. Do antigo Kaudenbach (hoje, Arroio Feliz) ela subia a serra, passando pela localidade de Alto Feliz (hoje sede municipal) e chegando à cidade de Farroupilha. Caminho esse, que não estava ainda aberto na época em que chegaram os primeiros colonos italianos (pelo ano de 1875).

sábado, 19 de dezembro de 2009

771 - A estrada Júlio de Castilhos

A estrada Júlio de Castilhos é mais moderna que a estrada Rio Branco, trilhando apenas terrenos altos e livres das enchentes. No trecho que vai da localidade de Escadinhas até Arroio Feliz, a Júlio de Castilhos aproveitou o traçado da Rio Branco, até o ponto mostrado acima





No relatório que faz das rodovias exitentes no município do Caí, em 1940, Alceu Masson destaca a rodovia federal (hoje denominada BR-116 que, construída para ligar Porto Alegre à capital federal (então o Rio de Janeiro). Passando por São Leopoldo e Novo Hamburgo, esta estrada passava por território caiense nos então distritos caienses de Nova Petrópolis e Nova Palmira. As obras no trecho Porto Alegre - Vacaria, foram inciadas em 1938. O trecho da estrada que passava pelo município começava na ponte sobre o arroio Cadeia, em Picada Café, subia a serra até Nova Petrópolis, depois descia novamente, chegando ao vale em que se encontra a localidade de Nova Palmira e depois subia novamente, em direção a Galópolis (localidade já situada no município de Caxias do Sul.
Além disto, importantes estradas estaduais também passavam pelo território caiense:
Estrada Júlio de Castilhos, que partia de São Leopoldo, passava por Portão, Caí num traçado que corresponde ao da atual RS-122, depois seguia em direção a Feliz, passando por Vigia e Esdadinhas e depois, por Alto Feliz (então conhecida como Santo Inácio ou Alto da Feliz), chegava a Farroupilha e seguia até a região norte do estado, terminando em Marcelino Ramos, na divisa com Santa Catarina. Era considerada a principal estrada estadual da época e, segundo Masson, ela "tem contribuído grandemente para o progresso de Caí."
As condições de trânsito na estrada, entretanto, não eram muito boas, mas já apresentavam vantagens com relação à navegação.
"As linhas de ônibus, proporcionando viagens mais rápidas, fizeram grande concorrência às companhias de navegação. Como diminuísse consideravelmente o número de passageiros que viajavam por água, a União Fluvial substituiu os seus vapores por gasolinas, pois, dedicando-se mais especialmente ao transporte de carga, já não tinha necessidade de embarcações com acomodações amplas para passageiros."
"Dentro em breve, a Júlio de Castilhos será macadamizada e asfaltada. Tornar-se-á então a melhor estrada do Rio Grande do Sul. Já está em franco andamento o movimento de terra num grande trechodo distrito de Portão, trabalho preparatório para a macadamização; e um trecho de 14 kms. , da Feliz até o km 6 da estrada Rio Branco, já se acha macadamizado."
Conforme informa ainda Alceu Masson, "anos atrás, a estrada Júlio de Castilhos começava em Kaudenbach (bairro Matiel, na cidade de Feliz), no km.14 da estrada Rio Branco."
Portanto, a distância entre Feliz e Caí, pela estrada Rio Branco, era de 14 quilômetros. Menos do que a atual ligação asfáltica passando por Bom Princípio.
E informa mais: Da Feliz, "continuava, como hoje, pelo Alto da Feliz."
É de lembrar que, antigamente, a ligação entre Feliz e Alto Feliz era feita através da estrada do Morro das Batatas e não, como hoje, passando pela localidade de Arroio Feliz. A qual das duas opções se referia Masson, em 1940?
Comenta ainda Masson, na monografia: "Estando a estrada Rio Branco mal localizada, pois é facilmente atingida pelas enchentes do rio Caí, o que a torna um verdadeiro sorvedouro de verbas para conservação, o governo do estado prolongou a Júlio de Castilhos até a sede do município. fazendo-a passar por zona mais apropriada, e ligando-a à estrada de São Leopoldo."

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

770 - Navegação no ano de 1940


No seu livro, Alceu Masson descreve a navegação pelo rio Caí.
"Viação fluvial - Graças à barrragem Rio Branco, construída pelo engenheiro dr. José da Costa Gama a alguns quilômetros da sede do município, e hoje pertencente ao governo do estado, o rio Caí é francamente navegável em qualquer estação, desde o porto da cidade de Caí até desaguar no Jacuí, em frente de Porto Alegre.
São duas as companhias de navegação existentes no município: União Fluvial do Caí Ltda e Navegação Sedutora. Pertencem à primeira as gasolinas "Ipiranga" e "São José" e à segunda e à segunda o vapor "Janota". Além disto, ambas possuem lanchas e chatas rebocáveis de grande calado. Manteem as duas companhias serviço de transporte diário, tanto para passageiros como para carga.
Navegam ainda, regularmente, no Caí, a gasolina Humaitá, que conduz passageiros da sede do município para Pareci e Montenegro, e vice-versa; e uma gasolina-frigorífico, que transporta a carga da fábrica de conservas de Carlos H. Oderich & Cia, incorporada à Frigoríficos Nacionais Sul Brasileiros Ltda.
A princípio as companhias caienses de navegação não possuíam gasolinas, mas sim vapores, entre os quais citaremos, a título de curiosidade, os seguintes: Rio Branco, Maratá, Horizonte, Otto, Caxias e Salvador. Os três últimos pertencentes à União Fluvial do Caí Ltda, ainda há pouco tempo navegavam no rio Caí.

769 - Estrada de ferro

A estação da estrada de ferro em Capela de Santana era muito utilizada pelos caienses nas décadas de 1910 a 1930, quando as estradas ainda eram precárias

Alceu Masson, na monografia, destaca que o Caí era "servido por tríplice sistema de viação: férrea, fluvial e terrestre."
Sobre a ferrovia, escreveu que:
"A estrada de ferro Porto Alegre - Uruguaiana atravessa, ao sul do município, os distritos de Portão e Capela, na extensão compreendida entre o arroio Portão e o rio Caí.
Existem no município as seguintes estações:
Portão. Situado no km. 48 de Porto Alegre e 341 de Santa Maria. A estação fica na sede do distrito de Portão.
Capela. No km 57 de Porto Alegre e 332 de Santa Maria. A estação dista 3 quilômetros da sede do distrito de Capela, e 13 quilômetros da cidade de Caí. Há uma linha de ônibus da estação Capela à sede do município e vice-versa, para o transporte de passageiros e malas postais.
Pareci. No km. 67 de Porto Alegre e 322 de Santa Maria. Dista 8 quilômetros da cidade de Caí."

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

768 - Doutor Maurício Cardoso


Joaquim Maurício Cardoso foi figura de grande destaque na política nacional na década de 1930, depois de haver participado da revolução de 1930, que conduziu Getúlio Vargas à presidencia do Brasil.
Sua memória ficou marcada na região do Vale do Caí porque o seu nome foi dado à rodovia que liga Rincão do Cascalho (no município de Portão) a Montenegro e dali prossegue até o seu entroncamento com a rodovia Tabaí-Canoas. Em 1940, existia em Montenegro a usina Maurício Cardoso, geradora de energia elétrica para a cidade e arredores, com linha estendida até São Sebastião do Caí. No Caí a energia desta usina garantia a iluminação pública nas ruas da cidade.
Também conhecido como Doutor Maurício Cardoso, ele é especialmente lembrado em virtude da forma trágica como morreu, em acidente aéreo ocorrido no litoral, em 1938, quando ele retornava do Rio de Janeiro para o Rio Grande do Sul. Tinha, então, 50 anos.

Nascido em Soledade, no ano de 1888, foi também advogado e professor universitário.

Foi deputado estadual e federal pelo PRR . Foi ministro da Justiça durante o governo provisório de Vargas, tendo assumido em dezembro de 1931.

Destacou-se por medidas legais que representaram grande avanço para a democracia. Aboliu a censura à imprensa e elaborou um novo código eleitoral, que vigorou a partir de 1933 e foi o primeiro no Brasil a permitir que mulheres pudessem votar e ser eleitas, introduziu o voto secreto e foi o único com a figura do deputado classista, eleito pelo sindicatos.

Depois que Vargas tomou medidas ditatoriais, inclusive ao permitir o empastelamento de um jornal, Maurício Cardoso rompeu com o presidente, assim como alguns outros politicos gaúchos de estaque. Mas reconciliou-se com Vargas pouco depois.


Durante o Estado Novo foi secretário do Interior do governo do interventor Manuel de Cerqueira Daltro Filho, no Rio Grande do Sul, e ocupou interinamente o cargo de governador em 1938, após a morte do titular, em 19 de janeiro de 1938. Governou até a posse de Osvaldo Cordeiro de Farias, em 4 de março de 1938. Depois disto foi ainda secretário estadual da agricultura.


767 - Chico da funerária

É rara a pessoa que, no Caí, não conhece Sebastião dos Reis. Se não pelo seu nome correto, pelo apelido: Chico da Funerária.
Ao longo de 27 anos ele trabalhou em serviços funerários. Sebastião, nasceu no bairro Conceição e, antes de trabalhar com serviços funerários, foi motorista da padaria de Walter Füller, no Caí.
Foi também como motorista que Sebastião começou a trabalhar na antiga Funerária Selbach, que era a única da cidade e uma das poucas da região.
Mas, numa ocasião em que o responsável pelo serviço funerário precisou faltar, Sebastião o substituiu. E saiu-se tão bem que ficou com o serviço.
Naquela época, ele fazia sepultamentos também em Capela de Santana, Hortêncio e outras localidades vizinhas que, naquela época, ainda não tinham funerárias.
Num cálculo aproximado, estima-se que ele tenha realizado mais de 2.500 sepultamentos ao longo da sua carreira. Sempre muito comunicativo, prestativo e espontâneo, ele conquistava logo a simpatia e confiança das pessoas. O que era muito importante, principalmente para aqueles que passavam pelo momento triste e delicado da morte de um familiar.
Por isto, na mente de milhares de caienses, a imagem positiva da pessoa amiga, que lhes serviu num momento difícil, está associada à pessoa do Chico da Funerária.
Sua lembrança, agora, se transforma em saudade, pois Sebastião morreu na última quarta-feira, 9 de dezembro de 2009, aos 58 anos.
Ele vinha lutando pela vida já há bastante tempo, desde que foi vítima de um grave câncer nos intestinos. Foi submetido a uma cirurgia e chegou a ter uma boa recuperação. Mas depois o câncer o atacou também no pulmão, levando a uma debilidade muito grande. No último mês de vida,

domingo, 13 de dezembro de 2009

766 - Pontes sobre o rio Caí

Foto: Gabriel Assmann
A ponte de ferro, na cidade de Feliz, foi construída em 1900 (clique sobre a foto)

Em 1940, conforme relata Alceu Masson, haviam apenas duas pontes sobre o rio Caí, sendo uma delas ferroviária: a ponte metálica na sede do, então, distrito de Feliz e a ponte metálica ligando o então distrito de Capela com Montenegro, pela qual passava a linha da Viação Férrea do Rio Grande do Sul.
Além destas, a única outra ponte no município de Caí era a existente sobre o arroio Cadeia, a dois quilômetros da sede municipal. Uma ponte "com piso de cimento armado e superestrutura metálica" que ainda existe hoje, na localidade de Costa do Cadeia.
Ainda segundo Alceu Masson, existiu, antes, a ponte Doutor Maurício Cardoso, derrubada por uma enchente em 1932. Esta ponte havia sido construída recentemente, sobre o Arroio do Ouro. Situada próxima à localidade de Arroio do Ouro, atualmente pertencente ao município de Vale Real.
Segundo Alceu Masson, "a ponte foi inaugurada solenemente no dia 14 de outubro de 1931, recebendo a denominação de Ponte Doutor Maurício Cardoso, em homenagem do município ao grande riograndense dr. Joaquim Maurício Cardoso, cujos merecimentos como procer da revolução de outubro de 1931 e como patriota justificam a inequívoca prova de admiração.
Tinha a ponte 35 metros de vão livre, 60 metros de comprimento, 3 m.50 de largura e 5 metros de altura.
Em 1932, uma enchente de proporções excepcionais fez ruir a ponte, que abateu a parte central."


765 - Afluentes, passos e ilhas do rio Caí


O arroio Cadeia é o maior afluente do rio Caí

Como se sabe hoje, o arroio Três Mares foi originalmente conhecido por arroio Três Marcos. Mas já em 1940, Alceu Masson denominava este curso d'água pelo nome corrompido de Três Mares.
Referindo-se ao arroio Cadeia, Alceu Masson descreve de forma muito atraente uma cascata que existe próximo às suas nascentes:
"Pouco acima do lote nº 8 da linha Herval, (o Cadeia) forma um dos mais elevados saltos do Brasil. As águas que ali passam apertadas entre duas montanhas, precipitam-se num despenhadeiro de mais de cem metros de altura, formando a Cascata 48, uma das mais belas do estado."
"São os seguintes os passos de barca existentes no rio Caí, e que dão passagem direta para o município: Manduca, defronte da cidade de Montenegro; Pareci, defronte de Pareci Novo, localidade de Montenegro; Matiel, para a povoação deste nome, no município de Montenegro, em frente à sede do município de Caí; Selbach, em Escadinhas."
Aqui, salvo melhor juízo, houve equívoco do notável escritor. O nome da localidade em que se situava o Passo Selbach era Caí Velho.
Masson não se refere ao Passo do Contrato, também conhecido como Passo do Caí, situado hoje entre Capela de Santana (ou Nova Santa Rita) e Montenegro. Antigamente se passava por ele para ir, por terra, à cidade de Triunfo (uma das mais antigas do estado). Júlio Casado, no seu livro intitulado Sapucaia do Sul, esclarece que este passo, no século XX, passou a ser conhecido como Passo do Caí.
No mesmo caminho, havia o Passo do Rio dos Sinos. Que, pelo que se depreende do livro de Júlio Casado, vem a ser o mesmo Passo do Carioca. Neste passo começava a estrada da Capela, pela qual se ia ao Caí ou a Montenegro, passando por Capela de Santana.
"Possui o rio Caí a ilha de Escadinhas, a 15 quilômetros para o norte da sede. Tem a ilha 368 metros de comprimento e 120 de largura máxima. É cultivada no interior, onde se encontram lavouras de milho e alfafa.
Existem no Caí outras ilhas menores.
O rio dos Sinos passa na divisa do município, separando do município de São Leopoldo uma pequena extensão do distrito de Portão."

764 - Mudanças climáticas já eram sentidas

Alceu Masson, na sua monografia, revelava notável domínio de todos os campos do conhecimento. Sobre o clima no município ele escreveu, em 1940:
"De alguns anos a esta parte, o clima no município sofreu notável alteração. O inverno já não é tão rigoroso. Em outros tempos, durante essa estação, era comum aparecerem cobertos por uma espessa camada de geada os campos da região mais baixa do município. Em 1939 isto só aconteceu duas vezes. E não são poucos, no inverno, os dias que parecem de primavera e mesmo de verão. No verão, ao contrário, são muitos os dias frios."
Parece que Masson, há 60 anos, tinha a mesma impressão que temos hoje. Ou seja, a de que, antigamente, os dias de inverno eram todos frios, e os de verão todos quentes. Uma impressão que, hoje, nos faz pensar no aquecimento global. É possível que, hoje como naquela época, a nossa percepção é distorcida por um lapso de memória. Como se vê, o tempo real nunca obedeceu plenamente aos ditames do calendário. No inverno, sempre aconteceram dias relativamente quentes, que nos causam estranheza; assim como dias frios no verão, que nos obrigam a usar roupa um pouco mais grossa. Com o tempo, iludidos pela teoria das quatro estações, esquecemos esta irregularidade climática, lembrando apenas dos frios e calores extremos, que ficam melhor registrados na memória.

763 - Divisas caienses em 1940

Nova Petrópolis emancipou-se do Caí em 1955 (clique na foto)

Escrita em 1940, a monografia Caí, de Alceu Masson, procurava abordar todo tipo de informação relevante sobre o município. Faz, inclusive, uma descrição detalhada da geografia municipal. Informações que hoje, em grande parte, perdeu a atualidade como geografia, mas ganhou interesse como história.
Descrevendo as divisas do município, Masson afirma que o Caí "confina, ao norte, com os municípiosde Farroupilha, Caxias e São Francisco de Paula; ao leste com os municípios de São Leopoldo, Taquara e São Francisco de Paula; ao sul, com o município de Canoas; a oeste, com o município de Montenegro."
Quanta diferença!
Hoje as divisas caienses são, ao norte, com os municípios de Bom Princípio e Feliz; a leste com São José do Hortêncio e Lindolfo Collor; ao sul, com o Portão e Capela de Santana; a oeste com Pareci Novo e Harmonia.
Como se observa todas as divisas mudaram. O que se deveu às emancipações ocorridas nas últimas décadas. Nova Petrópolis, tornou-se município em 1955; Feliz, emancipou-se em 1959; Portão, em 1963; Bom Princípio, em 1982; Capela de Santana, em 1988; São José do Hortêncio, em 1988; Harmonia, 1988; Pareci Novo, em 1992.

762 - Caí


O rio Caí é de uma beleza incomum e a vegetação nas suas margens ainda está bastante preservada
Segundo Alceu Masson, na monografia:
"Caí, nome do rio que banha o município, é palavra de origem indígena, provindo do tupi-guaraní. Seus elementos etimológicos, na língua de origem, são caá-y. O primeiro caá, significa mato; o segundo, y (ou ig, como querem alguns estudiosos do assunto) significa água. O sentido de caá-y é, pois, água do mato. Ou seja, rio do mato. (V. "Novo Dicionário Nacional"), do padre Carlos Teschauer, sj).
Até o dia 1º de janeiro de 1939 - data em que pela primeira vez se comemorou, no país, o Dia do Município, a denominação São Sebastião do Caí vinha sendo geral e oficialmente usada. Por resolução do Conselho Regional de Geografia, que teve também o intuito de evitar confusões, daquela data em diante o nome da sede do município, extensivo à comuna, foi reduzido para Caí."

761 - Guarda Nacional

Conforme consta na Wikipédia, a Guarda Nacional foi uma força paramilitar organizada por lei no Brasildurante o período regencial, em agosto de 1831, para servir de "sentinela da constituição jurada", e desmobilizada em setembro de 1922. Os membros da Guarda eram recrutados entre os cidadãos com renda anual superior a 200 mil réis nas grandes cidades, e 100 mil réis nas demais regiões. Era vista por seus idealizadores como o instrumento apto para a garantia da segurança e da ordem, vale dizer, para a manutenção do espaço da liberdade entre os limites da tirania e da anarquia. Tinha como finalidade defender a Constituição, a liberdade, a independência e a integridade do Império, mantendo a obediência às leis, conservando a ordem e a tranqüilidade pública. A Guarda Nacional tinha forte base municipal e altíssimo grau de politização. A sua organização se baseava nas elites políticas locais, pois eram elas que formavam ou dirigiam o Corpo de Guardas.
Importantes personalidades da história do Vale do Caí lideravam a Guarda Nacional, recebendo a patente de Coronel ou Tenente Coronel da Guarda Nacional.
Entre os mais destacados estão Cristiano Selbach, de Bom Princípio, que foi Major da Guarda Nacional; Lourenço de Alencastro Guimarães, tenente coronel da Guarda Nacional; Jacó Nicolau Ely, primeiro intendente de Garibaldi, natural de São Sebastião do Caí, que foi Coronel da Guarda Nacional; Jacob Selbach Júnior e Aurélio Porto, prefeito de Montenegro e historiador natural de Cachoeira do Sul.

760 - A construção da igreja

A torre da igreja matriz foi construída em 1883

A monografia de Alceu Masson conta sobre a construção da igreja matriz de São Sebastião do Caí.
"Resolvido o caso (da escolha do santo padroeiro) procedeu-se ao lançamento da pedra fundamental da igreja, e dom Sebastião Laranjeira doou à matriz uma imagem de São Sebastião, esculpida em madeira, de um metros e 60 centímetros de altura.
Foram precisos vários anos para a construção da matriz, pois, tendo faltado dinheiro, as obras foram interrompidas durante muito tempo. Nessa época, a igreja em construção abrigou imigrantes poloneses que por aqui passaram. Até uma eleição foi realizada em seu recinto. Só depois que a paróquia recebeu do governo provincial uma boa contribuição em dinheiro, poude a obra ser terminada.
Por iniciativa do reverendíssimo padre Carlos Teschauer, nomeado vigário de São Sebastião do Caí em 11 de dezembro de 1883, construiu-se a torre da matriz. A planta, de autoria do engenheiro doutor José da Costa Gama, foi aprovada pela câmara municipal em sessão de 8 de maio de 1881.
Atualmente (em 1940) a imagem (de São Sebastião) conserva-se guardada, sendo conservada para as procissões, pois em 1931, foi retirada do altar-mor e substituída por outra, um pouco maior, adquirida pelo senhor Irineu Goubert e sua excelentíssima esposa, quando festeiros nas comemorações solenes com que se homenageia, a 20 de janeiro, o ínclito padroeiro do município."

759 - Glosário de termos e expressões usados neste blog

O burro cargueiro era o principal meio para o transporte de cargas na colônia

Alvitre - escolha.
Barra - Local onde um rio desmboca no mar ou um afluente desemboca no rio. Exemplo: Barra do Cadeia é o local onde o arroio Cadeia desagua no rio Caí.
Cargueiro - Animal (burro ou mula) que é usado para levar carga (e não como montaria). Uma mula carrega 120 quilos.
Guarda Nacional - A Guarda Nacional foi uma força paramilitar organizada por lei no Brasil durante o período regencial, em agosto de 1831, para servir de "sentinela da constituição jurada", e desmobilizada em setembro de 1922 (fonte: Wikipédia).
Ínclito - ilustre.

Orago - sinônimo de padroeiro - santo ou anjo que dá nome a uma localidade ou templo.
Passo - local desprovido de ponte mas que, mesmo assim é adequado para a travessia de um rio ou arroio. Quando o rio não está cheio é possível passar montado a cavalo, com tropas de gado ou em barcas.
Porto do Mateus - primeiro nome dado ao local onde se ergue, hoje, a cidade de São Sebastião do Caí.
Porto Guimarães - nome que tinha a localidade que veio depois a chamar-se São Sebastião do Caí.
Sesmaria - área de terras concedida pelo governo a uma pessoa que se disponha a nela produzir.
Sesmeiro - Dono de uma sesmaria, ou seja, uma área de terras que era doada pelo governo em regiões ainda desabitadas, como era grande parte do Vale do Caí até o início do século XIX. A concessão era dada com uma exigência, o sesmeiro precisava ocupar a área e torná-la produtiva. Este foi o meio que o governo português utilizou para incentivar imigrantes (vindos de Portugal ou de outras regiões do Brasil) a ocupar territórios e consolidar o domínio português sobre eles.pessoa à qual uma sesmaria é concedida, também denominada como donatário.
S. J. - A Companhia de Jesus ( em latin Societas Iesu, S. J.), cujos membros são conhecidos como jesuítas, é uma ordem religiosa fundada em 1534 por um grupo de estudantes da Universidade de Paris liderados pelo basco Iñigo López de Loyola, conhecido posteriormente com o Inácio de Loyola. Célebre pelo seu trabalho missionário e educacional. (Wikipédia).
Taumaturgo - pessoa com a capacidade de realizar milagres.
Colorado - pessoa de cor, ou seja, negra.

758 - Origem do nome São Sebastião do Caí

O nome do bispo serviu para batizar a cidade

Alceu Masson, na sua monografia Caí, explica da seguinte forma a origem do nome São Sebastião do Caí. Assunto que foi mais aprofundado, posteriormente, pelo Monsenhor Ruben Neiss e pelo padre Artur Rabuske.
"Entre os primeiros habitantes do lugar onde hoje se acha a sede do município de Caí, contava-se Antônio José da Silva Guimarães, tronco da tradicional família ramificada em todo o Brasil. Por volta do ano de 1850, Antônio Guimarães adquiriu grande porção de terras no local, tornando-se um dos maiores proprietários da região. Nessas terras, situadas à margem esquerda do rio Caí, havia um embarcadouro que os moradores do lugar chamavam "Porto do Mateus" por ser este o nome do primeiro proprietário, e que passaram a denominar "Porto do Guimarães" depois que as referidas terras foram vendidas a Antônio Guimarães. E assim, por consenso unânime e espontaneamente, deram-se os primeiros nomes à localidade que mais tarde viria a ser a sede do município.
Com o decorrer dos anos, Antônio Guimarães abriu no lugar uma casa de negócio. Posteriormente, um irmão seu, de nome Quirino, também se estabeleceu com casa de negócio na localidade.
Por esse tempo foi transferida para o Porto do Guimarães, já bastante desenvolvido, a sede da freguesia de São José do Hortêncio. Cogitou-se, por isto, de construir na nova sede paroquial a matriz da freguesia. Antônio Guimarães doou à paróquia, para esse fim, alguns terrenos no melhor ponto da localidade, e uma praça que depois se tornou propriedade do município. Queria o doador que se escolhesse a Santo Antônio para padroeiro da igreja. É intuitiva a razão de sua exigência. Chamando-se ele Antônio, tinha naturalmente, particular devoção ao popularíssimo taumaturgo português qua até aos peixes pregava, e a quem certo escritor chamou acertadamente: "O Santo de Todos".
Entretanto, Quintino Guimarães, que também gozava de algum prestígio no lugar, entendia que deviam escolher a São Bernardo para orago da igreja, em homenagem a Bernardo Mateus, sesmeiro da localidade.

757 - Solução sebastiânica

A interferência do bispo Dom Sebastião Laranjeiras foi necessária para decidir qual seria o santo padroeiro da igreja da localidade de Porto do Guimarães, conforme narra Alceu Masson:

"O assunto foi submetido ao julgamento do insigne e venerando bispo Dom Sebastião Laranjeira, e este prometeu uma visita no Porto do Guimarães, para resolver "in loco" a questão.
Pouco tempo depois, sua excelência reverendíssima fez a visita prometida.
Para não desgostar nem os partidários de Santo Antônio nem os de São Bernardo, o distinto prelado, valendo-se do recurso conciliatório de um tereiro alvitre, decidiu que fosse São Sebastião o patrono da igreja. Concordaram todos com a inteligente resolução. Em primeiro lugar, ela não dava ganho de causa nem a uns nem a outros; em segundo lugar, tendo o senhor bispo o mesmo nome do padroeiro escolhido, seria falta de delicadeza mostrar-se descontente com a escolha.
Dom Sebastião Laranjeira - diga-se de passagem - mostrou nessa ocasião, que se não tivesse preferido o sacerdócio, bem poderia ter optado pela carreira diplomática, na qual certamente alcançaria não poucos triunfos.

756 - Família Guimarães

Tenente Coronel Antônio de Alencastro Guimarães

Na monografia Cai, Alceu Masson publicou dados que obteve de J. A. Edmundo Diehl ("notário desta cidade") sobre a família Guimarães:
"Antônio Guimarães, proprietário de grande extensão de terras no Porto do Guimarães, deixou quatro filhos: Inácio de Alencastro Guimarães, que faleceu no Rio de Janeiro, como marechal reformado; Lourenço de Alencastro Guimarães, tenente coronel da Guarda Nacional, que exerceu neste município o cargo de juiz de paz e 1º suplente de juiz municipal; Pedro de Alencastro Guimarães, que exerceu o cargo de vereador da Câmara Municipal e Antônio de Alencastro Guimarães.
Filhos de Inácio de Alencastro Guimarães: Sebastião, coronel médico reformado; Inácio, coronel reformado; Manoelito, farmacêutico; Antônio de Alencastro Guimarães, tenente coronel, comandante do 7º Regimento de Cavalaria Independente.
Filhos de Lourenço de Alencastro Guimarães: Inácio, Carlos e Antônio de Alencastro Guimarães.
Filhos de Pedro de Alencastro Guimarães: Pedro; Adolfo, secretário da embaixada brasileira na Argentina e major Napoleão de Alencastro Guimarães, diretor geral do Ministério da Viação e Obras públicas."
As informações correspondem ao ano de 1940, quando foi escrita a monografia. Napoleão de Alencastro Guimarães veio a ser senador e desempenhou papel importante na história brasileira. Era muito ligado ao presidente Getúlio Vargas. Chama a atenção o fato de que o irmão de Napoleão ocupava função relevante na embaixada da Argentina. Em 1946, Juan Domingo Perón tornaria-se presidente/ditador argentino. Precisa ser melhor estudada a relação que os irmãos Napoleão e Adolfo Guimarães (e, ainda, o seu conterrâneo Egydio Michaelsen) tiveram na relação entre Getúlio Vargas e Juan Peron.
O historiador Paulo Daniel Spolier é conhecedor da matéria e o convidamos a se manifestar sobre a questão.

sábado, 12 de dezembro de 2009

755 - Henrique Roehe

Embora ainda muito jovem, Felipe Kuhn Braun já demonstra extraordinário conhecimento sobre a história da colonização alemã no Rio Grande do Sul. No seu blog e em artigos de jornal (especialmente o NH), ele vem divulgando suas pesquisas e trazendo ao conhecimento público informações inéditas e importantes. O seu trabalho nos permite conhecer, e compreender, melhor como transcorreu a história dos alemães que imigraram para o Rio Grande do Sul.

"No ano de 1864 nascia no município de Dois Irmãos uma pessoa que viria a se tornar uma figura histórica para o município de Bom Princípio: Henrique Roehe, um nome até hoje pouco conhecido pelos bom principienses.

A história da família de Henrique, os Roehe, começa com a chegada de seu pai Heinrich Harry ao Brasil no ano de 1851. A história dos Roehe brasileiros está ligada ao desenvolvimento cultural e econômico do Estado. O imigrante Heinrich Harry Roehe era natural de Rendsburg, no norte da Alemanha. Seu pai foi pastor protestante e pode proporcionar aos filhos bons estudos.

O imigrante veio para o Brasil com os Brummer, grupo de 1.800 soldados contratados pelo imperador para integrarem ao exército brasileiro e lutarem em uma guerra que nosso país tinha com a Argentina. Roehe também foi Brummer, mas ao chegar ao Brasil, largou o exército e se instalou em Porto Alegre. Anos depois fixou residência em Dois Irmãos. Como Roehe tinha formação superior, foi professor no município. Roehe também foi músico, violinista e diretor da sociedade de canto de Dois Irmãos. O imigrante se orgulhava de suas origens e de sua formação, também de ter sido militar, tanto que guardava sua farda com muito cuidado. Foi Heinrich Harry Roehe que preparou os discursos festivos em Dois Irmãos em homenagem a unificação da Alemanha no ano de 1871."

754 - Primeiro escrivão de Bom Princípio

Pesquisa realizada por Felipe Kuhn Braun mostra como era a vida nas colônias alemãs do interior riograndense:

"O imigrante Heinrich Harry Roehe foi um líder de sua comunidade e muitas das cartas e documentos que ele escreveu e trouxe da Alemanha, ainda são preservadas pelos seus descendentes. Roehe rompeu tradições da sua época, ao se instalar em Porto Alegre trocou de religião e se casou com uma paulista residente na capital, Maria Gonçalves Trindade, descendente de portugueses. Maria tinha mais de trinta anos quando casou e demorou muitos anos até ter um filho, algo raro para a época. O primeiro filho do casal Roehe nasceu somente oito anos depois do casamento, o menino saudável, batizado pelo padre polonês Agostinho Lipinski passaria a se chamar Henrique.

Maria passou muito mal e veio a falecer dez dias depois do nascimento de Henrique. O pai tinha muitos compromissos e pediu para que sua vizinha Barbara, uma bela jovem de 17 anos cuidasse de Henrique. Cinco meses se passaram e Heinrich Harry casou com Maria Marbara Doehren. A moça que cuidou de Henrique virou sua madrasta. Junto com Barbara, o imigrante Roehe teve mais nove filhos, sete dos quais, chegaram a fase adulta. Como Barbara não fazia distinção entre seus sete filhos e seu enteado, ela e seu marido combinaram de jamais contar a Henrique que ela não era sua mãe. Acontece que pouco depois de Henrique completar seus 21 anos, ele soube por meio de outras pessoas que sua mãe havia falecido jovem e que Barbara era sua madrasta.

Como uma forma de recompensar o filho pelos sofrimentos e de também proporcionar a ele melhores oportunidades, Heinrich Harry pagou a Henrique o curso de Direito. Cursar Direito na segunda metade do século passado exigia muitos recursos e grandes desafios. No Rio Grande do Sul não havia Universidades na época. Henrique foi a São Paulo e ficou hospedado com seus parentes paulistas. Depois de alguns anos ele voltaria para o sul e se instalaria em Bom Princípio onde se tornaria o primeiro escrivão da localidade no ano de 1889. Henrique se casou com uma neta do fundador de Bom Princípio, Maria Schneider e com ela teve oito filhos."

753- Advogado, escrivão, maçom e homeopata

Felipe Kuhn Braun realizou importante pesquisa sobre o ilustre, e pouco lembrado, principiense Henrique Roehe:

"Henrique tinha paixão pelas plantas, nos tempos livres se dedicava a estudá-las. Em uma época em que havia esparsos recursos na medicina eram as parteiras, os homeopatas e os religiosos as pessoas procuradas pela comunidade em casos de doenças. Henrique além de ser advogado e escrivão, foi o primeiro médico homeopata de Bom Princípio, por anos Henrique foi procurado pelos Bom Principienses, o sótão de sua casa era repleto de livros sobre a cura através das plantas, como relembra uma de suas netas, Lourdes Heck Steffens de 81 anos, moradora de Novo Hamburgo.

No final dos anos de 1890 Roehe entrou para a maçonaria de São Sebastião do Caí. Infelizmente no ano de 1912 a esposa de Henrique, Maria faleceu jovem, com 42 anos. Maria faleceu de hidropisia, doença muito conhecida antigamente, “causada por distúrbios na circulação do sangue, gera acumulação de líquido aquoso nas cavidades do corpo¹”. Com o falecimento de sua esposa, Henrique transferiu sua residência para o município de Montenegro, na época uma de suas filhas mais velhas, Emília Catarina, já havia se casado com Jacob Aloísio Heck e não transferiu residência com o pai. Em Montenegro Henrique tinha um maior campo para trabalho, ali Roehe atuava em causas de pequenas e grandes empresas montenegrinas segundo nos conta seu neto Henrique Harry Roehe de 80 anos, residente em Montenegro.Henrique faleceu no ano de 1917 da mesma doença que vitimou sua esposa, cinco anos antes. Foi enterrado no município de Montenegro. Deixou sete filhos e 42 netos. Os descendentes de Roehe podem se sentir honrados em ter um antepassado que foi tão importante para a região. Faleceu jovem aos 53 anos, porém, em pouco mais de cinco décadas foi advogado, escrivão, maçom e médico homeopata. Foi um intelectual para a sua época."

752 - O Caí ganha um livro de História

Através da memória do padeiro Bernardo Costa, a história recente de São Sebastião do Caí foi registrada em livro

Apesar de São Sebastião do Caí ser um município antigo e importante para a história do Rio Grande do Sul, poucos livros foram escritos tratando da sua história. Os mais significativos foram "Caí", escrito por Alceu Masson, editado pela Prefeitura Municipal de Caí e impresso pela Livraria Caiense no ano de 1940.
Alceu Masson foi autor de vários livros e tradutor de outros (editados, inclusive, pela Livraria do Globo), além de artista plástico. Foi, também, funcionário municipal. E a sua esposa, dona Dalila Masson, foi competente escrivã, titular do cartório local. A monografia Caí não é exclusivamente histórica, abordando também aspectos geográficos, econômicos, políticos e administrativos do município,
Outra obra importante, da qual reproduzimos alguns trechos neste blog, é o volume Reminiscências, de Helena Cornelius Fortes, editado em 1975. Afora isto, o que se tem são obras que tratam de assuntos diversos nos quais se encontram algumas informações sobre o passado caiense, como as biografias do Padre Amstad e do Pastor Hunsche.
Agora acaba de surgir mais um livro que vem a ser a terceira obra especialmente dedicada à história caiense.
Trata-se do livro "Bernardo Padeiro", que tem como subtítulo "Uma vida caiense".
Seu tema é a história caiense no período compreendido pela vida de Bernardino Costa (de 1933 à atualidade). Foi escrito com base em longa entrevista com este personagem e complementado com pesquisas e análises feitas pelo autor. Revela muitos aspectos da vida do caiense comum, sob a ótica de Bernardino, que foi padeiro e percorria diariamente as ruas da cidade, conhecia a população inteira e é muito comunicativo. Pretende, com isto, pintar um retrato do povo caiense e da forma como ele viveu e evoluiu ao longo do século XX.
É o quarto livro de Renato Klein que chega a ser editado. Todos eles referentes à história do Vale do Caí. Primeiro referente a São Sebastião do Caí.


751 - Brasileiros e alemães

O livro Bernardo Padeiro é composto de 51 capítulos, que abordam aspectos da vida caiense em diferentes épocas do século XX. Um exemplo é o capítulo "Brasileiros e Alemães", que reflete a divisão social existente por volta de 1940:

"Algumas das brigas que aconteciam na época se deviam à rivalidade entre as pessoas de origem alemã e as de origem portuguesa.
Desenvolvia-se a guerra na Europa, na qual a Alemanha de Hitler lutava contra a Inglaterra e a França. Principalmente na fase inicial do conflito, quando a Alemanha mostrou grande poderio militar e obteve vitórias avassaladoras, a população de origem germânica que vivia no Caí se mostrava eufórica. Neste período inicial da guerra o Brasil se manteve neutro no conflito. E pode se presumir que a razão pela qual Getúlio Vargas demorou para se posicionar contra os alemães na guerra tenha sido o respeito que ele tinha pela colônia alemã do Rio Grande do Sul, estado do qual ele foi governador no final da década de 20. Assim como o Caí, também Porto Alegre era uma cidade de forte presença da população germânica. E os alemães eram - tanto em Porto Alegre como no Caí - o setor mais dinâmico da sociedade, contando com figuras admiráveis como o caiense A J Renner (empresário nascido em Alto Feliz, que começou sua atividade de empreendedor no Caí, mudando sua empresa para Porto Alegre na década de 10 e que veio a se tornar no mais notável empresário gaúcho da primeira metade do século XX).
No Caí, as pessoas de origem alemã falavam o idioma alemão, tinham aulas em alemão nas escolas (que eram particulares, mantidas pela comunidade com apoio financeiro do governo), assistiam a filmes alemães que eram apresentados nos cinemas e tinham enorme orgulho da sua descendência. Os descendentes de alemães, tinham, via de regra, um padrão cultural e econômico superior ao da população de origem lusa e sentiam orgulho disso. Costumavam chamar as pessoas de origem portuguesa de “ploa”. A convivência entre alemães e “ploas” era predominantemente harmoniosa, mas existiam também conflitos e ressentimentos.
Bernardino Costa lembra que, durante a guerra, grupos de descendentes de alemães passavam pelas ruas da cidade cantando em alemão, imbuídos de forte espírito patriótico.
Assistindo ao desfile, Bernardo, perguntou a outro menino luso qual a razão daquele comportamento dos alemães e ouviu o seguinte comentário:
- Eles estão felizes porque a Alemanha está indo bem na guerra e, se ela ganhar, os brasileiros vão ter de lavar os pés deles."